Nova Delhi, Índia – A capital indiana é palco da 18ª Cúpula do BRICS, um encontro crucial que reúne os líderes das principais economias emergentes em um cenário geopolítico cada vez mais complexo. Chefes de Estado como o presidente chinês Xi Jinping, o presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi estão presentes, com o objetivo de fortalecer a cooperação e buscar maior influência em um sistema global historicamente dominado por potências ocidentais.
A cúpula, que ocorre em 12 de setembro de 2026, ganha contornos de urgência diante de pressões crescentes. As políticas comerciais do presidente dos EUA, Donald Trump, incluindo tarifas e sanções, têm impactado tanto aliados quanto rivais. Além disso, a guerra entre EUA e Israel contra o Irã, bem como os esforços de Washington para negociar o fim do conflito na Ucrânia, adicionam camadas de complexidade às discussões.
Líderes do BRICS Buscam Respostas a Pressões Externas
A presença de líderes como o presidente iraniano Masoud Pezeshkian na cúpula sublinha a relevância do encontro para países que buscam diversificar suas relações comerciais e financeiras. Embora as políticas de Trump não sejam a única razão para a aproximação entre esses países – Índia e Rússia, por exemplo, mantêm laços estreitos há décadas, e o degelo nas relações Índia-China começou antes das tensões comerciais mais recentes –, as tarifas, sanções e outras medidas econômicas impostas por Washington adicionam um fator significativo aos seus cálculos estratégicos.
A cúpula colocará em foco se essas pressões estão incentivando uma maior cooperação entre os membros do BRICS em áreas como comércio, energia e sistemas de pagamento, mesmo com as profundas divisões internas que podem limitar o alcance dessa colaboração.
A visita de Xi Jinping à Índia é a primeira desde 2019, marcando um passo importante no cauteloso degelo das relações após os confrontos mortais na fronteira disputada do Himalaia em 2020. Modi e Xi têm trabalhado para estabilizar os laços, com a restauração de voos, vistos e contatos de alto nível. No entanto, tensões persistem em relação à fronteira, ao grande déficit comercial da Índia com Pequim e à rivalidade estratégica em toda a Ásia.

Relações Complexas e Motivações Diversas
A Índia, que busca autonomia estratégica, mantém laços com a Rússia e o Irã, melhora as relações com a China e aprofunda a cooperação com Washington, sendo membro do Quad (juntamente com Estados Unidos, Japão e Austrália). Chietigj Bajpaee, pesquisador sênior para o Sul da Ásia no Chatham House, observou que as recentes tensões com a administração Trump levaram Nova Delhi a reinvestir em outras relações.
“O encontro entre Modi e Xi provavelmente impulsionará ainda mais a redefinição contínua das relações bilaterais e construirá confiança. Uma reunião em agosto entre o ministro das Relações Exteriores chinês e o conselheiro de segurança nacional indiano fez progressos notáveis em sua disputa de fronteira de longa data”, afirmou Bajpaee em um artigo recente.
Para a Rússia, as sanções ocidentais impostas devido à guerra na Ucrânia tornaram os parceiros fora da Europa e dos EUA cada vez mais importantes. A China tornou-se um parceiro econômico crucial, enquanto a Índia é uma grande compradora de petróleo russo. Para Putin, o aprofundamento das relações econômicas com a China e a Índia oferece um importante amortecedor contra as sanções, e a cúpula representa uma oportunidade para demonstrar que a Rússia mantém relações com algumas das maiores economias do mundo.
Alternativas ao Dólar e Pagamentos Locais
A campanha de pressão de Trump, que centraliza tarifas em sua agenda econômica e de política externa, e o uso contínuo de sanções e outras medidas econômicas contra a Rússia e o Irã por Washington, têm levado os membros do BRICS a focar em canais alternativos para comércio e pagamentos. O grupo tem discutido o aumento do comércio em moedas locais e o desenvolvimento de mecanismos alternativos de pagamento transfronteiriço.
A Índia tem procurado direcionar o BRICS para longe de uma desdolarização ampla, enfatizando, em vez disso, o uso de moedas nacionais e pagamentos digitais para reduzir o custo do comércio transfronteiriço, de acordo com Bajpaee. A Rússia tem conduzido cada vez mais comércio fora do sistema do dólar, embora o Kremlin tenha declarado recentemente que Moscou não busca uma “desdolarização” total.
Trump já descreveu o BRICS como um “ataque ao dólar” e ameaçou tarifas contra membros caso tentassem minar a moeda dos EUA. No entanto, os membros do BRICS divergem sobre o quão longe desejam reduzir sua dependência do dólar, que continua a dominar as reservas globais e as transações internacionais.

BRICS: Uma 'Família Disfuncional' com Propósitos Limitados
O BRICS expandiu-se para além de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, incluindo países como Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Essa expansão aumentou seu peso econômico e geopolítico, mas também dificultou o consenso. Sarang Shidore, diretor do programa Global South no Quincy Institute, descreveu o BRICS como uma “família disfuncional”. As diferenças emergem “mais obviamente e mais claramente” em questões de segurança, como a participação de Irã e Emirados Árabes Unidos, que estão em lados opostos na guerra no Oriente Médio.
Shidore considera o BRICS um “clube pragmático para propósitos limitados”. Seus membros, segundo ele, estão focados principalmente no desenvolvimento, comércio e reforma de instituições globais, em vez de construir um bloco ideológico contra os Estados Unidos. Bajpaee argumentou que a Índia deseja que o BRICS promova uma visão de mundo não ocidental sem se tornar explicitamente antiocidental, mesmo que alguns membros empurrem o grupo em uma direção mais geopolítica.
O desejo da Índia por laços mais profundos com os EUA ilustra as relações sobrepostas em jogo, que complicam a ideia do BRICS como uma aliança anti-EUA emergente. Outros membros do BRICS, incluindo os Emirados Árabes Unidos, também mantêm laços importantes com Washington enquanto diversificam suas relações econômicas. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, recentemente prometeram investir 46 bilhões de dólares (EUR 42,9 bilhões) na Alemanha em diversos setores. O presidente Xi Jinping deve viajar para os Estados Unidos ainda este mês.
Apesar das visões divergentes sobre seu papel, Bajpaee ressaltou que os membros ainda veem valor no BRICS. Ele lembrou que uma reunião entre Modi e Xi na cúpula de 2024 ajudou a iniciar a redefinição das relações Índia-China. Com Xi, Putin e Modi novamente reunidos em Nova Delhi, a questão é se as tarifas, sanções e outras pressões econômicas dos EUA farão desta cúpula um catalisador para outra mudança significativa.
Leitura da LZ7 Energia
A busca por diversificação de relações comerciais e mecanismos de pagamento alternativos, discutida na cúpula do BRICS, tem implicações diretas para o setor de energia. A dependência de moedas locais e a redução da hegemonia do dólar em transações internacionais podem facilitar o comércio de commodities energéticas, como petróleo e gás, entre os países membros. Para o Brasil, e especificamente para a região do Norte Pioneiro do Paraná, que busca atração de investimentos e desenvolvimento econômico, a estabilidade e a previsibilidade nos mercados de energia são cruciais. A capacidade de negociar insumos energéticos em moedas que não estejam sujeitas às flutuações e sanções de uma única potência global pode trazer maior segurança para empresas e consumidores. Além disso, a ênfase em desenvolvimento e reforma de instituições globais pode abrir portas para novas tecnologias e investimentos em energias renováveis, alinhando-se com a missão da LZ7 Energia de promover a sustentabilidade e a eficiência energética na região.
Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
