NAIVASHA, QUÊNIA – Para as comunidades que vivem ao redor de Naivasha, a água não é um recurso abstrato; ela sustenta famílias, gado, fazendas e escolas. Essa realidade ganhou um novo significado após os planos para um grande data center da Microsoft e G42 em Olkaria, perto do Lago Naivasha, terem sido paralisados em maio de 2026, devido a preocupações com a capacidade de energia disponível. O projeto, anunciado em 2024 como parte de um pacote de investimento digital de US$ 1 bilhão (um bilhão de dólares) para o Quênia, gerou um debate crucial sobre o que outro grande usuário industrial poderia significar para a água em uma região onde os moradores já relatam escassez.
A Microsoft e a G42, uma empresa de inteligência artificial dos Emirados Árabes Unidos, haviam declarado que o campus do data center proposto funcionaria inteiramente com energia geotérmica e, eventualmente, escalaria para até 1 gigawatt de capacidade. No entanto, a incerteza sobre sua viabilidade levanta questões mais amplas sobre a coexistência das ambições tecnológicas do Quênia com as necessidades hídricas da região.
O Projeto e Suas Incertezas
O projeto do data center, que seria uma colaboração entre a Microsoft e a G42, foi concebido para ser alimentado por energia geotérmica, um recurso abundante na área de Olkaria. A Kenya Electricity Generating Company (KenGen), que opera as principais operações geotérmicas do Quênia, confirmou que o data center ainda está em fase de projeto. Frank David Ochieng, diretor de comunicações da KenGen, declarou que não poderia comentar mais detalhes até que o projeto estivesse pronto para avançar.
Apesar da promessa de tecnologia de conservação de água, as empresas não divulgaram um número específico de consumo de água para o projeto em seu anúncio de 2024. Essa falta de transparência alimenta a preocupação de moradores e especialistas, que temem o impacto em um ecossistema já frágil.
“Atualmente, dependemos de vendedores de água para conseguir água, nossos animais andam por quilômetros, e tememos que as coisas piorem à medida que a demanda por água aumenta”, afirmou Musa Olorkedienye, um morador local, em entrevista ao Al Jazeera.
Ele relata que as comunidades ao redor de Olkaria já observaram mudanças no acesso à água, incluindo a perda de suprimentos confiáveis por encanamento que antes recebiam da KenGen. Isaac Leshishi, um pastor, acrescenta que o clima cada vez mais severo agrava a pressão sobre os recursos hídricos.
A Escolha de Olkaria e a Pressão sobre o Lago Naivasha
A escolha de Olkaria para o data center está intrinsecamente ligada à energia. A área abriga as principais operações geotérmicas do Quênia, tornando-a um local atraente para uma instalação que consome muita energia. A KenGen opera o complexo geotérmico de Olkaria, e a Microsoft e a G42 planejavam alimentar o data center proposto inteiramente com essa fonte renovável.

No entanto, o Lago Naivasha, um lago de água doce no Vale do Rift do Quênia, já está sob crescente pressão. Sua bacia hidrográfica sustenta agricultura, turismo, gado e uso doméstico de água, além de abrigar o desenvolvimento geotérmico e outras atividades econômicas. Grace Kimani, líder de patrulha do Lago Naivasha e Oloiden, destacou ao Al Jazeera que o reservatório sofre com o crescimento populacional, agricultura, extração de água, variabilidade climática, poluição e degradação do ecossistema.
“O data center Microsoft-G42 planejado em Olkaria poderia trazer empregos e investimentos, mas sua demanda por água levanta preocupações sobre adicionar pressão a necessidades já concorrentes, particularmente durante períodos de seca”, disse Kimani.
Ela ressaltou a limitada informação pública sobre a demanda de água esperada do projeto, sua fonte e tecnologia de resfriamento. Kimani defende a transparência e uma avaliação do impacto cumulativo nos recursos hídricos, além de tecnologias de resfriamento eficientes em água ou sem água, reciclagem de água e uso de águas residuais tratadas, bem como limites sustentáveis de extração e envolvimento da comunidade no monitoramento.

