Em um cenário internacional pautado por instabilidades e revisões de alianças diplomáticas, os bancos centrais de diversas nações intensificaram a aquisição de ouro e adotaram uma postura de cautela sobre os locais de custódia dessas reservas. Os conflitos envolvendo a Rússia e a Ucrânia, as tensões no Oriente Médio reunindo Estados Unidos, Israel e Irã, além dos impactos das políticas tarifárias de Donald Trump e as disputas comerciais decorrentes, têm impulsionado a busca pelo metal como ativo de segurança. Paralelamente ao aumento dos volumes adquiridos, cresce a retirada de reservas anteriormente armazenadas em território norte-americano.

O avanço expressivo nas compras globais do metal

Estimativas apuradas pelo Goldman Sachs apontam que as autoridades monetárias internacionais adquiriram 79 toneladas de ouro em agosto. Esse montante representa mais de quatro vezes a média mensal verificada antes de 2022, marco inicial do conflito armado em território ucraniano. Quando analisado o desempenho do último trimestre com ajuste sazonal, o ritmo de compras atinge aproximadamente 85 toneladas a cada mês.

A intensidade das aquisições reflete a busca por alternativas de proteção patrimonial frente à volatilidade econômica e às sanções financeiras globais. Com os ativos tradicionais sujeitos a bloqueios e turbulências externas, governos têm canalizado recursos para o ouro físico, tradicional refúgio em períodos de crise extrema.

Fatores geopolíticos e o distanciamento das moedas do G7

O ambiente de insegurança internacional tem obrigado governos a tomarem posições públicas claras, mesmo quando os embates ocorrem distantes de seu território e encontram resistência na opinião pública interna. De acordo com a avaliação do Goldman Sachs, permanecem ativas as razões estruturais que levam vários países a diminuir a dependência em relação às moedas de reserva emitidas pelas nações do G7, com foco na redução da exposição ao dólar norte-americano.

Bancos centrais aceleram compra de ouro e transferem reservas fora dos EUA
Foto: InfoMoney — Economia

O papel da China e a busca por anonimato nas operações

A China figura com destaque entre os agentes que impulsionam essa demanda internacional. Os dados compilados pelo Goldman Sachs calculam que o país asiático comprou por volta de 25 toneladas de ouro no mês de agosto. Embora a participação do metal nos cofres chineses ainda seja considerada baixa sob critérios históricos de longo prazo, Pequim desponta como a maior compradora declarada publicamente.

O fato de a China ser o principal comprador identificado sugere que outros países podem estar realizando aquisições em proporções ainda maiores sem a devida divulgação oficial. As compras não reportadas reforçam uma postura de discrição adotada por governos que preferem manter em sigilo a composição exata de suas contas estratégicas.

Mudança de estratégia: de quanto comprar para onde estocar

Enquanto os países emergentes ampliam as aquisições, os bancos centrais de economias desenvolvidas mantêm um ritmo de compras menos expressivo, visto que já detêm estoques consolidados historicamente. Para essas nações, o debate prioritário deixou de ser a quantidade de metal a ser adquirida e passou a ser o local geográfico mais seguro e eficiente para armazená-lo.

Nesse contexto, o banco central da Holanda comunicou em setembro a transferência de 86 toneladas de ouro que estavam custodiadas em Nova York e em Ottawa para a cidade de Londres, em uma operação que durou seis meses. O objetivo declarado foi aprimorar a capacidade de resposta do país em cenários adversos de crise.

“O ouro armazenado no Banco da Inglaterra é considerado o mais líquido e negociável do mundo.”

Segundo a instituição holandesa, o agravamento das incertezas internacionais exige que as reservas estejam alocadas em centros financeiros que assegurem liquidez rápida e negociações ágeis durante fases de estresse no mercado financeiro global.

Bancos centrais aceleram compra de ouro e transferem reservas fora dos EUA
Foto: InfoMoney — Economia

Transferências na Europa e esvaziamento em Nova York

A reorganização logística também envolveu outras autoridades europeias. Em março, o Banco da França comunicou a redução de parte do ouro que mantinha em Nova York, realocando o volume para o continente europeu. Embora os franceses tenham fundamentado a decisão em parâmetros técnicos ligados aos padrões de pureza e qualidade do metal, o episódio soma-se a um fluxo contínuo de redistribuição geográfica das reservas.

Dados divulgados pelo Goldman Sachs mostram que os cofres do Federal Reserve de Nova York registraram uma baixa de 40 toneladas de ouro em agosto. No mesmo intervalo, os depósitos mantidos sob custódia no Banco da Inglaterra tiveram um acréscimo de 46 toneladas, evidenciando a preferência momentânea pelo mercado londrino.

Bancos centrais aceleram compra de ouro e transferem reservas fora dos EUA
Foto: InfoMoney — Economia

Crescimento do sigilo e reforço das fronteiras nacionais

O movimento de realocação acompanha uma restrição deliberada de informações por parte dos órgãos reguladores. Uma pesquisa setorial realizada neste ano indicou que 12% dos bancos centrais se negaram a detalhar onde guardam suas reservas de ouro, percentual superior aos 10% apurados na edição do ano anterior.

O mesmo levantamento identificou duas tendências adicionais na gestão do ativo:

  • Maior dispersão geográfica das reservas entre diferentes jurisdições internacionais;
  • Aumento do volume de ouro repatriado para armazenamento dentro do próprio território nacional.

A perspectiva de confidencialidade tende a continuar nos próximos períodos. Praticamente um em cada cinco bancos centrais ouvidos na pesquisa optou por não divulgar onde planeja alocar suas reservas de ouro no horizonte dos próximos 12 meses, ao passo que outros gestores confirmaram que seguirão diversificando os locais de custódia para mitigar riscos políticos e operacionais.

Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.