São João do Ivaí, no Norte do Paraná, foi palco de um incidente grave que expõe a vulnerabilidade da produção rural à qualidade do fornecimento de energia elétrica. Uma propriedade dedicada à piscicultura registrou a morte de aproximadamente 450 mil peixes, totalizando cerca de 230 toneladas, após uma interrupção prolongada no abastecimento de eletricidade. O prejuízo, conforme levantamento da FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), pode atingir R$ 2,5 milhões e compromete seriamente os contratos comerciais do produtor.
O episódio, ocorrido no final de setembro, gerou grande preocupação entre os produtores rurais do estado, que dependem da energia elétrica para manter suas atividades. A instabilidade no fornecimento, além de interrupções completas, inclui oscilações de tensão frequentes, conhecidas como “pisca-pisca”, que afetam o funcionamento de equipamentos essenciais e a saúde financeira e psicológica dos agricultores.
Impacto devastador na piscicultura local
A piscicultura, atividade vital para a economia paranaense, demonstrou sua extrema dependência de um fornecimento de energia estável e de qualidade. A interrupção no abastecimento elétrico na propriedade de Edilson Pini, em São João do Ivaí, foi catastrófica. Sem energia, os aeradores que garantem a oxigenação da água nos tanques pararam de funcionar, levando à asfixia dos peixes.
A família Pini, com cerca de 40 anos de experiência no setor, produz anualmente aproximadamente 800 toneladas de peixes em 15 viveiros e possui um frigorífico próprio. A perda de 450 mil peixes compromete a produção dos próximos quatro meses e coloca em risco contratos importantes. A propriedade abastece programas de alimentação escolar em 22 municípios paranaenses e atende instituições como Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Sesc e Senac. A incapacidade de cumprir esses compromissos gera uma crise de confiança e financeira para o produtor.
“Na piscicultura, a falta de energia significa falta de oxigênio nos tanques e, em poucas horas, perda de animais e prejuízos financeiros na casa dos milhões de reais”, afirmou Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP, ressaltando a urgência de soluções por parte da Copel.
Cronologia do incidente e falhas no suporte
Os problemas na propriedade de Edilson Pini tiveram início em 29 de setembro, por volta das 14h, com uma interrupção no fornecimento de energia. O produtor realizou o primeiro contato com a Copel às 15h16. Diante das oscilações, o gerador da propriedade foi acionado para manter os equipamentos dos viveiros em funcionamento.
No entanto, por volta das 20h do mesmo dia, o gerador apresentou uma pane, com dois motores de arranque queimados e a placa de automação inutilizada, gerando um custo de reparo estimado em R$ 20 mil. Pini, sua esposa e dois funcionários tentaram, durante a noite, manter os peixes vivos com procedimentos manuais, incluindo a aplicação de oxigênio granulado. Contudo, essas medidas foram insuficientes para a quantidade de peixes e a falta de aeradores.
A energia só foi restabelecida às 13h do dia seguinte, 30 de setembro, após cerca de 23 horas de interrupção. Pini relatou ter feito 28 contatos por WhatsApp e telefone 0800, além de procurar a central de Londrina, a gerência de Ivaiporã e técnicos responsáveis, sem o suporte adequado. Ele criticou a demora da Copel em mobilizar a estrutura de manutenção.
“Se a empresa tivesse mobilizado a estrutura de manutenção no primeiro dia, em vez de três dias depois, quando houve nova queda, eu não teria tido esse prejuízo”, declarou Pini, que estima os prejuízos em milhões de reais, com a reposição do plantel exigindo cerca de R$ 2,5 milhões.
A perda representa seis meses de trabalho e compromete todo o planejamento da propriedade. Pini já está reunindo documentos e negociando com clientes, fornecedores e cooperativas de crédito para reorganizar seus compromissos financeiros e buscar apoio.