Silas Wanjala, da Lake Naivasha Riparian Association (Associação Ribeirinha do Lago Naivasha), alertou que a região depende muito da água subterrânea e que a diminuição dos fluxos de água aumenta a pressão. Ele mencionou a Olkaria EcoCloud Data Centre como parceira local no desenvolvimento liderado pela G42, que, segundo a Kenya News Agency em 2024, assinou uma carta de intenções para a iniciativa mais ampla do data center.
“Essas indústrias, especialmente a EcoCloud, que lidam com dados, consumiriam muita água em um momento em que os rios estão secando e a demanda por água está aumentando”, disse Wanjala.
Ele lembrou as flutuações passadas do Lago Naivasha como um aviso. “Este lago em 2010 quase secou devido à superexploração, e isso poderia se repetir devido à alta demanda por água desses investidores em Olkaria”, alertou.
![Kamere landing beach has been flooded by rising water levels in Lake Naivasha, Kenya [Hafsa Abdiwahab Sheikh/Al Jazeera]](https://www.aljazeera.com/wp-content/uploads/2026/08/IMG-20260819-WA00141-1787404768.jpg?w=1280&resize=770%2C513&quality=80)
Contexto de Escassez e Desafios
A preocupação de Wanjala se insere em um contexto mais amplo de escassez de água no Quênia. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que o Quênia tem cerca de 527 metros cúbicos (527.000 litros) de água doce disponível por pessoa, abaixo do limite de 1.000 metros cúbicos para escassez de água. A FAO projeta que a disponibilidade pode cair para cerca de 475 metros cúbicos por pessoa até 2030. Embora esses números não mostrem o efeito direto do data center no Lago Naivasha, eles fornecem o contexto para a intensa fiscalização de um novo grande usuário de água em uma região onde a demanda já é alta.
O volume de água que a instalação proposta da Microsoft-G42 exigiria permanece incerto, pois o anúncio do projeto não forneceu uma estimativa de consumo. No entanto, o uso industrial existente oferece algum contexto: uma avaliação ambiental e social da KenGen registrou que 195.165 metros cúbicos de água foram extraídos do Lago Naivasha em julho de 2023 para usos domésticos e comerciais em Olkaria e para operações e uso doméstico em Eburru. Desse total, 153.918 metros cúbicos foram usados para operações comerciais em Olkaria, dentro dos níveis permitidos pela Water Resources Authority (WRA), a Autoridade de Recursos Hídricos do Quênia.
Eskimos Kobia, um agricultor, expressou ao Al Jazeera que a potencial competição se estende além das famílias e do gado. Ele acredita que agricultores, pastores, escolas e investidores enfrentarão maior pressão à medida que a demanda aumentar. Kimani acrescentou que a variabilidade climática tem levado a flutuações nos níveis do lago, com períodos de inundações seguidos por secas prolongadas, e que a qualidade da água é afetada por escoamento agrícola, águas residuais não tratadas e espécies invasoras.

Investimento versus Preocupações Locais
Nem todos em Naivasha se opõem ao investimento. Absolom Mukhuusi, da Naivasha Professional Association (Associação Profissional de Naivasha), reconhece que o setor de tecnologia pode trazer empregos, infraestrutura e novos negócios para a área. No entanto, ele enfatiza que os benefícios econômicos não devem vir à custa das comunidades locais.
“Mesmo enquanto damos as boas-vindas aos investidores, nosso maior medo é o que acontece com nossos corpos d'água e comunidades à medida que a água é desviada para Olkaria para os grandes usuários”, disse Mukhuusi.
O geólogo Kenyatta Otieno vê um benefício potencial na tecnologia. Ele recorda a pressão que grandes fazendas de flores exerciam sobre o ecossistema do lago, muitas das quais reduziram suas operações. Otieno sugere que o centro proposto poderia incluir um centro de recursos para monitorar os níveis do lago e os padrões climáticos, o que poderia ajudar a identificar o nível mais alto de água ao longo do tempo e orientar o zoneamento de terras ribeirinhas.
“O centro sendo construído com a conservação da água em mente seria futurista, já que Naivasha é geralmente uma área com escassez de água. Seria um modelo para o desenvolvimento futuro”, afirmou Otieno.
O Quênia já possui reguladores responsáveis pela gestão de demandas concorrentes, como a WRA, que regula a extração de água e emite licenças de uso, e a National Environment Management Authority (NEMA), a Autoridade Nacional de Gestão Ambiental, que supervisiona as avaliações de impacto ambiental. No entanto, as tentativas do Al Jazeera de obter comentários de funcionários da WRA, NEMA, Microsoft-G42 e do governo queniano sobre o status do projeto e os requisitos de água não tiveram sucesso. Por enquanto, a escala eventual, o design e os requisitos de água do projeto permanecem incertos, segundo a KenGen.
“Agora estamos competindo com as empresas multibilionárias por água, e tememos que seremos os perdedores a longo prazo”, desabafou Leshishi.
Leitura da LZ7 Energia
A discussão sobre o data center em Olkaria, Quênia, ilustra um desafio global crescente: a demanda por energia e recursos hídricos para sustentar a infraestrutura digital. Embora o projeto visasse usar energia geotérmica, uma fonte renovável e de baixa emissão, a questão do consumo de água para resfriamento de data centers é crítica. No Brasil, o setor de energia solar, como o promovido pela LZ7 Energia, oferece uma alternativa limpa para a geração de eletricidade, mas a pegada hídrica de grandes projetos industriais, mesmo os alimentados por energias renováveis, precisa ser cuidadosamente avaliada. A escassez hídrica é uma preocupação crescente em várias regiões do país, e a necessidade de equilibrar o desenvolvimento tecnológico com a sustentabilidade dos recursos naturais é um tema que ressoa fortemente com os desafios enfrentados no Norte Pioneiro do Paraná e em outras áreas que buscam um crescimento econômico consciente.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
