Em uma rodovia nas proximidades do aeroporto internacional de Larnaca, no Chipre, motoristas e passageiros depararam-se durante o verão com um painel publicitário com mensagem estampada em hebraico: “Israelenses, aproveitem! Agora voltem e vençam!”. O anúncio de campanha promovia o ex-chefe das forças armadas e líder do partido opositor Yashar, Gadi Eisenkot, visando a eleição israelense marcada para 27 de outubro. O episódio ilustra a rápida transformação demográfica e econômica pela qual a ilha mediterrânea vem passando nos últimos anos.
Como a legislação de Israel restringe o voto no exterior para a maioria dos cidadãos, postulantes a cargos públicos passaram a buscar eleitores na ilha vizinha, situada a cerca de 40 minutos de voo do território israelense. Essa proximidade geográfica facilita o deslocamento para votar e retornar no mesmo dia, alterando a dinâmica cotidiana das cidades cipriotas.
“Israel fica a apenas 40 minutos de avião; eles podem dar um pulo lá, votar e voltar no mesmo dia.”
— Melanie Steliou, apresentadora de televisão e ativista pró-Palestina
A influência não se limita às ruas e rodovias. No âmbito institucional, seis parlamentares cipriotas oficializaram em 20 de outubro a criação de uma bancada pró-Israel, iniciativa lançada pela organização de representação política Israel Allies Foundation, conforme noticiado pelo jornal The Jerusalem Post.

Salto nos investimentos e no perfil dos fluxos de capital
Historicamente, o Chipre já serviu de abrigo para capitais externos variados. A cidade costeira de Limassol chegou a receber o apelido de “Limassolgrad” devido à intensa movimentação de investidores e empresas russas ao longo da década de 2010. Contudo, analistas apontam diferenças substanciais no movimento atual de investidores vindos de Israel.
De acordo com Theodosis Pipis, historiador e analista do centro de estudos KEDISA, a presença de empresas russas resultou na construção de edifícios comerciais de grande porte, sem envolver a formação estruturada de comunidades residenciais com colégios próprios. O fluxo recente, por outro lado, apresenta características de fixação duradoura.
“Você não compra essa quantidade de terra se preparando para criar comunidades com escolas… se não estiver planejando ficar ali a longo prazo.”
— Theodosis Pipis, historiador e analista do KEDISA
Dados do Banco Central do Chipre indicam que o investimento direto oriundo de Israel saltou mais de seis vezes entre 2017 e 2024, alcançando 5,1 bilhões de euros (cerca de US$ 5,9 bilhões). O crescimento ocorreu em um período no qual o investimento estrangeiro total no país encolheu cerca de 25% entre 2022 e 2024, e os ativos vinculados à Rússia registraram retração superior a um terço.

Turismo maciço e expansão no mercado imobiliário
As estatísticas oficiais de turismo e habitação confirmam a magnitude desse intercâmbio. De acordo com o Serviço de Estatística do Chipre (CYSTAT), cidadãos israelenses realizaram quase 600 mil viagens à ilha no último ano apurado, montante que mais do que dobrou na comparação com os registros de 2022. Em agosto recente, quase 25% de todos os visitantes que desembarcaram no Chipre eram provenientes de Israel, marcando uma expansão de 28,4% na comparação anual com 2025.
Paralelamente ao turismo de lazer, cresceu a aquisição definitiva de imóveis residenciais. Registros do Ministério do Interior cipriota apontam que, no acumulado de 12 meses encerrado em setembro de 2025, israelenses formalizaram 850 compras imobiliárias no distrito de Larnaca, liderando com folga o ranking entre todas as nacionalidades estrangeiras.
Estimativas divulgadas pela embaixada israelense em Nicósia e reportadas pelo veículo cipriota Philenews em agosto apontam que entre 15.000 e 20.000 israelenses consideram atualmente o Chipre como residência. No último censo oficial realizado no país em 2021, o total de cidadãos de Israel registrados ou vivendo formalmente na ilha era de pouco mais de 1.000 pessoas.

