A tensão geopolítica se acirra no cenário econômico global, com os Estados Unidos intensificando a pressão sobre a China em relação às suas relações comerciais com o Irã. O Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, emitiu um alerta claro aos bancos chineses: qualquer entidade que facilite transações e faça parte do ecossistema que transforma petróleo iraniano em dinheiro será alvo de sanções. Essa medida faz parte da recém-anunciada 'Operação Pária Econômico', liderada pelo Presidente Donald Trump, que visa cortar o acesso de empresas que ajudam o Irã a evadir sanções do sistema financeiro americano.
A situação coloca os bancos chineses em uma posição delicada. Embora Pequim possa rejeitar as exigências americanas, seus maiores credores ainda têm fortes incentivos para preservar o acesso ao dólar americano, que permanece a moeda dominante no comércio e nas finanças internacionais. Antes do conflito, a China era o maior parceiro comercial do Irã, comprando cerca de 90% do petróleo exportado pelo país, o que representava aproximadamente 12% do total das importações de petróleo bruto da China, conforme análise de março.
Ameaça de Sanções e Resposta Chinesa
Na segunda-feira, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, declarou que qualquer entidade que facilite 'lavagem de dinheiro ou evasão de sanções em nome do Irã corre o risco de ser cortada do sistema financeiro dos EUA'. Ao ser questionado especificamente sobre os bancos chineses, Bessent foi enfático:
Se eles facilitarem transações e fizerem parte do ecossistema que transforma petróleo iraniano em dinheiro, em repressão, eles serão alvos.
Em resposta, a China declarou na terça-feira que tomará 'todas as medidas necessárias' para se proteger. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês reiterou a oposição do país às sanções unilaterais:
A China deixou claro em muitas ocasiões sua firme oposição a sanções unilaterais ilícitas que não têm base no direito internacional ou na autorização do Conselho de Segurança da ONU.
A 'Operação Pária Econômico' identificou várias empresas e indivíduos sediados na China que supostamente auxiliaram os militares iranianos. Os EUA indicaram que dariam aos países um prazo para encerrar as atividades identificadas, mas não divulgaram as datas publicamente. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que está monitorando a situação de perto e reiterou que Pequim protegerá seus interesses.

O Dilema do Dólar e a Busca por Alternativas
Apesar da retórica firme, analistas enfatizam que a China fará o possível para permanecer no sistema de financiamento em dólar americano. No entanto, a crescente pressão dos EUA também impulsiona Pequim a buscar alternativas e diversificar suas operações financeiras. Peter Alexander, diretor administrativo da consultoria Z-Ben em Xangai, destacou à CNBC que o Sistema de Pagamento Interbancário Transfronteiriço (CIPS) da China é um exemplo dessa estratégia.
O Banco Popular da China começou a construir o CIPS em 2012, no mesmo ano em que o Tesouro dos EUA sancionou o relativamente pequeno Banco de Kunlun da China por atividades ilícitas relacionadas ao Irã. As transações do CIPS aumentaram desde a guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022 e, segundo dados oficiais, cresceram de forma geral este ano. O sistema lista 210 instituições participantes diretas globalmente, a maioria afiliadas a bancos estatais chineses.
Alexander também mencionou que a Argentina e a Austrália renovaram este mês acordos de swap de moeda bilateral com a China, permitindo a troca de dezenas de bilhões de dólares em yuan entre os bancos centrais dos países.
O sistema financeiro emergente não é necessariamente aquele em que os países abandonam o USD. É um instrumento de hedge geopolítico.
Ainda assim, o domínio do dólar americano é inegável. Em julho, o dólar representava mais da metade dos pagamentos globais, enquanto o yuan chinês ocupava a quinta posição, com 3,1%. Esse percentual é inferior aos mais de 4% registrados no início de 2025. No financiamento comercial, o dólar americano respondia por quase 80% no mesmo mês, com o yuan chinês em segundo lugar, com 8,4%, de acordo com dados da Swift, o sistema seguro de mensagens bancárias que sustenta o sistema bancário internacional.

Implicações e Próximos Passos
Tianchen Xu, economista sênior da The Economist Intelligence Unit, acredita que a China não abandonará o sistema do dólar, mas também não cederá completamente às exigências dos EUA:
A China definitivamente quer permanecer no sistema do dólar, o que beneficia seu motor comercial, mas isso não significa que fará tudo para cumprir as sanções crescentes dos EUA.
Ele prevê que a China poderá usar controles de terras raras e outras medidas para retaliar sanções contra grandes empresas chinesas. Por outro lado, os EUA também dependem do acesso a minerais críticos que a China possui, o que incentiva a manutenção de uma relação estável.
Apesar da escalada de tensões, um encontro entre o Presidente Trump e o Presidente chinês Xi Jinping está previsto para o final do próximo mês nos EUA, seguindo a visita de Trump a Pequim em maio. Dan Wang, diretora da China no Eurasia Group, afirma que os EUA não querem inviabilizar a cúpula.
O cerne da relação China-EUA é mais sobre a situação de Taiwan... o laço China-Irã não é tão próximo quanto os de fora imaginaram.
Wang também destacou que a remoção de um grande banco chinês do sistema SWIFT aumentaria significativamente a pressão de desvalorização sobre o yuan chinês, o que seria 'inaceitável' para Pequim. A China tem, inclusive, paralisado investimentos em infraestrutura estatais no Irã desde 2018, o que sugere um distanciamento em certas áreas.

Contexto e Perspectivas Futuras
Desde o início do conflito no Irã em 28 de fevereiro, o índice do dólar americano se fortaleceu em cerca de 1,5%. O yuan chinês, por sua vez, ganhou quase 2% em relação ao dólar americano e mais de 3% em relação ao euro nesse período. No início deste ano, a China ajudou a intermediar as negociações de paz iniciais entre o Irã e os EUA no Paquistão, embora analistas da época alertassem que Pequim não tinha nem a capacidade nem a inclinação para pressionar qualquer um dos lados a negociar.
Peter Alexander, da Z-Ben, comentou sobre a resposta dos EUA:
Pequim nem sequer começou a jogar duro com a América. A questão não é o que poderia ser feito, a questão é se algo SERÁ feito.
A situação continua volátil, com a China buscando equilibrar seus interesses econômicos e geopolíticos em um cenário global cada vez mais complexo.
Leitura da LZ7 Energia
A escalada de tensões entre EUA e China, com o Irã como pano de fundo, ilustra a complexidade das relações internacionais e seus impactos na economia global. Para a região do Norte Pioneiro do Paraná, embora a questão pareça distante, a instabilidade em grandes economias como China e EUA pode gerar efeitos em cascata, como flutuações nos preços de commodities, incluindo petróleo, e na taxa de câmbio. A busca da China por alternativas ao dólar, por exemplo, reflete uma tendência global de diversificação que, a longo prazo, pode influenciar o custo de importação de equipamentos e tecnologias, inclusive para o setor de energia solar. A estabilidade econômica global é crucial para a previsibilidade dos investimentos e para a manutenção de um ambiente de negócios saudável, impactando indiretamente o poder de compra e a capacidade de investimento em energias renováveis na nossa região.
Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
