Em um cenário de crescente tensão política na Zâmbia, tribunais na capital, Lusaka, e em outras regiões do país foram fechados e isolados por uma presença policial incomum, às vésperas do prazo final para a apresentação de uma petição contra o resultado da recente eleição presidencial. A medida, que impede o acesso de advogados e do público, ocorre enquanto o candidato da oposição, Brian Mundubile, se prepara para contestar a vitória do atual presidente, Hakainde Hichilema.
Fechamento de Cortes e Medidas de Segurança
As instalações dos tribunais foram isoladas com fitas e uma notável presença policial foi observada em vários locais. Advogados que tentaram acessar os edifícios na segunda-feira foram instruídos a se retirar. Um advogado relatou à BBC que três homens armados se aproximaram de seu veículo, identificaram-se e ordenaram que ele deixasse a área.
Entre os tribunais afetados estão o Tribunal Superior em Lusaka, o Supremo Tribunal (que também abriga o Tribunal Constitucional) e diversos tribunais locais. A duração do fechamento e a data de reabertura não foram informadas. A BBC tentou contato com a polícia zambiana e o judiciário para obter esclarecimentos, mas não houve resposta imediata.
A mídia local citou uma diretriz de um funcionário administrativo do judiciário que instruía todo o pessoal a não comparecer ao trabalho devido ao fechamento dos tribunais por “razões de segurança”. Este memorando, que também foi compartilhado online por figuras da oposição, não detalha a natureza da situação de segurança.
Contexto Eleitoral e Contestações
O prazo final para a apresentação de uma petição contra o resultado da eleição presidencial é esta segunda-feira. Tal petição poderia potencialmente afetar a posse de Hakainde Hichilema, que está agendada para 1º de setembro. Hichilema garantiu um segundo mandato com 60% dos votos, enquanto Brian Mundubile ficou em segundo lugar com 38%.
Mundubile, candidato da oposição, havia declarado anteriormente que contestaria o resultado da eleição, alegando irregularidades. Ele está atualmente em um local seguro, sob a proteção do que sua campanha descreve como um “órgão internacional de direitos humanos”, após ter se escondido em meio a supostas ameaças. O período pós-eleitoral tem sido marcado por controvérsias, incluindo o assassinato de uma figura da oposição e a prisão de outros.

“O candidato da oposição Brian Mundubile disse que contestaria o resultado da eleição, citando irregularidades.”
Preocupações com a Justiça e Direitos Humanos
Comentaristas e organizações têm levantado sérias preocupações sobre o fechamento dos tribunais, questionando a independência do judiciário. Emmanuel Mwamba, uma voz proeminente da oposição, alegou que a ação visava impedir Mundubile de apresentar sua petição eleitoral presidencial.
A Associação de Advogados da Zâmbia (LAZ) expressou sua preocupação com o fechamento dos tribunais e a presença de pessoal militar fortemente armado nas proximidades das instalações judiciais em Lusaka. A LAZ afirmou que não houve uma explicação pública formal para o fechamento nem para sua duração esperada. Referindo-se ao “memorando não assinado” do judiciário para a equipe, a associação declarou que nenhuma informação oficial adicional foi fornecida a advogados e ao público.
“O fechamento dos tribunais tem implicações imediatas para o acesso à justiça, particularmente para pessoas que necessitam de intervenção judicial urgente.”
A associação destacou que o momento do fechamento é “particularmente significativo no atual contexto eleitoral”, citando o “período de sete dias” em que uma pessoa pode “peticionar o Tribunal Constitucional para anular a eleição de um presidente eleito”.

Eventos Pós-Eleitorais e Reações
Apesar do fechamento dos tribunais, os preparativos para a posse de Hichilema parecem continuar. O Ministério da Juventude e Esportes emitiu um convite à mídia para jornalistas acompanharem um funcionário do gabinete em uma inspeção dos arranjos no Estádio Nacional dos Heróis, onde a cerimônia está prevista para ocorrer.
A decisão de Mundubile de se esconder veio após as prisões de figuras da oposição e a morte do ex-ministro Mutotwe Kafwaya durante uma operação de segurança, que as autoridades descreveram como uma troca de tiros. As prisões e a morte de Kafwaya levaram a apelos de grupos de direitos humanos e da Associação de Advogados da Zâmbia por investigações independentes. A Anistia Internacional descreveu o assassinato de Kafwaya como “profundamente alarmante” e pediu investigações rápidas, completas e imparciais. A associação de advogados também expressou “grave preocupação” e exigiu uma investigação.

Observações Internacionais sobre a Eleição
O dia da eleição, 13 de agosto, foi descrito por observadores regionais e internacionais como amplamente pacífico, mas eles levantaram preocupações sobre reformas eleitorais tardias, liberdade de imprensa e acesso à mídia no período que antecedeu a votação. A missão de observação da União Europeia (UE) afirmou que as restrições à oposição podem ter contribuído para uma “disputa desigual”.
Em relação à apuração dos votos, a missão da UE descreveu uma forte presença militar como intimidatória e relatou ter recebido informações sobre ataques a alguns centros de apuração. A missão observou que o pessoal em muitos centros não registrou os resultados nas folhas de apuração assim que foram anunciados, e citou uma fraca verificação entre as entradas digitais e os registros em papel. Além disso, os oficiais eleitorais frequentemente pausavam os procedimentos enquanto aguardavam instruções da sede. A missão da UE também pediu “máxima transparência” sobre o resultado da votação, observando que a comissão eleitoral não publicou os resultados separados das seções eleitorais.
Fonte: BBC News — World (internacional) — matéria original publicada em bbc.com. Imagens e vídeos: BBC News — World (internacional). Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