Projetos residenciais fechados, colégios e hospitais
O direcionamento do capital para faixas costeiras e loteamentos organizados suscita debates entre moradores, agentes imobiliários e lideranças políticas locais. No distrito de Larnaca, o portal de notícias econômicas Stockwatch reportou que corporações israelenses adquiriram parcelas consideráveis da faixa litorânea situada entre Livadia e Pyla com foco na instalação de condomínios e hotéis. Na mesma região, em Dromolaxia-Meneou, investidores desenvolvem o maior empreendimento habitacional planejado do país, provido de creche própria, áreas aquáticas e parque de acesso privativo.
Empreendimentos comerciais do setor de hospitalidade também consolidaram presença, a exemplo do NYX Hotel Limassol, pertencente ao grupo Fattal, a maior rede hoteleira de Israel. No setor de saúde, a organização Hadassah, sediada nos Estados Unidos sob a denominação Hadassah, The Women’s Zionist Organization of America, inaugurou em julho, em Limassol, o seu primeiro complexo hospitalar em solo europeu.

Debates sobre autorizações urbanísticas e marcos legais
Na periferia de Limassol, na localidade de Polemidia, a Fundação Yael financia a construção de uma instituição educacional voltada para atender até 1.500 estudantes, com previsão de entrega em 2027. O rabino Yehoshua Smukler, líder da iniciativa, descreveu a unidade como uma instituição educacional sionista.
O projeto enfrentou questionamentos quanto aos ritos burocráticos. O jornal local Kathimerini revelou que, em fevereiro de 2025, o Ministério da Educação cipriota informou não ter recebido solicitação formal de aprovação para a escola; até outubro daquele mesmo ano, o Ministério da Fazenda declarava que o trâmite processual ainda estava em fase de conclusão. A administração municipal de Polemidia manifestou descontentamento por não ter sido consultada previamente, lembrando que uma proposta anterior da prefeitura para erguer um complexo esportivo no mesmo terreno havia sido indeferida pelas autoridades centrais.
Em junho de 2025, o secretário-geral do partido progressista cipriota AKEL, Stefanos Stefanou, criticou a proliferação de comunidades fechadas:
“Áreas específicas estão sendo compradas em massa. Não dizemos isso por xenofobia ou antissemitismo.”
— Stefanos Stefanou, líder do partido AKEL
Na ocasião, o diplomata Oren Anolik, então embaixador de Israel no Chipre, rejeitou as declarações de Stefanou, argumentando que as falas buscavam estigmatizar a comunidade judaica local. Analistas jurídicos, como Nasia Hadjigeorgiou, professora associada de direitos humanos na Universidade de Central Lancashire no Chipre, recordam que a legislação cipriota e a Convenção Europeia de Direitos Humanos proíbem diferenciações por nacionalidade ou religião, tornando irregular qualquer condomínio de comercialização restrita exclusiva.

Tensões sociais e compra de terras em áreas protegidas
No oeste cipriota, o empresário Uriel Kertesz, detentor de cidadania húngara e israelense, adquiriu cerca de 70% a 80% da aldeia desabitada de Trozena, incluindo propriedades agrícolas contíguas situadas em área de preservação ambiental. Conforme apuração do jornalista Yiannis Pazouros, do periódico Politis, o uso do passaporte comunitário europeu isentou o investidor de barreiras aplicadas a estrangeiros extracomunitários, embora as operações tenham ocorrido sem licenças ambientais prévias para a zona protegida. Kertesz não detalhou publicamente os planos para o vilarejo.
Ao mesmo tempo, episódios pontuais de atrito vêm sendo registrados em centros urbanos. Moradores relatam desentendimentos durante marchas em solidariedade aos palestinos e atos de vandalismo em murais urbanos dedicados a vítimas civis na Faixa de Gaza. Em Larnaca e Limassol, grafites com dizeres políticos chegaram a ser removidos por equipes municipais nas primeiras horas da manhã por determinação do Ministério do Interior, após reclamações formais emitidas em agosto de 2025 pelo ministro dos Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli.
Para parcelas da população do Chipre — nação marcada pela divisão territorial decorrente dos acontecimentos bélicos de 1974 —, a reconfiguração rápida do espaço urbano e fundiário em meio a guerras regionais desperta apreensão sobre o futuro da convivência e do ordenamento territorial do país.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
