O cenário global de segurança alimentar enfrenta um momento crítico, com a Agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lidando com uma significativa redução em seu financiamento. Especialistas alertam que essa diminuição de recursos, impulsionada principalmente pela retração de apoio dos Estados Unidos, pode deixar o mundo despreparado para prever e responder a crises alimentares que se avizinham, exacerbadas por conflitos geopolíticos e fenômenos climáticos extremos.

Cortes de Financiamento e o Risco de 'Cegueira'

Phil Hogan, ex-comissário da União Europeia e atual candidato à liderança da FAO, destacou em entrevista exclusiva à CNBC em Singapura que outras nações precisarão preencher a lacuna de financiamento deixada pela redução do apoio de Washington. A administração Trump, por exemplo, já havia diminuído drasticamente a ajuda externa dos EUA, desmantelando a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que já foi a maior doadora humanitária do mundo.

Essa escassez de fundos significa menos monitoramento e vigilância para o alerta precoce de problemas iminentes, conforme apontou Chris Barrett, economista agrícola e de desenvolvimento da Universidade Cornell. Ele adverte que a capacidade global de amortecer os impactos sobre famílias pobres, que enfrentam a alta nos preços dos alimentos, será severamente limitada.

“É importante continuar a apoiar [a agência] financeiramente... à medida que os Estados Unidos se retiram de alguns desses programas, outros países membros da FAO terão que intervir para garantir que todas as questões de doenças animais e segurança alimentar permaneçam em vigor”, declarou Hogan à CNBC.

Barrett acrescenta que a consequência final é o agravamento dos problemas de fome e a instabilidade sociopolítica, à medida que as populações se frustram com governos incapazes de salvaguardar sua segurança alimentar. Dados da Organização Mundial da Saúde e do Programa Mundial de Alimentos da ONU indicam que mais de um quarto da população mundial enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave em 2025, e mais de 266 milhões de pessoas enfrentam fome aguda este ano.

Conflitos e El Niño: Um Coquetel Perigoso

A situação é agravada por múltiplos fatores de risco. O conflito no Oriente Médio e a crise no Estreito de Ormuz, uma rota marítima vital, têm gerado temores de uma catástrofe agroalimentar global, com a interrupção no fluxo de fertilizantes e exportações de energia. A FAO já alertou que países pobres são os mais expostos, pois atrasos no fornecimento de commodities podem levar a menor produção, inflação mais alta e crescimento global mais fraco.

A prolongada guerra na Ucrânia também continua a afetar o comércio global de trigo através do Mar Negro, intensificando os efeitos econômicos e minando a segurança alimentar em nações vulneráveis. As previsões de um forte evento El Niño, um fenômeno climático que altera padrões de chuva e temperatura globalmente, ameaçam ainda mais a segurança alimentar global.

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“Estamos entrando nisso a caminho de ficarmos cegos e com uma mão amarrada nas costas, em termos de capacidade global de prever e responder a grandes crises alimentares”, afirmou Chris Newton, analista de segurança alimentar do International Crisis Group.

Hogan também criticou a atuação da FAO na Iniciativa de Grãos do Mar Negro, um acordo agora suspenso entre Rússia, Ucrânia, Turquia e a ONU para garantir o fluxo de exportações de alimentos e fertilizantes da Ucrânia. Ele sugeriu que a agência poderia ter sido mais proativa.

“Talvez a FAO estivesse um pouco atrasada em não elevar esta questão e se envolver mais centralmente em soluções em torno da segurança alimentar dentro da família das Nações Unidas”, disse ele, observando que, embora a ONU tenha desempenhado um papel fundamental, a FAO “não estava à mesa”.

Propostas para um Orçamento Mais Apertado

Diante do cenário de orçamentos mais apertados, Hogan enfatizou que qualquer plano de reforma para a FAO deve considerar essa realidade. Sua proposta para os primeiros 100 dias de mandato incluiria a realocação de funcionários da sede para escritórios em “pontos críticos de fome”, regiões caracterizadas por severa escassez de alimentos.

O candidato também destacou a importância da eficiência de custos e da colaboração com outras agências da ONU na implementação do mandato da organização, que visa garantir acesso regular a alimentos de alta qualidade e acabar com a fome e a desnutrição. Choques climáticos, conflitos geopolíticos e uma crise global de combustíveis, somados ao aumento das taxas de juros e cortes de doadores, deixam o mundo mal posicionado para responder a esses desafios.

Asia's oil diversification cushions Iran war shock, but El Niño poses fresh risk: ADB
Asia's oil diversification cushions Iran war shock, but El Niño poses fresh risk: ADB

Perspectivas Divergentes

Apesar dos alertas, alguns especialistas demonstram menos alarme. Ian Mitchell, pesquisador sênior de políticas no Center for Global Development, argumenta que, mesmo com um El Niño “excepcionalmente forte”, as condições para uma crise alimentar global ainda estão distantes. Ele aponta que os estoques globais de grãos permanecem saudáveis em comparação com padrões históricos, e os mercados futuros não indicam uma escassez iminente de oferta.

O que isso significa para a região

A segurança alimentar global é um tema de profunda relevância para o Norte Pioneiro do Paraná, uma região com forte vocação agrícola. Embora a pauta trate de questões internacionais, as flutuações nos preços de commodities como grãos e fertilizantes, causadas por conflitos ou eventos climáticos extremos em outras partes do mundo, têm impacto direto na economia local. Produtores rurais da região podem ser afetados tanto pelos custos de insumos quanto pela valorização ou desvalorização de seus produtos no mercado internacional. Além disso, a capacidade de resposta a crises alimentares em escala global, ou a falta dela, pode gerar instabilidade econômica que, em última instância, repercute em todos os setores, incluindo o de energia, ao influenciar o poder de compra e a demanda por serviços.

Leitura da LZ7 Energia

A segurança alimentar global é um tema de profunda relevância para o Norte Pioneiro do Paraná, uma região com forte vocação agrícola. Embora a pauta trate de questões internacionais, as flutuações nos preços de commodities como grãos e fertilizantes, causadas por conflitos ou eventos climáticos extremos em outras partes do mundo, têm impacto direto na economia local. Produtores rurais da região podem ser afetados tanto pelos custos de insumos quanto pela valorização ou desvalorização de seus produtos no mercado internacional. Além disso, a capacidade de resposta a crises alimentares em escala global, ou a falta dela, pode gerar instabilidade econômica que, em última instância, repercute em todos os setores, incluindo o de energia, ao influenciar o poder de compra e a demanda por serviços. A instabilidade econômica e a inflação podem impactar diretamente o custo de vida e a capacidade de investimento em novas tecnologias, como a energia solar, que oferece uma alternativa para a redução de custos a longo prazo.

Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.