A rápida expansão da inteligência artificial corre o risco de acentuar as distâncias econômicas entre nações ricas e em desenvolvimento, revertendo avanços históricos de convergência internacional. O alerta foi emitido por Tomas Lamanauskas, vice-secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações (UIT) — agência da Organização das Nações Unidas (ONU) voltada às tecnologias de informação e comunicação —, durante entrevista concedida à rede Al Jazeera no Fórum Mundial de Investimentos da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), realizado em Doha, no Catar, no domingo (25/10/2026).

Segundo Lamanauskas, as barreiras enfrentadas pelos países do Sul Global ultrapassam as limitações convencionais de conectividade e representam uma barreira de inserção produtiva estrutural nos mais diversos campos da economia global.

"Há um risco… Acredito que o abismo na inteligência artificial seja a grande preocupação, porque não se trata apenas da exclusão digital. A IA tem um potencial imenso de impulsionar a saúde, a educação, os serviços públicos, as indústrias, a agricultura e o comércio. Portanto, um grande abismo pode significar uma divisão de oportunidades e aprofundar a fratura socioeconômica. Essa é a parte realmente preocupante."
— Tomas Lamanauskas, vice-secretário-geral da UIT

Infraestrutura escassa e a barreira energética

As assimetrias globais já se manifestam claramente na capacidade instalada de processamento de dados. Segundo dados apresentados pelo dirigente da UIT, a África e a América Latina juntas concentram apenas 3,3% de toda a capacidade global de data centers, espaços essenciais para a operação e treinamento de modelos avançados de inteligência artificial. Paralelamente a esse déficit estrutural, cerca de 2,2 bilhões de pessoas no planeta continuam totalmente desprovidas de acesso à internet.

O cenário reforça as advertências publicadas em dezembro de 2025 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). No documento, o organismo apontou que países com fornecimento instável de energia elétrica, redes de conectividade precárias e escassez de competências técnicas correm o risco concreto de ficarem à margem dos ganhos econômicos proporcionados pela nova onda tecnológica.

Desnível em inteligência artificial amplia desigualdade global, alerta ONU
Foto: Al Jazeera — Internacional

Necessidade trilionária de recursos e disparidade na adoção

Para nivelar o terreno das infraestruturas digitais e fornecer condições mínimas de competitividade global, os aportes financeiros necessários são substanciais. De acordo com Lamanauskas, seriam necessários aproximadamente US$ 2,8 trilhões em investimentos até 2030 para extinguir a lacuna existente no setor.

Essa carência de investimentos reflete-se diretamente nos índices de adoção cotidiana das novas ferramentas tecnológicas por parte da força produtiva:

  • Países desenvolvidos: aproximadamente 29% das pessoas em idade ativa utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa.
  • Países em desenvolvimento: a taxa de utilização da tecnologia cai para 16% da população economicamente ativa.
"Isso afeta de fato a sua capacidade de ser produtivo e de fazer parte das oportunidades do mercado de trabalho."
— Tomas Lamanauskas, vice-secretário-geral da UIT

Transformações no mercado de trabalho e riscos de substituição

O impacto da inteligência artificial sobre o emprego formal foi outro tema central abordado pelas autoridades. Projeções citadas por Lamanauskas estimam que a tecnologia possa extinguir cerca de 90 milhões de postos de trabalho em todo o mundo. Em contrapartida, estima-se a criação potencial de 170 milhões de novas vagas. Contudo, a autoridade advertiu que, mesmo com um saldo quantitativo teoricamente favorável, os trabalhadores enfrentarão transições severas, com a previsão de que 40% das habilidades profissionais exigidas no ambiente de trabalho se transformem até 2030.

Desnível em inteligência artificial amplia desigualdade global, alerta ONU
Foto: Al Jazeera — Internacional

Paralelamente, o Relatório Internacional de Segurança em IA, divulgado em fevereiro de 2026, apontou que aproximadamente 1 bilhão de indivíduos já utilizam a ferramenta para finalidades cotidianas diversas, que variam de redação textual a suporte em orientações médicas. A publicação calculou que cerca de 60% dos postos de trabalho em economias avançadas e 40% nas economias emergentes possuem algum nível de exposição direta aos impactos da automação inteligente.

Fazl Barez, pesquisador sênior da Universidade de Oxford especializado em segurança e governança de inteligência artificial, destacou a importância de distinguir a substituição integral de empregos da automação de tarefas rotineiras:

"Os temores são reais. Quais são os tipos de emprego que podem ser perdidos? Aqueles que envolvem trabalho cognitivo de rotina estão particularmente expostos, mas a escala ainda é incerta. A automação impulsionada pela IA ameaça corroer as bases fiscais dos governos, diminuir os padrões de vida e enfraquecer o poder dos cidadãos."
— Fazl Barez, pesquisador da Universidade de Oxford

Desafios linguísticos e planos nacionais

Além das dificuldades materiais, a inteligência artificial reproduz gargalos culturais e linguísticos. Conforme divulgado pela UIT, apenas 7% dos idiomas originários da África estão contemplados em ferramentas automáticas de tradução por IA, impondo uma barreira prática a milhões de falantes dessas línguas que tentam acessar serviços informacionais modernos.

Apesar dos desafios identificados, o avanço tecnológico prossegue em ritmo acelerado. Atualmente, 104 países já estruturaram estratégias governamentais formais para o setor de inteligência artificial, ante apenas quatro países que possuíam diretrizes similares há uma década. Lamanauskas pontuou que o foco da comunidade internacional deve ser canalizado para investimentos em infraestrutura de suporte, marcos regulatórios consistentes e formação técnica.

"A IA veio para ficar e veio para transformar as nossas vidas. A IA não é uma tecnologia que possa ser controlada por uma única pessoa, organização ou empresa. O caminho a seguir é investir para garantir que a IA beneficie a todos, reconhecendo e acolhendo os temores e as ansiedades sentidos pela população."
— Tomas Lamanauskas, vice-secretário-geral da UIT

Leitura da LZ7 Energia

O diagnóstico das Nações Unidas expõe com clareza que o avanço da computação moderna e dos data centers depende diretamente de uma infraestrutura elétrica estável e abundante. Em países emergentes como o Brasil, o crescimento de complexos tecnológicos e a modernização de setores intensivos em dados esbarram na necessidade de energia constante, limpa e com custos previsíveis. Nesse cenário, o fortalecimento de redes descentralizadas e o investimento em geração fotovoltaica são pilares essenciais para assegurar resiliência produtiva, impedindo que gargalos no fornecimento elétrico limitem a inclusão regional nas novas cadeias tecnológicas globais.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.