O cenário da piscicultura no Paraná
O Paraná é um gigante na produção de peixes. Segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Peixe BR (Associação Brasileira da Piscicultura), o estado produziu mais de 273 mil toneladas de peixes em 2025, respondendo por quase 70% da produção nacional de tilápia. A participação do Paraná nas exportações também é expressiva: das 12 mil toneladas de tilápia exportadas pelo Brasil no ano passado, metade saiu do estado, gerando mais de US$ 28 milhões em receita.
O Deral (Departamento de Economia Rural) aponta que municípios como Toledo, Palotina, Nova Aurora, São José dos Pinhais e Marechal Cândido Rondon estão entre os principais produtores. Já Itambaracá, Alvorada do Sul, Nova Prata do Iguaçu, Três Barras do Paraná e Boa Esperança do Iguaçu destacam-se pela quantidade de tanques.
A instabilidade no fornecimento elétrico não se limita a interrupções completas. Produtores relatam oscilações frequentes de tensão, que podem derrubar a tensão sem cortar totalmente o fornecimento, dificultando o acionamento automático de geradores. Dispositivos de proteção podem, inclusive, impedir a partida dos aeradores para evitar danos aos motores.
“Quando a energia falha, o peixe sofre com a oxigenação da água. Com baixa oxigenação, o resultado do ciclo é comprometido: o ganho de peso diário cai e o peixe fica mais dias nos tanques até ser entregue”, explicou Edio Chapla, presidente da Comissão Técnica de Aquicultura do Sistema FAEP e do Sindicato Rural de Marechal Cândido Rondon.
Chapla, que também é piscicultor, relata que a instabilidade afeta a saúde emocional dos produtores, que vivem com a constante preocupação de que os geradores funcionem. “É uma tortura”, desabafa. Os prejuízos incluem gastos com diesel, troca de óleo, manutenção e substituição de equipamentos. A energia já representa mais de 55% do custo do lote, pressionando a rentabilidade e dificultando o planejamento dos negócios familiares.

Resposta da Copel e desafios climáticos
Em nota oficial, a Copel informou que, em 29 de setembro, 173,7 mil unidades consumidoras tiveram o fornecimento interrompido no estado devido a tempestades, sendo 107,2 mil delas na região Noroeste, o que corresponde a 61,7% do total. Em São João do Ivaí e municípios vizinhos, as equipes da Copel atenderam a 385 ocorrências relacionadas aos temporais.
A companhia destacou que o atendimento contou com reforço de profissionais da Base de Serviços de Ivaiporã e eletricistas do Copel Agro, programa dedicado ao suporte de produtores de proteína animal. Após ser acionada pelo cliente na tarde de 29 de setembro, a Copel mobilizou cinco equipes, incluindo técnicos de obras e eletricistas, para atender à ocorrência. Os trabalhos envolveram a reconstrução de trechos da rede danificados pelo rompimento de cabos, quebra de postes e queda de galhos em áreas de mata e de difícil acesso.
A Copel acrescentou que, em um período de 35 dias, entre setembro e o início de outubro, o Paraná registrou cinco eventos climáticos consecutivos de grande intensidade, que causaram danos à rede elétrica em diversas regiões. A empresa afirmou que mantém investimentos na infraestrutura elétrica e um plano de contingência que abrange prevenção, monitoramento em tempo real, preparação operacional e ações para restabelecer o fornecimento de energia o mais rapidamente possível.

O que isso significa para a região
O incidente em São João do Ivaí é um alerta para a fragilidade da infraestrutura elétrica rural diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos. Para o Norte Pioneiro do Paraná, onde a agropecuária e, em particular, a piscicultura, têm um papel relevante na economia, a garantia de um fornecimento de energia estável é crucial. A falta de energia não é apenas um inconveniente, mas um fator que pode inviabilizar negócios, gerar perdas financeiras milionárias e impactar a segurança alimentar e os compromissos comerciais dos produtores.
A dependência da piscicultura de equipamentos elétricos para a oxigenação dos tanques significa que qualquer interrupção prolongada tem consequências imediatas e devastadoras. Além dos prejuízos diretos, como a perda de animais, há os custos indiretos com geradores, combustível, manutenção e o impacto psicológico sobre os produtores, que vivem sob constante estresse. A situação reforça a necessidade de investimentos contínuos e robustos na rede elétrica rural, bem como a implementação de soluções mais resilientes e eficientes para garantir a continuidade das atividades produtivas.

Leitura da LZ7 Energia
A recorrência de falhas no fornecimento de energia elétrica, como a que devastou a produção de peixes em São João do Ivaí, sublinha a urgência de soluções energéticas mais resilientes e autônomas para o setor rural. A dependência exclusiva da rede tradicional, especialmente em regiões sujeitas a eventos climáticos severos, expõe produtores a riscos inaceitáveis. A energia solar fotovoltaica, por exemplo, oferece uma alternativa robusta, permitindo que propriedades rurais gerem sua própria eletricidade, reduzindo significativamente a vulnerabilidade a interrupções e oscilações da rede. Além de garantir a continuidade operacional de equipamentos críticos como aeradores e sistemas de refrigeração, a energia solar pode representar uma economia substancial nos custos de energia a longo prazo, diminuindo a pressão sobre a rentabilidade e contribuindo para a sustentabilidade econômica dos negócios familiares no campo. Investir em autossuficiência energética não é apenas uma questão de economia, mas de segurança e resiliência para a produção agrícola e pecuária da nossa região.
Fonte: CNN Brasil — Nacional — matéria original publicada em cnnbrasil.com.br. Imagens e vídeos: CNN Brasil — Nacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
