Quase uma década após o falecimento do policial militar Alan Damasceno Castro, sua esposa, a cabeleireira Ranielly Antunes Castro, foi absolvida pelo Tribunal do Júri nesta quinta-feira (20/8). A decisão, confirmada pelo advogado Lindenberg Pessoa, que representa a ré, foi proferida por um placar apertado de 4 votos a 3, onde o júri popular concluiu que Alan, na verdade, teria cometido suicídio.

Ranielly era acusada de homicídio qualificado por motivo torpe e respondia ao processo em liberdade. O caso que levou ao julgamento ocorreu na noite de 25 de outubro de 2016, no município de Osasco, localizado na Grande São Paulo.

Detalhes do Caso e a Acusação Inicial

De acordo com o exame necroscópico realizado na época, Alan Damasceno Castro morreu em decorrência de hemorragia interna, causada por ferimentos provocados por três disparos de arma de fogo. Um dos tiros atingiu a região cervical, entre o queixo e o pescoço, enquanto os outros dois foram no tórax.

Inicialmente, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) apontou a cabeleireira como a responsável pelos disparos. A denúncia do promotor Marco Antonio de Souza afirmava que Ranielly, após ter sua fidelidade questionada pelo marido, teria pegado a pistola .40 do PM e atirado contra ele. No entanto, a defesa de Ranielly sustentou desde o início que o policial teria atirado contra si mesmo.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) sobre a autoria dos tiros foi inconclusivo, reconhecendo que tanto a hipótese de homicídio quanto a de suicídio eram plausíveis diante das evidências.

Cabeleireira Ranielly Antunes Castro e o então marido, o PM Alan Damasceno Castro
Cabeleireira Ranielly Antunes Castro e o então marido, o PM Alan Damasceno Castro

Versões dos Fatos e Laudos Contraditórios

Alan e Ranielly eram casados há aproximadamente dois anos. Na noite da morte do policial, o casal estava em meio a uma discussão, iniciada após Alan acusar a esposa de traição, algo que ela nega veementemente.

A versão de Ranielly difere substancialmente da acusação. Ela afirma que, durante a discussão, foi agredida pelo PM e ameaçou denunciá-lo à Corregedoria da Polícia Militar. Segundo seu relato, Alan teria então repetido a frase “Ranielly, minha vida acabou” antes de pegar sua própria arma e atirar contra si mesmo. Ranielly alega que Alan sobreviveu ao primeiro disparo e, com dor, teria pedido para que ela o matasse. Ela nega ter efetuado qualquer disparo, mesmo por compaixão. A cabeleireira conta que tirou a arma do chão, colocou-a sobre uma mesa e se escondeu, temendo a reação de Alan. Em seguida, ela teria visto o PM se levantar, pegar a pistola da mesa, abrir o próprio colete à prova de balas e efetuar os dois últimos disparos.

“Ranielly, minha vida acabou”

A perícia técnica observou a presença de resíduos de pólvora nas mãos tanto da vítima quanto da ré, o que não ajudou a esclarecer a autoria dos disparos de forma definitiva.

Análises Periciais e a Dúvida sobre a Autoria

A complexidade do caso foi acentuada pelos laudos periciais. Em um documento assinado em 6 de novembro de 2016, o médico perito Sérgio de Paula Moura expressou a crença de que “Alan Damasceno Castro efetuou o primeiro disparo contra a própria cabeça e, tendo falhado em produzir o próprio óbito, procedeu para a execução de mais dois disparos fatais”. Contudo, ele adicionou uma ressalva crucial, afirmando que, considerando a posição dos ferimentos causados pelos projéteis, é “altamente improvável” que Alan Damasceno Castro tenha efetuado os dois últimos disparos “carecendo de auxílio manual direto para o posicionamento da pistola”.

Cabeleireira é Absolvida Após Quase Uma Década de Acusação de Homicídio de PM
Foto: Metrópoles — Nacional

Posteriormente, em 2017, um laudo complementar elaborado pelo médico legista Hermógenes Biondi Santos considerou “pouco provável” que a vítima tivesse se levantado após ser atingida pelo primeiro tiro, andado de cinco a seis metros para pegar a arma, aberto o velcro do colete e efetuado mais dois disparos contra o próprio tórax. Essas análises contribuíram para a incerteza que permeou o caso por quase uma década, culminando na decisão do júri popular.

O Veredito e Suas Implicações

A absolvição de Ranielly Antunes Castro pelo Tribunal do Júri encerra um longo período de incertezas e acusações. A decisão por 4 votos a 3 reflete a complexidade das provas e a dificuldade em determinar a autoria exata dos disparos, com o júri optando por aceitar a tese de suicídio. Este veredito reforça a importância do julgamento por pares em casos onde as evidências não são totalmente conclusivas, permitindo que a sociedade, através de seus representantes no júri, chegue a uma conclusão sobre a responsabilidade criminal.

Fonte: Metrópoles — Nacional — matéria original publicada em metropoles.com. Imagens e vídeos: Metrópoles — Nacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.