A inclinação do brasileiro para o trabalho por conta própria e a vontade de empreender transformaram-se em fatores determinantes na definição das preferências políticas nacionais. De acordo com dados apurados pelo Instituto Ideia na pesquisa Meio/Ideia, essa nova perspectiva em relação ao mercado de trabalho estabeleceu uma divisão nítida na corrida eleitoral entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), desenhando cenários opostos com base na visão de futuro de cada fatia do eleitorado.
A clivagem entre o negócio próprio e a carteira assinada
O levantamento revela que 43% dos participantes associam a melhoria de vida à capacidade de abrir uma empresa ou trabalhar de forma independente. Por outro lado, 32% dos entrevistados afirmam que a verdadeira ascensão socioeconômica continua atrelada à conquista de uma vaga formal de trabalho, sob o regime da carteira assinada e com as garantias legais previstas na legislação trabalhista.
Esse contraste no modo de enxergar o avanço financeiro produz reflexos diretos nas intenções de voto para a Presidência da República. No grupo que tem como meta o empreendedorismo, Flávio Bolsonaro registra 62% da preferência popular, enquanto Lula aparece com 34%. O cenário se inverte quando a sondagem foca nos eleitores que priorizam a estabilidade do emprego formal: nesse segmento, o atual presidente lidera com 65% das menções, contra 30% atribuídos ao parlamentar do PL.

O esforço individual como pilar ideológico de prosperidade
Em análise concedida ao programa Mapa de Risco, do InfoMoney, a pesquisadora Cila Schumann, do Instituto Ideia, destacou que o fenômeno vai além da realidade financeira imediata do cidadão. Para ela, o posicionamento nas urnas reflete a concepção pessoal sobre os caminhos necessários para construir o amanhã e atingir o progresso material.
“Essa promessa de prosperidade ligada ao seu próprio esforço, ela tem, sim, uma questão ideológica. Se eu me esforçar, eu vou conseguir. Se eu for fazer o meu, eu vou ganhar mais do que ter um patrão”, afirmou Cila Schumann, do Instituto Ideia.
Schumann explica que o crescimento contínuo de ocupações autônomas e de atividades no setor informal alterou profundamente as expectativas da população. A possibilidade de gerir a própria rotina de trabalho, definir horários e articular múltiplas fontes de remuneração sem a subordinação direta a um único empregador passou a ser encarada como a via mais rápida de ascensão individual.

Os desafios históricos de comunicação do PT e a classe C
A especialista pondera que essa transformação na mentalidade do trabalhador ainda enfrenta dificuldades de compreensão por parte do Partido dos Trabalhadores. Historicamente enraizada no movimento sindical fabril e focada na proteção da classe operária tradicional, a legenda de Lula tem enfrentado obstáculos para dialogar com quem prioriza a liberdade de atuação sobre os vínculos convencionais.
“Quando a gente olha para o PT e para o Lula, que nasceram ali nos sindicatos com emprego formal, as pessoas hoje querem o trabalho, mas elas querem a liberdade, e isso tem que ter um entendimento a respeito”, disse Cila Schumann.
A avaliação do Instituto Ideia aponta que a gestão de Lula demorou a estruturar um discurso alinhado com essa parcela da população. Embora na reta final da disputa eleitoral o governo tenha buscado intensificar acenos e anúncios de medidas direcionadas aos Microempreendedores Individuais (MEIs), a aproximação se deu de forma tardia, após um intervalo prolongado em que as demandas desse contingente ficaram em segundo plano.
A pesquisa ressalta que esse comportamento eleitoral não está restrito unicamente ao patamar de renda. Na classe C, segmento historicamente disputado nos pleitos nacionais, a clivagem permanece evidente: entre os cidadãos dessa faixa que planejam abrir um negócio, Flávio Bolsonaro lidera com 67% dos votos; já entre aqueles da mesma faixa que preferem o emprego formal regido pela Consolidação das Leis do Trabalho, Lula atinge 63% das intenções.

A busca simultânea por autonomia e proteção social
Apesar do forte avanço da mentalidade empreendedora, o estudo enfatiza que a busca por independência funcional não é sinônimo de abandono irrestrito dos direitos e das redes de amparo social. Conforme levantamentos qualitativos conduzidos por Cila Schumann, os trabalhadores independentes querem manter a flexibilidade cotidiana, mas também demandam coberturas essenciais em situações críticas, tais como problemas de saúde, acidentes de percurso ou períodos imprevistos de queda drástica de receita.
“O trabalhador hoje quer estabilidade, mas ele quer liberdade”, resumiu a pesquisadora Cila Schumann.
Como ilustração dessa dinâmica, a pesquisadora citou os entregadores que atuam por meio de aplicativos de entrega e transporte. Embora grande parte desses profissionais recuse os moldes fechados de uma contratação com carteira assinada por valorizar a autonomia das corridas, existe uma cobrança generalizada por mecanismos de seguridade caso fiquem incapacitados de exercer suas funções operacionais temporariamente.

Novas visões de futuro no centro da disputa presidencial
Diante desse quadro, os dados compilados pelo Instituto Ideia revelam que a simples defesa de programas de assistência social e de normas trabalhistas tradicionais deixou de assegurar, de maneira automática, a adesão da população de menor poder aquisitivo a candidaturas de esquerda. A polarização nas urnas passou a sintetizar duas filosofias distintas de progresso econômico no país.
De um lado, encontra-se o grupo de eleitores que deposita sua confiança na preservação das regras formais de trabalho e na solidez institucional do emprego com carteira assinada. De outro, consolida-se uma parcela expressiva que projeta seu futuro a partir da autonomia produtiva, enxergando no empreendedorismo a ferramenta primordial para superar limitações econômicas e alcançar independência financeira.
Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
