Às vésperas de um cenário político potencialmente transformador, o setor de varejo na Bolsa brasileira surge como um dos mais sensíveis a mudanças na percepção fiscal e nas taxas de juros. Contudo, uma análise recente do JPMorgan, divulgada em 30 de setembro de 2026, aponta que parte da valorização esperada já foi incorporada pelos investidores, sugerindo uma abordagem cautelosa na seleção de ações para capturar a reprecificação.

Apesar de o JPMorgan manter uma recomendação equivalente à venda para as ações da Magazine Luiza (MGLU3), a empresa registrou um fechamento em alta de 12,52% na sessão, acumulando um ganho superior a 60% no mês, o que a posicionou como o maior destaque do Ibovespa. Esse movimento reflete a complexidade do mercado, onde as expectativas eleitorais e os fluxos domésticos podem gerar valorizações expressivas, mesmo diante de recomendações conservadoras de grandes instituições financeiras.

Varejo em Ponto de Virada: O Cenário Pós-Eleição

O JPMorgan destaca que o setor varejista se aproxima das eleições com valuations significativamente deprimidos, após um período de revisões de lucros predominantemente negativas. Essa condição cria um espaço considerável para valorização caso o resultado eleitoral resulte em uma redução do prêmio de risco brasileiro e das taxas de juros. No entanto, o banco ressalta que o desfecho das urnas ainda não aponta claramente para um cenário de maior disciplina fiscal.

Além disso, a influência dos fluxos domésticos sobre as varejistas já provocou movimentos expressivos nas ações antes mesmo da votação. Essa dinâmica alterou a relação entre risco e retorno de algumas das apostas mais evidentes para um cenário de juros mais baixos, como Magazine Luiza (MGLU3) e Assaí (ASAI3), que seriam escolhas naturais devido à sua elevada alavancagem.

Varejo Brasileiro: JPMorgan Recomenda Cautela Pós-Eleição
Foto: InfoMoney — Economia

Apostas Assimétricas: C&A, Renner e Riachuelo em Destaque

Após a recente valorização de algumas ações, o JPMorgan considera que C&A (CEAB3), Lojas Renner (LREN3) e Riachuelo (RIAA3) oferecem atualmente uma assimetria mais interessante, considerando os diferentes resultados eleitorais. O ponto de partida para essa avaliação é um setor que negocia muito abaixo de seus padrões históricos.

Dados de consenso compilados pelo JPMorgan indicam que as varejistas são negociadas em torno de 8 vezes o lucro projetado, em comparação com uma mediana de aproximadamente 15 vezes nos últimos cinco anos. O desconto mediano atinge 58% em relação à média histórica de dez anos e 47% frente à média de cinco anos. Especificamente, a C&A negocia com um desconto de 78% para sua média de dez anos, a Renner, de 66%, e a Riachuelo, de 65%.

Esse desconto acentua a sensibilidade das ações ao resultado eleitoral, pois uma mudança na percepção sobre o risco fiscal pode impactar juros, câmbio, expectativas de inflação e o custo de capital. Contudo, o JPMorgan alerta que uma melhora eleitoral nas cotações não deve ser confundida com uma recuperação imediata dos fundamentos do varejo. Em um cenário político favorável, as ações podem subir antes que os lucros efetivamente se recuperem, à medida que os investidores antecipam taxas menores, menor custo de capital e melhores perspectivas para o consumo.

Mesmo com juros menores, o banco não prevê que os múltiplos retornem integralmente às médias históricas. Considerando que várias companhias estão em estágio mais maduro e devem apresentar expansão de lucro inferior à do passado, a expectativa é de uma reprecificação estrutural de pelo menos duas a três vezes no múltiplo Preço/Lucro (P/L). O potencial médio até os novos preços-alvo para dezembro de 2027 é de cerca de 30%.

Varejo Brasileiro: JPMorgan Recomenda Cautela Pós-Eleição
Foto: InfoMoney — Economia

Magalu e Assaí: Sensibilidade aos Juros e Cautela

Quando a análise se concentra puramente na sensibilidade às taxas de juros, Magazine Luiza e Assaí são os nomes que mais se destacam. Segundo os cálculos do JPMorgan, uma redução de 100 pontos-base na Selic em relação ao cenário-base aumentaria o lucro projetado do Magalu para 2028 em aproximadamente 10%, enquanto no Assaí, o impacto seria de cerca de 5%. Para as demais varejistas, geralmente menos alavancadas, o efeito médio ficaria próximo de 2%.

