Dhaka, Bangladesh – Uma epidemia de sarampo assola Bangladesh, resultando em mais de mil mortes desde 15 de março de 2026, apesar de uma campanha emergencial ter aplicado quase 20 milhões de doses de vacina. O cenário contrasta drasticamente com o ano anterior, quando o país registrou apenas 132 casos e nenhuma morte pela doença. A crise atual expõe desafios significativos na saúde pública, incluindo a subestimação do número de crianças vulneráveis e a dificuldade em alcançar uma cobertura vacinal equitativa em todo o território.
A situação é exemplificada pela trágica morte de Saif Hasan, um bebê de um ano do distrito de Shariatpur, que faleceu em 27 de agosto no Hospital de Doenças Infecciosas (IDH) de Dhaka. Embora tivesse recebido sua primeira dose da vacina sarampo-rubéola dias antes, a família questionou se a vacina o havia adoecido. Contudo, Shrebash Paul, consultor júnior do hospital, explicou que Saif, que já tratava uma doença respiratória pré-existente, provavelmente foi infectado antes que a vacina pudesse conferir proteção, agravando sua condição subjacente.
Avanço da Epidemia e Desafios da Vacinação
Até 9 de setembro, as autoridades de saúde de Bangladesh registraram 1.009 mortes relacionadas ao sarampo, sendo 100 em pacientes com casos confirmados em laboratório e 909 classificadas como mortes suspeitas. Esses números alarmantes surgem mesmo com a administração de 19,75 milhões de doses da vacina desde o início da campanha emergencial em abril, superando a meta original de 18 milhões de crianças.
Especialistas em saúde pública, no entanto, apontam que esse número aparentemente elevado de vacinações pode mascarar os problemas reais. Segundo eles, a estimativa inicial de crianças que precisavam ser vacinadas era muito baixa, e as cifras de cobertura nacional podem ocultar bolsões onde um grande número de crianças suscetíveis permanece desprotegido. O sarampo, uma das doenças mais contagiosas do mundo, pode manter sua transmissão mesmo com pequenas concentrações de pessoas não imunizadas.
A vulnerabilidade de Bangladesh ao sarampo não é recente. O país, com cerca de 178 milhões de habitantes, estava progredindo na eliminação da doença, mas anos de declínio na cobertura de imunização deixaram um número crescente de crianças suscetíveis. A Pesquisa de Avaliação de Cobertura de 2023 revelou que a cobertura da primeira dose da vacina sarampo-rubéola caiu de 88,6% em 2019 para 86% em 2023, e a segunda dose de 89% para 80,7%.

Fatores Contribuintes e Lacunas na Cobertura
A interrupção da imunização de rotina durante a pandemia de COVID-19, a desinformação e a hesitação vacinal, citadas pelo UNICEF, são fatores que contribuíram para que crianças perdessem suas vacinações. Além disso, antes do esforço deste ano, Bangladesh não realizava uma campanha suplementar nacional de sarampo-rubéola desde dezembro de 2020 a janeiro de 2021. A cobertura permaneceu abaixo dos aproximadamente 95% necessários para interromper a transmissão, permitindo que o número de crianças suscetíveis aumentasse ao longo dos anos.
A situação foi agravada pela instabilidade política após a revolta de julho de 2024, que levou à queda da então primeira-ministra Sheikh Hasina. Essa mudança de governo resultou em atrasos na aquisição de vacinas, causando escassez em 2024 e 2025, conforme explicou Mushtuq Hussain, ex-diretor científico do Instituto de Epidemiologia, Controle e Pesquisa de Doenças (IEDCR) de Bangladesh. Os casos começaram a aumentar significativamente em janeiro de 2026 e dispararam em março, levando Bangladesh a notificar a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre um surto nacional em 4 de abril.
Em meados de abril, casos já haviam sido relatados em 58 dos 64 distritos do país. Em resposta, as autoridades lançaram a vacinação emergencial em áreas de alto risco em 5 de abril, seguida por uma campanha nacional no final do mês. O alvo inicial era vacinar cerca de 18 milhões de crianças entre seis meses e menos de cinco anos, a partir de 20 de abril.

