A relação entre Estados Unidos e Coreia do Sul, historicamente uma aliança crucial, está sob crescente tensão devido a uma disputa envolvendo a varejista Coupang, com sede nos EUA, mas com forte atuação no mercado sul-coreano. A controvérsia, que gira em torno da resposta de Seul a uma violação de dados da empresa em 2025, tem gerado acusações de discriminação por parte do Congresso americano e levantado a possibilidade de imposição de tarifas adicionais sobre produtos sul-coreanos.
Autoridades do Congresso e da Casa Branca, em declarações à CNBC, indicaram que a rejeição sul-coreana às alegações americanas está desgastando a relação bilateral. Fontes familiarizadas com a investigação da violação de dados de 2025 alertam que o impasse pode resultar em novas tarifas se os dois parceiros comerciais não chegarem a uma resolução em breve.
O Epicentro da Disputa: Coupang e a Violação de Dados
A Coupang, frequentemente referida como a 'Amazon da Coreia do Sul', é uma empresa com sede em Seattle, nos EUA, mas que realiza a maior parte de suas operações no país asiático. O cerne da discórdia reside na resposta do governo sul-coreano a uma violação de dados ocorrida em 2025. Segundo um relatório de republicanos do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes dos EUA, o governo sul-coreano teria lançado uma 'ofensiva sem precedentes' contra a Coupang, descrevendo a violação como 'mínima' por parte da empresa.
Em contrapartida, o governo sul-coreano contesta a extensão da violação, afirmando que os consumidores do país foram potencialmente prejudicados pela exposição de seus dados pessoais. Seul realizou audiências, ameaçou o CEO interino da Coupang com acusações criminais e impôs uma multa recorde de 625 bilhões de wons (aproximadamente 409 milhões de dólares, com base na cotação da época) por privacidade de dados à empresa.
"Isso não é apenas uma disputa comercial", afirmou Chris Stewart, ex-congressista republicano de Utah e presidente da empresa de lobby Skyline Capitol, que consultou a Coupang. "Formuladores de políticas, líderes no Congresso e na Casa Branca entendem que isso realmente se trata da relação entre dois aliados chave."
Stewart, no entanto, expressou a esperança de evitar uma escalada de retaliações. "A pior coisa que poderia acontecer é se entrarmos em um ambiente de olho por olho, onde [os EUA procuram] punir a Coreia de alguma forma ou vincular isso a um aumento de tarifas. Isso não é minha esperança ou desejo", disse ele, mas alertou que, se a Coreia do Sul não recuar, "em última análise, o presidente tem o poder das tarifas, que podem ser muito poderosas."

A 'Missão Secreta' e a Reação Sul-Coreana
O relatório americano detalha o que os investigadores republicanos descreveram como ações exageradas do governo sul-coreano após a divulgação da violação de dados em novembro de 2025, que levou à renúncia do CEO da Coupang, Park Dae-jun, no mês seguinte. O documento fala em multas excessivas, assédio e ameaças de acusações criminais, descrevendo uma resposta que "em alguns pontos soa como algo saído de um romance de espionagem".
Um dos pontos mais controversos é a alegação de que o governo sul-coreano teria forçado a Coupang a contratar mergulhadores para uma "missão secreta" para recuperar um laptop usado na violação por um ex-funcionário insatisfeito (de nacionalidade chinesa) de um rio em Xangai. O relatório menciona o envolvimento do Serviço Nacional de Inteligência (NIS) da Coreia do Sul na recuperação do computador. Documentos adicionais obtidos pela CNBC, incluindo anotações telefônicas de um representante da Coupang, descrevem instruções do NIS para a contratação de um mergulhador em dezembro de 2025.
Memorandos internos da empresa, também obtidos pela CNBC, indicam que a Coupang coordenou a recuperação do computador a pedido de um oficial de alta patente da segurança nacional do gabinete do presidente sul-coreano. Registros de chamadas mostram mais de 200 ligações entre autoridades sul-coreanas e representantes da Coupang antes, durante e depois da recuperação.
O governo sul-coreano, por meio de sua embaixada em Washington, negou veementemente as conclusões do relatório. Um porta-voz da embaixada declarou que as alegações de coordenação governamental na recuperação do laptop são "totalmente infundadas".
"O Serviço Nacional de Inteligência (NIS) realizou apenas consultas em nível de trabalho com a Coupang, necessárias para facilitar o compartilhamento de informações e prevenir maiores danos em conexão com a violação de dados pessoais em larga escala. Em nenhum momento o NIS coagiu ou instruiu a Coupang a tomar qualquer ação específica", afirmou o porta-voz.
Em julho, após a divulgação do relatório do Congresso, o governo sul-coreano submeteu uma refutação, também fornecida à CNBC, que contesta a extensão da violação. Seul afirma que 37,55 milhões de pessoas foram afetadas, enquanto o relatório do Congresso aponta que "o ex-funcionário armazenou e reteve informações relacionadas a aproximadamente 3.000 contas". A diferença reside na quantidade de dados expostos versus os retidos. A refutação sul-coreana também minimiza a multa de 625 bilhões de wons, observando que ela ficou muito aquém dos 3% da receita que poderia ter sido cobrada sob as leis do país, considerando que a Coupang registrou uma receita de 34,5 bilhões de dólares em 2025.