No entanto, o banco observa que o mercado já começou a precificar parte dessa tese. O Magazine Luiza superou o Ibovespa em cerca de 30% no movimento analisado, e o Assaí teve um desempenho superior de aproximadamente 25%. Para o Assaí, o JPMorgan acredita que a reprecificação pode ser mais sustentável devido à resiliência típica do varejo alimentar e à limitada dependência dos lucros em incentivos fiscais, mantendo uma recomendação neutra e preço-alvo de R$ 11 para ASAI3.

A leitura para o Magazine Luiza é mais cautelosa, apesar da grande sensibilidade positiva a juros menores. O JPMorgan mantém a recomendação underweight (exposição abaixo da média do mercado, equivalente à venda) para MGLU3, chamando atenção para a qualidade dos resultados. De acordo com os cálculos da instituição, quase todo o lucro da companhia depende de incentivos tributários. Juros menores também podem reduzir as margens brutas do setor ao diminuir os ganhos financeiros embutidos nas vendas, limitando parte do benefício sobre o lucro. Apesar disso, o banco elevou suas estimativas para o Magalu, incorporando ganhos de participação decorrentes da recuperação judicial da Casas Bahia e da parceria recente com o Mercado Livre. Para 2027, a estimativa de receita líquida subiu 6% e a de lucro, 24%.

Em contraste, C&A, Renner e Riachuelo são consideradas com pontos de entrada mais interessantes. A questão reside na assimetria, uma vez que o cenário operacional de curto prazo permanece fraco e ainda pode haver revisões negativas de lucros. Contudo, as expectativas já são conservadoras, os múltiplos estão deprimidos e as empresas não apresentam os mesmos problemas de balanço observados em companhias mais alavancadas.

Os três papéis negociam próximos ou abaixo do valor patrimonial, apesar de apresentarem retornos acima do custo de capital. Isso poderia limitar as perdas em um cenário eleitoral negativo e, ao mesmo tempo, permitir uma reprecificação expressiva em um cenário de queda do risco fiscal e dos juros. A Renner pode ser a primeira a reagir devido ao maior valor de mercado, maior liquidez, peso relevante nos índices e exposição aos fluxos passivos, embora a recomendação permaneça neutra, com preço-alvo de R$ 16 para dezembro de 2027.

A C&A apresenta o maior potencial de reprecificação entre as varejistas de moda, negociando perto de 5,5 vezes o lucro projetado, com recomendação overweight e preço-alvo de R$ 13,50. A Riachuelo também recebe recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra), com preço-alvo de R$ 9,50, com o banco vislumbrando espaço relevante para ganhos de produtividade.

Varejo Brasileiro: JPMorgan Recomenda Cautela Pós-Eleição
Foto: InfoMoney — Economia

Outras Apostas: Smart Fit e RD Saúde

Fora das apostas mais tradicionais do varejo discricionário, o JPMorgan destaca duas ações que podem se beneficiar de um cenário de queda do custo de capital por razões distintas: Smart Fit (SMFT3) e RD Saúde (RADL3).

A Smart Fit tem sido utilizada por investidores como fonte de recursos para financiar posições em ações de maior beta, aumentando as posições vendidas. Para o JPMorgan, essa dinâmica torna a relação entre risco e retorno mais favorável para uma posição comprada na companhia. Embora apenas cerca de 40% dos negócios estejam no Brasil e a empresa não seja um exemplo clássico de beta doméstico, seu valuation continua ligado ao custo de capital brasileiro. Por ser uma tese de longa duração, a redução do custo de capital favorece seu valor presente. O banco mantém recomendação overweight e preço-alvo de R$ 30.

A RD Saúde é ainda mais sensível a essa variável. Em uma redução de 100 pontos-base do custo de capital próprio, o valor justo calculado pelo JPMorgan aumenta cerca de 21%. Em sentido contrário, uma alta de 100 pontos-base reduziria o valor justo em aproximadamente 25%. O banco avalia, contudo, que o risco em um cenário negativo encontra alguma proteção no valuation atual. A RD Saúde negocia a aproximadamente 14,5 vezes o lucro projetado para 2027, abaixo das 18 vezes que a instituição considera um nível justo, enquanto seu crescimento de resultados historicamente apresenta menor ligação com o ciclo macro. O rating é overweight, com alvo de R$ 28.

Varejo Brasileiro: JPMorgan Recomenda Cautela Pós-Eleição
Foto: InfoMoney — Economia

Desafios do Consumo e Concorrência Internacional

O JPMorgan alerta para não confundir uma potencial alta das ações após a eleição com uma melhora instantânea do ambiente de negócios. Independentemente do resultado eleitoral, o banco prevê fortes obstáculos ao consumo em 2027. A atividade econômica deve perder ritmo, enquanto as famílias continuam pressionadas por endividamento elevado, serviço da dívida pesado, inadimplência crescente e crédito caro.

