O Ministério do Interior da França anunciou a suspensão do uso de granadas de atordoamento pela polícia em protestos estudantis, após um incidente chocante em que um adolescente de 15 anos perdeu a mão. A decisão, divulgada nesta terça-feira, 7 de outubro de 2026, pelo Ministro do Interior, Laurent Nuñez, visa esclarecer as circunstâncias do ocorrido e ocorre em um momento de crescente tensão e violência nas manifestações que varrem o país.

O incidente que motivou a suspensão aconteceu na segunda-feira, em Lens, uma cidade no norte da França, perto de Lille. Um jovem teve a mão dilacerada após a explosão de uma granada, conhecida como 'anti-cerco', disparada nas proximidades da escola de ensino médio Auguste Béhal. As autoridades afirmam que o adolescente teria pego a granada, que então explodiu, enquanto estudantes e testemunhas alegam que ele foi atingido diretamente após um disparo policial. Segundo o prefeito local, a polícia havia sido confrontada por mais de 200 estudantes que atiravam pedras e fogos de artifício.

Escalada dos Protestos e Reações Oficiais

Os protestos, que inicialmente mobilizaram estudantes do ensino médio, rapidamente se espalharam para pais, universitários e sindicatos, com centenas de milhares de pessoas saindo às ruas na terça-feira para exigir melhores condições escolares. Em algumas cidades, a polícia utilizou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar as multidões. O Ministério do Interior informou que 488 pessoas foram presas e 43 membros das forças de segurança ficaram feridos durante as manifestações.

A suspensão das granadas de atordoamento será mantida até que os fatos do incidente em Lens sejam completamente elucidados, conforme declarado pelo Ministro Nuñez. Ele confirmou à rádio francesa RTL que a IGPN (Inspetoria Geral da Polícia Nacional), órgão de controle da polícia, abriu 18 investigações para determinar se os policiais agiram de forma 'proporcional' durante os confrontos.

"Há uma ação policial que levanta questões para todos nós dentro do Ministério do Interior; é o que aconteceu em Lens", disse Laurent Nuñez, Ministro do Interior, ao confirmar a suspensão das granadas de atordoamento, que são consideradas armas não letais e que liberam pequenas esferas de borracha ao detonar.

A interrupção das aulas continuou na quarta-feira, com mais de 500 escolas total ou parcialmente fechadas. O Ministro da Educação, Édouard Geffray, revelou que 24 escolas foram "incendiadas ou vandalizadas" a ponto de precisarem ser fechadas por várias semanas, afetando 30.000 alunos. O Primeiro-Ministro Sébastien Lecornu fará um pronunciamento noturno sobre os protestos escolares.

Preocupações com a Violência Policial e Outros Incidentes

Além do caso do adolescente em Lens, outros incidentes graves têm alimentado as preocupações sobre a violência policial. Na semana passada, um jovem de 14 anos foi atingido no rosto por uma granada de gás lacrimogêneo em Saint-Ouen-l'Aumône, a noroeste de Paris. O advogado do garoto afirmou que ele perdeu vários dentes e sofreu uma fratura na mandíbula. Um policial foi indiciado neste caso.

Em um desenvolvimento separado na quarta-feira, um jovem de 16 anos sofreu um grave ferimento na mão em uma escola em Estrasburgo, supostamente enquanto manuseava um morteiro de artifício. Promotores também abriram uma investigação por tentativa de homicídio após um estudante manifestante de 17 anos denunciar que um policial "segurou sua cabeça debaixo d'água" ao tentar prendê-lo perto de um rio na cidade de Belfort, no nordeste. Relatos franceses indicam que o próprio garoto foi acusado de agressão agravada por supostamente ter atacado o oficial.

Debate Político e Futuro dos Protestos

Na Assembleia Nacional, tanto o Ministro Nuñez quanto o Ministro Geffray expressaram que a velocidade com que os protestos se tornaram violentos é sem precedentes. Geffray alegou que o movimento foi "muito rapidamente infiltrado por grupos ultraviolentos", e que dezenas de diretores e vice-diretores de escolas foram feridos, muitos deles deliberadamente. Ele ressaltou que "nunca vimos nada parecido" com a desordem, que, segundo as autoridades, feriu mais de 200 estudantes e 700 policiais, e levou a mais de 6.500 prisões.

Nuñez, por sua vez, considerou "excessivo falar em repressão policial do movimento", insistindo que os policiais agiram apenas em resposta à violência e aos danos.

A large fire burns on a road in Paris beside which five officers in riot gear walk past a crowd observing the flames. There is debris strewn across the street.
A large fire burns on a road in Paris beside which five officers in riot gear walk past a crowd observing the flames. There is debris strewn across the street.

A decisão de suspender o uso das granadas de atordoamento gerou ceticismo entre alguns setores. O secretário nacional do sindicato policial UNSA, Jean-Paul Nascimento, disse à FranceInfo que a medida foi baseada "na emoção".

"Estamos lidando com pessoas cada vez mais violentas", afirmou Jean-Paul Nascimento, alertando que, sem a arma para dispersar multidões, pode haver mais confrontos em curta distância. "É aí que talvez haja ainda mais feridos", advertiu.

A oposição também se manifestou. O coordenador nacional do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI) criticou a decisão tardia, afirmando que foram necessários "vários jovens mutilados para a vida para que Nuñez desistisse de usar granadas contra estudantes do ensino médio". O primeiro-ministro acusou o LFI de tentar "semear o caos" durante os protestos, visando as eleições para a sucessão do Presidente Emmanuel Macron em abril.

França Suspende Uso de Granadas de Atordoamento Após Acidente Grave em Protestos Estudantis
Foto: BBC News — World (internacional)

O Presidente Macron realizou uma reunião de emergência na terça-feira à noite com o Primeiro-Ministro Lecornu e outros ministros-chave para encontrar uma saída para a crise, após quase um quarto de todos os liceus serem afetados pelos protestos do dia, com números do governo indicando mais de 250.000 manifestantes.

Lecornu anunciou que as escolas deveriam reservar metade do dia para que os alunos expressassem suas preocupações e destacou nas redes sociais que uma consulta online para colher opiniões recebeu 30.000 respostas em um dia. No entanto, os sindicatos estudantis, que estimam o número de manifestantes em 450.000, mantêm a previsão de uma quarta rodada de manifestações para quinta-feira em Paris e outras cidades. O sindicato que representa os diretores de escolas disse à FranceInfo que uma solução exigiria "algo mais do que simples períodos de consulta", enquanto o chefe do sindicato estudantil USL, Ryad Rani, declarou à rádio francesa na quarta-feira: "Estamos dizendo ao Sr. Nuñez, acalme seus policiais e peça moderação."

O que isso significa para a região

A onda de protestos estudantis na França, com suas causas e consequências, reflete um cenário de insatisfação social que pode ter paralelos em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil. A mobilização massiva de jovens por melhores condições de ensino e o debate sobre a proporcionalidade da força policial em manifestações são temas que ressoam em qualquer democracia. Para o Norte Pioneiro do Paraná, embora a realidade social e econômica seja distinta, a atenção aos direitos dos estudantes, à qualidade da educação e à segurança pública em contextos de protesto são pautas relevantes. A forma como governos e forças de segurança lidam com a dissidência juvenil pode influenciar a percepção de estabilidade e justiça social, impactando indiretamente o ambiente de negócios e o bem-estar da população.

Fonte: BBC News — World (internacional) — matéria original publicada em bbc.com. Imagens e vídeos: BBC News — World (internacional). Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.