A província de Nuristão, no leste do Afeganistão, foi palco de confrontos que resultaram na morte de 28 combatentes, conforme divulgado pelo Ministério da Defesa afegão. O incidente, ocorrido no domingo, dia 26 de setembro de 2026, reacende as tensões entre Cabul e Islamabad, com ambos os lados trocando acusações sobre a origem e o apoio aos grupos armados na região fronteiriça.

Confronto em Nuristão e Acusações Afegãs

As forças de segurança do Afeganistão anunciaram ter neutralizado 28 combatentes que, segundo o Ministério da Defesa, teriam cruzado a fronteira vindo do Paquistão. Em uma declaração oficial publicada na plataforma X (anteriormente Twitter), o ministério, controlado pelo Talibã, confirmou o engajamento em confrontos com o grupo opositor.

A gravidade da situação foi acentuada pelas alegações do Ministério da Defesa afegão. De acordo com a pasta, a maioria dos combatentes mortos seriam ex-membros das forças de segurança do governo afegão anterior, que teriam sido recrutados pelos serviços de inteligência paquistaneses. As promessas de asilo e empregos bem remunerados em países estrangeiros teriam sido os incentivos para o recrutamento. Além disso, o ministério afegão afirmou que o grupo incluía combatentes do ISIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante, também conhecido como ISIS) e que estes teriam recebido apoio de milícias paquistanesas.

Resposta Paquistanesa e Negação Veemente

Em resposta às acusações de Cabul, o Ministério da Informação e Radiodifusão do Paquistão emitiu uma declaração, também via X, refutando categoricamente as alegações. A pasta paquistanesa descreveu as acusações como “frivolous, infundadas e desprovidas de qualquer verdade”.

O Paquistão negou qualquer envolvimento de suas forças de segurança ou agências de inteligência nos confrontos em Nuristão. A declaração paquistanesa negou ainda ter recrutado ou treinado ex-membros das forças de segurança afegãs, bem como ter facilitado a atuação do ISIL (ISIS) ou de quaisquer outros grupos armados no Afeganistão.

O Ministério da Informação do Paquistão afirmou que o Talibã “deveria tomar ações críveis e verificáveis contra organizações terroristas operando em seu território” e cumprir sua obrigação para que “o solo afegão não seja usado para terrorismo contra o Paquistão ou qualquer outro país, em vez de tentar desviar a responsabilidade através de acusações fabricadas”.

Escalada de Tensões e Ataques Anteriores

Os recentes confrontos e a troca de acusações são um reflexo da crescente tensão entre o Afeganistão e o Paquistão. Na semana anterior ao incidente em Nuristão, o Paquistão realizou ataques aéreos em dez localidades no Afeganistão. Islamabad justificou os ataques afirmando que esses locais eram utilizados para armazenar e lançar drones, alguns dos quais teriam sido empregados em ataques transfronteiriços.

Os ataques aéreos paquistaneses, realizados na quinta-feira, resultaram na morte de pelo menos quatro pessoas, segundo um porta-voz do governo Talibã afegão, que prometeu uma “resposta apropriada”. O Paquistão tem reiteradamente acusado o Afeganistão de abrigar combatentes que atacam seu território, uma alegação que Cabul consistentemente nega.

A Taliban security personnel stands guard near a damaged house, after Pakistani airstrike struck Gurbuz district in Afghanistan's Khost province on September 24, 2026.
A Taliban security personnel stands guard near a damaged house, after Pakistani airstrike struck Gurbuz district in Afghanistan's Khost province on September 24, 2026.

O incidente de domingo segue-se a outros ataques aéreos paquistaneses no Afeganistão, ocorridos em 21 de setembro. Naquela ocasião, Islamabad afirmou ter matado 28 combatentes. No entanto, autoridades afegãs relataram que civis foram mortos, e a missão da ONU no Afeganistão confirmou a morte de três civis.

Histórico de Desconfiança e Impacto Regional

A relação entre Afeganistão e Paquistão tem sido historicamente marcada por desconfiança e alegações mútuas de apoio a grupos insurgentes. A fronteira de 2.670 quilômetros (1.660 milhas) entre os dois países, conhecida como Linha Durand, é uma fonte constante de atrito, com o Afeganistão nunca reconhecendo-a formalmente.

A instabilidade na fronteira e a escalada de confrontos têm um impacto significativo na segurança regional. A presença de grupos armados e a retórica belicosa entre os governos dificultam a estabilização de uma região já fragilizada por décadas de conflito. As acusações de apoio a terroristas e o uso do território para ataques transfronteiriços são elementos que alimentam um ciclo vicioso de violência e represálias.

Cenário de Crise Humanitária e Política

A situação de segurança é agravada por uma crise humanitária persistente no Afeganistão, onde milhões de pessoas dependem de ajuda internacional. A instabilidade política e os conflitos armados contínuos dificultam a entrega de assistência e a recuperação econômica do país. A comunidade internacional observa com preocupação a escalada, temendo que a deterioração das relações entre Afeganistão e Paquistão possa ter consequências ainda mais amplas para a paz e a estabilidade na Ásia Central e do Sul.

A falta de um diálogo construtivo e a persistência das acusações mútuas indicam que a resolução das tensões fronteiriças e a cooperação no combate ao terrorismo permanecem desafios complexos para ambos os países.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.