A deterioração da qualidade do crédito tende a tornar bancos e varejistas mais seletivos, reduzir limites e encarecer financiamentos, prejudicando principalmente categorias discricionárias e bens de maior valor. A confiança fraca e a menor intenção de consumo também devem levar as famílias a priorizar produtos essenciais, poupança e pagamento de dívidas.

Algumas medidas adotadas no período eleitoral podem trazer algum alívio. O relatório cita as restrições às bets, o Desenrola 3.0 e o aumento do Bolsa Família como possíveis apoios temporários ao consumo ou à desalavancagem das famílias, mas considera seus efeitos desiguais e não recorrentes. A inflação de alimentos também segue como obstáculo, especialmente para as famílias de renda baixa e média: mesmo com desaceleração da inflação geral, o JPMorgan espera que a inflação de alimentação continue pressionando a renda disponível durante boa parte de 2027.

A cautela já se reflete nas estimativas, uma vez que, na atualização do JPMorgan, o lucro líquido projetado para as varejistas foi reduzido em cerca de 2% na média e 5% na mediana para 2027. As revisões refletem a desaceleração do consumo, a competição crescente de plataformas internacionais, maior atividade promocional e a pressão de alavancagem operacional.

Varejo Brasileiro: JPMorgan Recomenda Cautela Pós-Eleição
Foto: InfoMoney — Economia

Além do macro, a concorrência internacional se tornou uma pressão mais estrutural. Em agosto, o volume de encomendas internacionais pelo programa Remessa Conforme cresceu 84% na comparação anual e cerca de 90% considerando os três meses anteriores. Em reais, as importações aumentaram 78% no ano. Vestuário, acessórios, beleza, calçados e produtos discricionários de baixo tíquete estão entre os segmentos mais expostos.

O resultado é um cenário no qual eleição e fundamentos apontam em direções diferentes no curto prazo. Um resultado percebido como fiscalmente mais favorável pode derrubar juros e custo de capital e provocar uma rápida reprecificação das varejistas. Isso não significa, entretanto, que vendas e lucros acompanharão imediatamente o movimento. Para o JPMorgan, essa diferença explica a preferência pela assimetria oferecida atualmente por C&A, Renner e Riachuelo, em vez de simplesmente perseguir os papéis de maior beta. Magazine Luiza e Assaí continuam sendo as ações mais diretamente beneficiadas pela queda dos juros, mas parte dessa expectativa já foi incorporada às cotações.

"Poucos setores da Bolsa brasileira têm tanto a ganhar com uma eventual melhora da percepção fiscal e queda dos juros quanto o varejo." - JPMorgan

O que isso significa para a região

Para o Norte Pioneiro do Paraná, as análises sobre o varejo nacional, especialmente em um cenário pós-eleitoral e de juros, têm um impacto direto. A saúde do setor varejista reflete o poder de compra e a confiança do consumidor, elementos cruciais para a economia local. Empresas como Magazine Luiza, Renner e C&A, com presença em diversas cidades da região, sentirão os efeitos das políticas macroeconômicas e das tendências de consumo. Uma melhora no cenário fiscal e a queda dos juros podem, em tese, estimular o crédito e o consumo, beneficiando o comércio local e gerando mais empregos. No entanto, os alertas do JPMorgan sobre o endividamento das famílias, a inadimplência e a concorrência internacional indicam que a recuperação não será imediata ou uniforme. As empresas da região precisarão adaptar suas estratégias para lidar com um consumidor mais cauteloso e um ambiente competitivo, buscando eficiência e diferenciais para prosperar.

Leitura da LZ7 Energia

A discussão sobre a queda dos juros e a melhora fiscal no cenário pós-eleitoral, como apontado pelo JPMorgan para o varejo, tem paralelos importantes para o setor de energia solar. Juros mais baixos significam linhas de crédito mais acessíveis para investimentos em sistemas fotovoltaicos, tanto para empresas quanto para consumidores residenciais e rurais no Norte Pioneiro do Paraná. A redução do custo de capital pode impulsionar a adoção da energia solar, tornando-a ainda mais competitiva frente às tarifas tradicionais de energia. Além disso, uma percepção de maior disciplina fiscal e estabilidade econômica tende a aumentar a confiança dos investidores e consumidores, incentivando projetos de longo prazo, como a instalação de painéis solares, que oferecem economia na conta de luz e sustentabilidade. A LZ7 Energia, atuando na região, pode se beneficiar diretamente desse ambiente macroeconômico mais favorável, facilitando o acesso à tecnologia solar para seus clientes e contribuindo para o desenvolvimento econômico local.

Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.