Pressão Política e o Cenário Ampliado
A resposta sul-coreana não foi bem recebida por republicanos em Washington. Um indivíduo familiarizado com o pensamento dos legisladores dos comitês Judiciário, de Relações Exteriores e de Serviços Armados da Câmara, que pediu anonimato, expressou que o episódio é "uma vergonha e uma surpresa", e que o Congresso está considerando "todas as ferramentas à sua disposição, incluindo sanções".
O senador republicano Bernie Moreno, de Ohio, enviou uma carta ao Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, solicitando uma investigação formal sobre a Coreia do Sul e a possibilidade de tarifas adicionais. Moreno descreveu a resposta sul-coreana como uma "cruzada regulatória".
"Essa violação de dados específica merece investigação e pode justificar uma aplicação imparcial. No entanto, o padrão maior que surge na Coreia do Sul é motivo de intensa preocupação. Seul transformou um pequeno incidente em um pretexto para uma ampla instrumentalização contra a empresa americana", escreveu Moreno.
A porta-voz da Coupang, Erika Reynoso, recusou-se a comentar sobre a perspectiva de tarifas, mas afirmou: "Lamentamos as circunstâncias que levaram a uma investigação congressional, mas reconhecemos o trabalho minucioso do Comitê para trazer os fatos à luz. Continuamos buscando uma resolução construtiva que fortalecerá a aliança EUA-República da Coreia."
A disputa ocorre em um contexto de atritos mais amplos na aliança EUA-Coreia do Sul. Em agosto, o então presidente Donald Trump anunciou a redução de exercícios militares anuais com a Coreia do Sul. Embora um oficial da Casa Branca tenha dito à CNBC que "não há conexão direta" com a disputa da Coupang, ele citou uma ordem executiva de Trump do ano anterior que visa governos estrangeiros que, segundo a administração, estão regulando excessivamente empresas de tecnologia dos EUA.
Impacto no Comércio e Aliança
A Coreia do Sul é o sétimo maior parceiro comercial dos EUA. Em 2025, os dois países renegociaram um acordo comercial que previa uma taxa tarifária mais baixa para a Coreia do Sul em troca de um investimento de 350 bilhões de dólares em construção naval e segurança nacional nos EUA, além de reduzir a regulamentação de empresas americanas. No entanto, a Coreia do Sul tem sido lenta em finalizar projetos relacionados a esse investimento, gerando atritos e ameaças de tarifas por parte de Trump no início do ano.
A Coupang não é a primeira empresa americana a reclamar de ser alvo de reguladores sul-coreanos; Google e Netflix também já enfrentaram problemas semelhantes. Contudo, os apoiadores da Coupang afirmam que nunca viram a Coreia do Sul perseguir uma empresa com tamanha intensidade. O deputado Michael Baumgartner, republicano de Washington e membro do Comitê Judiciário da Câmara, que introduziu um projeto de lei para permitir a deportação ou negação de entrada a funcionários estrangeiros que se envolvam em "discriminação econômica" contra os EUA, classificou a resposta sul-coreana como "farsesca" e "desdenhosa".
"O que quer que tenha acontecido com a violação de dados, nada disso merecia essa resposta exagerada e punitiva", disse Baumgartner.
O que isso significa para a região
Embora a disputa entre EUA e Coreia do Sul sobre a Coupang pareça distante do cotidiano do Norte Pioneiro do Paraná, ela ilustra a complexidade das relações comerciais internacionais e o impacto que conflitos regulatórios podem ter em cadeias de suprimentos e custos de produtos. O aumento de tarifas entre grandes economias pode gerar um efeito cascata, elevando preços de importação e exportação globalmente. Para a economia local, isso pode se traduzir em custos mais altos para produtos importados ou dificuldades para exportar, afetando indiretamente o poder de compra e a competitividade de diversos setores. A instabilidade em mercados globais, mesmo que em segmentos específicos como o varejo digital, pode influenciar o ambiente de negócios e a confiança dos investidores em uma escala mais ampla.
Leitura da LZ7 Energia
A escalada de tensões comerciais entre grandes economias, como a disputa entre EUA e Coreia do Sul, pode ter implicações indiretas para o setor de energia. Um aumento de tarifas ou sanções econômicas pode desestabilizar os mercados globais, afetando os preços de commodities, incluindo os componentes necessários para a produção de energia solar. Além disso, a incerteza econômica gerada por tais conflitos pode impactar o investimento em infraestrutura energética e a demanda por energia em geral. Para empresas como a LZ7 Energia, que atuam no mercado de energia solar, a estabilidade global é fundamental para garantir o acesso a equipamentos e tecnologias a preços competitivos, bem como para manter um ambiente de negócios previsível que favoreça o crescimento e a adoção de fontes renováveis.
Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.