A Índia está consolidando sua posição como um dos principais mercados globais para a expansão da energia renovável. Dados recentes revelam que o país asiático possui mais de 150 GW (gigawatts) em projetos de energia limpa em fase de construção até 30 de junho de 2026. Essa robusta carteira de empreendimentos é vista como o principal motor para o aumento da capacidade de geração a médio e longo prazo, conforme análise da agência de rating ICRA.

A ICRA, uma agência indiana de avaliação de risco de crédito, projeta que as fontes de energia renovável, incluindo a grande hidrelétrica, irão compor mais de 35% da geração total de eletricidade da Índia até o ano fiscal de 2029-30. Este percentual representa um salto significativo em relação aos 22% registrados no período de 2024-25, sublinhando a ambição do país em descarbonizar sua matriz energética.

Crescimento e Desafios na Transmissão

Apesar do cenário promissor, a agência ICRA alerta que o aumento da participação das energias renováveis na matriz indiana dependerá criticamente da execução da atual carteira de projetos. Isso inclui não apenas os empreendimentos já contratados e com Contratos de Compra de Energia (PPAs) assinados, mas também o desenvolvimento adequado da infraestrutura de transmissão e a realização oportuna de novas licitações para projetos, bem como a assinatura de PPAs por agências nodais centrais.

Um dos gargalos identificados é o atraso da infraestrutura de transmissão em relação ao crescimento da capacidade de geração. Essa defasagem tem levantado preocupações com o curtailment (restrição) de energia, especialmente para projetos que operam sob o Acesso Temporário Geral à Rede (T-GNA). Segundo a ICRA, cerca de 37% da capacidade em subestações afetadas nas regiões Norte, Oeste e Sul da Índia opera sob T-GNA e enfrenta curtailment de 30% a 50% durante o horário de pico solar.

Ritmo de Licitações e Contratos

O ritmo de novas licitações para projetos renováveis tem apresentado uma desaceleração. Após um pico de 40,6 GW em capacidade licitada no ano fiscal de 2024-25, o volume caiu para 14,7 GW em 2025-26. A tendência de desaceleração persistiu no ano fiscal atual, com apenas 4,7 GW licitados até 10 de agosto de 2026. Paralelamente, a capacidade de PPAs não assinados permaneceu substancial, variando entre 40 GW e 45 GW em abril de 2026.

A adição de capacidade de energia renovável é impactada por preocupações com a infraestrutura de conectividade de transmissão, pois episódios crescentes de curtailment da rede afetam os retornos dos projetos. Cerca de 37% da capacidade nas subestações impactadas no Norte, Oeste e Sul opera sob T-GNA e enfrenta curtailment de 30-50% durante o horário solar. Portanto, a execução oportuna da infraestrutura de transmissão intraestadual e interestadual e o aprimoramento da capacidade de armazenamento serão críticos para proteger a economia dos projetos e sustentar o ritmo de adição de capacidade, à medida que a participação das energias renováveis na matriz de geração aumenta.

A declaração foi feita por Girishkumar Kadam, vice-presidente sênior e chefe do grupo de Ratings Corporativos da ICRA, ressaltando a urgência em resolver as questões de infraestrutura.

A Importância do Armazenamento de Energia

Com o aumento da penetração de energias renováveis, o armazenamento de energia, especialmente por meio de Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS), torna-se cada vez mais crucial para a estabilidade da rede. A Índia tem incentivado a adoção de BESS, impulsionada pela queda nos custos das baterias, financiamento de lacunas de viabilidade (VGF) e isenções de encargos de transmissão estendidas até junho de 2028.

A ICRA observou um aumento significativo nas concessões de BESS nos últimos 12 a 18 meses. A capacidade total de BESS concedida, incluindo projetos em construção e operacionais, atingiu aproximadamente 90 GWh (gigawatts-hora) em junho de 2026.

Custos e Economia dos BESS

Com base nos custos atuais das baterias, a ICRA estima que o custo nivelado de armazenamento para projetos BESS de duas a quatro horas varia de 4 rúpias indianas (aproximadamente US$ 0,042) por kWh a 7 rúpias indianas por kWh. Em comparação, o armazenamento hidrelétrico por bombeamento custa cerca de 5 rúpias indianas por kWh. Embora os BESS de quatro horas ainda sejam mais caros, seus riscos de execução e período de gestação são relativamente menores.

No entanto, a agência alerta que a concorrência agressiva em licitações de BESS autônomos pode pressionar a economia dos projetos.

A viabilidade dos projetos BESS permanece criticamente ligada ao seu custo de capital. Com base no custo médio da bateria de US$ 70-75/kWh observado no passado recente, juntamente com impostos/taxas associados e custo do balanço da planta, o custo de capital é estimado na faixa de US$ 110-130/kWh. No entanto, as expectativas de uma nova queda nos preços das baterias levaram a uma atividade de licitação agressiva nos leilões de armazenamento autônomo. No entanto, a reversão nas tendências de preços, juntamente com a depreciação da rúpia em relação ao dólar, impactou a economia de alguns desses projetos.

Kadam acrescentou que, com os custos de capital e taxas de juros atuais, a Razão de Cobertura do Serviço da Dívida (DSCR) cumulativa para alguns projetos BESS autônomos licitados anteriormente parece estar sob pressão, com valores variando de 0,80 a 1,20 vezes. Ele enfatizou que, embora tenha havido alguma restauração do poder de precificação em licitações recentes, a capacidade dos projetos BESS de aderir a parâmetros de desempenho como disponibilidade, eficiência de ida e volta, profundidade de descarga e degradação permanece um ponto chave de monitoramento, dada a limitada experiência.

Perspectivas para a Região

A experiência indiana na expansão da energia renovável oferece lições valiosas para regiões como o Norte Pioneiro do Paraná. O desafio de integrar grandes volumes de energia intermitente na rede, a necessidade de investimentos em transmissão e a crescente importância do armazenamento são temas universais na transição energética. A desaceleração nas licitações e os desafios nos PPAs na Índia mostram que o planejamento e a execução de políticas são tão importantes quanto a disponibilidade de recursos naturais para o sucesso da transição.

Leitura da LZ7 Energia

O cenário indiano de expansão da energia solar e outras renováveis, com mais de 150 GW em construção, reflete uma tendência global de investimento massivo em fontes limpas. No entanto, os desafios enfrentados pelo país, como a infraestrutura de transmissão que não acompanha o crescimento da geração e a necessidade de armazenamento de energia em larga escala, são pontos cruciais para a transição energética em qualquer lugar, inclusive no Brasil e no Norte Pioneiro do Paraná. A LZ7 Energia, ao atuar na região, observa que a estabilidade da rede e a capacidade de absorção da energia gerada são fundamentais para a viabilidade e o crescimento contínuo do setor solar. A experiência indiana com o curtailment e a pressão sobre a economia dos projetos de armazenamento devido a custos de capital e taxas de juros reforçam a importância de um planejamento robusto e de políticas de incentivo bem estruturadas para garantir a sustentabilidade dos investimentos em energia solar e a segurança energética da região.

Fonte: PV Magazine — Solar global — matéria original publicada em pv-magazine.com. Imagens e vídeos: PV Magazine — Solar global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.