Discrepâncias nas Metas e Impacto nos Mais Jovens
Uma discrepância notável foi observada quando, cerca de dois meses depois, em 28 de junho, a campanha governamental de suplementação de Vitamina A visou aproximadamente 24 milhões de crianças na mesma faixa etária – uma diferença de quase seis milhões. Essa diferença ajuda a explicar como Bangladesh pode relatar a vacinação de quase 20 milhões de crianças, superando sua meta original, enquanto crianças suscetíveis continuam sendo encontradas.
Hussain, do IEDCR, questionou as estimativas populacionais usadas para definir a meta de vacinação, afirmando que elas subestimaram o número de crianças elegíveis. Ele enfatizou a necessidade de manter a equidade, garantindo uma cobertura de pelo menos 95% em todas as comunidades, incluindo populações de difícil acesso e móveis. As médias nacionais podem ocultar lacunas de imunidade em comunidades individuais, permitindo que o vírus continue circulando.
Um segundo epidemiologista com vasta experiência no programa de imunização de Bangladesh, que preferiu não ser identificado devido à sensibilidade do assunto, sugeriu que as autoridades precisam analisar os casos por idade, histórico de vacinação e localização para identificar populações suscetíveis. Sem uma vacinação direcionada a essas populações, a transmissão provavelmente continuará, mesmo que o número geral de casos diminua.

Mortalidade Infantil e Próximos Passos
Os médicos que tratam os pacientes estão vendo evidências dessas lacunas. Paul, do IDH em Dhaka, relatou à Al Jazeera que a maioria dos pacientes de sarampo atualmente internados não havia sido vacinada. Algumas das crianças em tratamento perderam a campanha de vacinação porque estavam doentes na época. Apesar disso, as internações hospitalares diminuíram em relação ao pico, sugerindo um efeito substancial do programa de vacinação, mas crianças continuam a chegar.
A revisão de mortalidade do IDH oferece outra pista sobre a letalidade do surto. Até 23 de agosto, o hospital registrou 3.167 casos suspeitos de sarampo, 537 casos confirmados em laboratório e 57 mortes confirmadas ou suspeitas este ano. As mortes se concentraram esmagadoramente em crianças muito pequenas: das 57 que morreram, 49 (cerca de 86%) tinham menos de 15 meses, e 31 tinham menos de nove meses, a idade em que as crianças em Bangladesh recebem rotineiramente sua primeira dose de sarampo-rubéola. Quarenta e sete das 57 pessoas que morreram (83%) não haviam recebido nenhuma vacina contra o sarampo, de acordo com a análise do hospital. A pneumonia foi registrada em 50 das mortes documentadas, tornando-se a principal complicação responsável.
Os médicos estão particularmente preocupados com as infecções entre bebês que ainda não atingiram a idade para a vacinação de rotina.
Shrebash Paul, consultor júnior do Hospital de Doenças Infecciosas (IDH)
O IDH está estudando crianças infectadas antes dos nove meses de idade e suas mães para entender melhor os fatores por trás dessas infecções. Paul ressalta que os dados do hospital não devem ser lidos como representativos nacionalmente, pois o IDH é um hospital de referência especializado que recebe pacientes graves de Dhaka e outras partes de Bangladesh. No entanto, os números fornecem uma janela para as crianças em maior risco quando o sarampo se espalha amplamente.

Halimur Rashid, diretor de controle de doenças da Diretoria Geral de Serviços de Saúde (DGHS) – a agência governamental responsável pela supervisão dos programas de saúde – afirmou que as autoridades estão preparando uma nova rodada de vacinações, com previsão de início nas próximas duas semanas. O próximo desafio será alcançar as crianças que foram perdidas nas rodadas anteriores. Especialistas afirmam que o sucesso dependerá menos de um grande número de cobertura nacional e mais de um microplanejamento – identificando crianças suscetíveis comunidade por comunidade e garantindo que os vacinadores as alcancem.
Hussain sugeriu que as autoridades deveriam considerar estender a vacinação para crianças mais velhas onde a vigilância identificar lacunas significativas de imunidade. O epidemiologista anônimo acrescentou que a vacinação pode precisar alcançar crianças de até 15 anos em áreas afetadas. Mas para muitas famílias em Bangladesh, já é tarde demais, como no caso de Mostakim, um bebê de nove meses do distrito de Kishoreganj, que não havia sido vacinado contra o sarampo e faleceu no IDH em 30 de agosto.

O que isso significa para a região
A crise de sarampo em Bangladesh serve como um alerta global sobre a importância da vigilância epidemiológica contínua, da manutenção de altas taxas de cobertura vacinal e da capacidade de resposta rápida a surtos. Para o Norte Pioneiro do Paraná, e para o Brasil como um todo, a situação reforça a necessidade de não subestimar o risco de doenças infecciosas que podem ser prevenidas por vacinas. A experiência de Bangladesh, onde a interrupção de programas de imunização e a subestimação de populações vulneráveis levaram a um ressurgimento devastador, sublinha a importância de campanhas de vacinação robustas e acessíveis, mesmo em tempos de estabilidade.
A atenção à saúde pública e a infraestrutura de prevenção são cruciais para evitar que cenários semelhantes se desenvolvam em outras regiões. A lição é clara: a saúde coletiva depende da cobertura individual, e qualquer falha nesse sistema pode ter consequências trágicas e generalizadas.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
