Bagdá, Iraque – O Iraque está em diálogo direto com Washington na tentativa de isentar alguns de seus aeroportos das medidas impostas pelos Estados Unidos que visam voos de companhias aéreas iranianas na região. A iniciativa surge dias após o anúncio de novas sanções de aviação por parte dos EUA, que impactam qualquer empresa global que realize negócios com companhias aéreas iranianas.
Na sexta-feira, quatro aeroportos iraquianos – Bagdá, Najaf, Erbil e Sulaimaniyah – suspenderam todas as operações de voos de e para o Irã. Esta interrupção forçou passageiros a recorrer a viagens terrestres que duram no mínimo 12 horas, gerando transtornos significativos para milhares de pessoas.
Bagdá busca isenção por motivos humanitários
O gabinete do primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, declarou no sábado que as isenções solicitadas a Washington permitiriam a retomada dos voos “por motivos humanitários relacionados a tratamento médico, educação, visitas religiosas e os interesses dos civis”. A declaração enfatiza a importância dessas rotas aéreas para a população, especialmente considerando que Iraque e Irã são países de maioria xiita.
Voos para e de Najaf, em particular, são cruciais para peregrinos muçulmanos xiitas iraquianos que visitam as cidades sagradas do Irã, bem como para iranianos que se dirigem a locais sagrados no Iraque. A suspensão afeta diretamente essa conexão cultural e religiosa profunda entre os dois países.
O gabinete do primeiro-ministro também ressaltou o empenho de Bagdá em desescalar as tensões regionais, alertando que “a continuação das crises complica ainda mais a situação”. O governo iraquiano apelou a todas as partes para que busquem o diálogo e negociações para resolver a crise e os conflitos, visando os interesses dos países e povos da região.
Protestos e preocupações com a soberania
A suspensão dos voos provocou reações imediatas na capital iraquiana. No sábado, um grande número de manifestantes se reuniu nas ruas de Bagdá em oposição à medida, em um protesto organizado por milícias iraquianas aliadas ao Irã.
Além disso, dezenas de estudiosos e estudantes da Hawza de Najaf, o seminário xiita mais antigo e influente do mundo, realizaram uma vigília na noite de sábado contra a suspensão dos voos iranianos para o Iraque, conforme reportado pela Shafaq News. A Assembleia Acadêmica do seminário leu um comunicado condenando a interrupção dos voos, afirmando que ela ocorre em um momento em que “os povos da região mais precisam do fortalecimento dos laços de irmandade”. O comunicado instou o governo a “manter a independência e a soberania da tomada de decisões iraquianas”.

Diplomacia e a complexa posição do Iraque
Em Teerã, o embaixador do Iraque, Yasser al-Hajjaj, afirmou que a suspensão dos voos entre os dois países será temporária e não afetará as relações bilaterais. Em declaração à agência de notícias estatal do Iraque, ele informou que Bagdá está em contato com as autoridades iranianas para restaurar o tráfego aéreo normal o mais rápido possível. Al-Hajjaj enfatizou que os laços iraquiano-iranianos são “muito profundos para serem afetados por uma crise temporária”, destacando a presença de cerca de 100.000 estudantes iraquianos em instituições iranianas, uma comunidade iraquiana de centenas de milhares vivendo no Irã e milhares de travessias diárias de fronteira.
Separadamente, o embaixador iraniano no Iraque, Mohammad Kazem al-Sadegh, informou que autoridades dos dois países estão em contato e que uma nova decisão sobre os voos deverá ser anunciada em breve, segundo a agência de notícias iraniana IRNA.
“O Iraque está em uma situação difícil, aliado tanto à América quanto ao Irã. Em momentos como este, ele é espremido entre os dois.”
— Jack Hewson, correspondente da Al Jazeera em Bagdá
Hewson acrescentou que “alguns culpam o Irã por isso, sentindo que o Irã é muito controlador do Iraque. Outros culpam os EUA e Israel por terem iniciado a guerra em primeiro lugar. De qualquer forma, o Iraque permanece em uma posição muito delicada entre todos esses estados maiores e mais poderosos, continuando a sofrer consequências econômicas e o próprio impacto.”

Impactos regionais e econômicos
A suspensão dos voos e as sanções dos EUA são um reflexo das tensões geopolíticas crescentes na região. A posição do Iraque, como um país que busca manter relações com ambos os lados, torna-o particularmente vulnerável a essas pressões. A interrupção das ligações aéreas não apenas afeta a vida de civis, mas também tem implicações econômicas e sociais, dada a forte interdependência entre Iraque e Irã em diversas áreas.
A busca por uma isenção demonstra a urgência de Bagdá em mitigar os efeitos das sanções, equilibrando suas relações internacionais com as necessidades de sua própria população e a estabilidade regional.
Leitura da LZ7 Energia
A instabilidade geopolítica no Oriente Médio, como a que envolve as sanções dos EUA a voos iranianos e o impacto no Iraque, tem repercussões globais que podem afetar indiretamente o mercado de energia. Embora o Brasil não dependa diretamente do petróleo ou gás da região para sua matriz energética, flutuações nos preços internacionais do barril, causadas por tensões em grandes produtores como o Iraque e o Irã, podem elevar os custos de combustíveis e, consequentemente, impactar o custo da energia elétrica gerada por termelétricas no país. A busca por autonomia energética e fontes renováveis, como a solar, torna-se ainda mais relevante nesse cenário, oferecendo uma blindagem contra a volatilidade dos mercados internacionais e contribuindo para a estabilidade econômica local, inclusive no Norte Pioneiro do Paraná.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
