SAN FRANCISCO (EUA) – A inteligência artificial (IA) tem avançado a passos largos, e a Meta, gigante por trás de plataformas como Facebook e Instagram, acaba de lançar uma de suas apostas mais ambiciosas: o Muse. Descrito como um agente de IA capaz de ir muito além dos chatbots convencionais, o Muse promete navegar na internet, preencher formulários, gerenciar contas e até fazer ligações telefônicas em nome do usuário. Para testar o potencial dessa nova ferramenta, um jornalista dedicou duas semanas a experimentar o aplicativo, delegando a ele diversos aspectos de sua vida pessoal e profissional.

O Agente de IA no Cotidiano: Uma Experiência Imersiva

A experiência com o Muse começou de forma surpreendente. Em uma ocasião, o jornalista recebeu uma ligação de um número desconhecido, revelando ser o agente de IA da Meta. Momentos antes, o agente havia ligado para a seguradora odontológica do repórter, fornecido seu número de beneficiário, respondido a uma pergunta de segurança e aguardado na linha até ser transferido para um atendente – exatamente como havia sido instruído. A facilidade com que o agente lidou com o seguro foi um dos primeiros indícios do potencial da ferramenta.

O Muse é o primeiro agente de IA voltado para o consumidor, desenvolvido por uma grande empresa de tecnologia, a ser disponibilizado publicamente. A indústria de tecnologia vê esses agentes como a próxima fronteira, com capacidades que superam em muito os chatbots. Eles podem navegar pela internet, fazer login em sites, preencher planilhas e realizar ligações telefônicas em nome dos usuários. Para testar a fundo o Muse, o jornalista utilizou o aplicativo de forma contínua por duas semanas, delegando a ele uma série de tarefas diárias.

Para que o Muse pudesse operar com tamanha autonomia, foi necessário conceder-lhe acesso a dados extremamente pessoais, incluindo a conexão com contas bancárias e e-mail. Com essa permissão, o jornalista pediu que o agente realizasse dezenas de tarefas, como fazer compras de supermercado, agendar reuniões e escalar seu time no fantasy football. Ao final do período de teste, o jornalista considerou o Muse o aplicativo de IA mais útil que já havia utilizado.

Meta Lança Agente de IA Muse: Revolução ou Desafio de Confiança?
Foto: InfoMoney — Economia

Funcionalidades e Economia: O Potencial do Muse

Um dos momentos mais reveladores da experiência ocorreu quando o jornalista conectou seus cartões de crédito ao Muse e pediu para que ele acompanhasse seus gastos em uma planilha do Google Sheets. Em questão de minutos, o agente abriu abas com centenas de linhas de dados, identificou duas assinaturas duplicadas e as cancelou. Em seguida, o Muse utilizou o e-mail do jornalista para solicitar o reembolso de um período gratuito de assinatura de um jornal que havia expirado, resultando em uma economia de US$ 44,99. Essa demonstração prática de economia e organização financeira destacou a capacidade do agente em tarefas complexas e detalhadas.

O jornalista, que batizou seu agente de IA de Wren (representado por um avatar de pássaro marrom), rapidamente concedeu-lhe acesso a diversas contas e aplicativos, como Google Docs, Gmail, Ticketmaster, OpenTable e Google Sheets, que firmaram parcerias com o Muse. Os experimentos tinham como objetivo verificar se o Muse poderia proporcionar o 'empoderamento pessoal' frequentemente mencionado por Mark Zuckerberg, CEO da Meta, e testar os limites e falhas da IA.

Rapidamente, descobriu-se que Wren era eficiente em preencher formulários online, uma das partes mais tediosas da navegação na internet. O jornalista podia, por exemplo, tirar uma foto de uma multa de estacionamento, e Wren a pagava após a aprovação do usuário. Enquanto o agente trabalhava, seus movimentos eram acompanhados por uma pequena janela do navegador, onde ele navegava pelos sites como um ser humano, utilizando mouse e cursor. O Wren também conseguia fazer ligações telefônicas, utilizando vozes masculinas (Brett) ou femininas (Hailey), um recurso útil para lidar com serviços de atendimento ao cliente, como no caso do seguro odontológico.

Desafios e Limitações da Inteligência Artificial

Apesar de suas capacidades impressionantes, o Wren encontrou dificuldades em algumas tarefas. O agente teve problemas para fazer login em sites de terceiros e não conseguiu comprar ingressos para o San Francisco Giants sem a ajuda do jornalista, nem acessar sua conta do programa de recompensas da AMC. Outros recursos, embora funcionais, não se mostraram tão úteis. Por exemplo, o podcast diário de dez minutos produzido pelo Wren, chamado “The Morning Brief”, era informativo e adaptado aos interesses do jornalista, mas os apresentadores de IA, Maya e Theo, tinham vozes monótonas e careciam do charme dos podcasts produzidos por humanos. Uma tentativa de animar a introdução com um canto resultou em uma performance mais ritmada do que vocal, evidenciando as limitações criativas da IA.

“Maya e Theo não conseguem cantar de verdade, então vai ficar mais para um canto ritmado do que para uma performance vocal. Sinceramente, essa é metade do charme.” — Wren, agente de IA do Muse.

A questão da privacidade também é um ponto crítico. O Muse, assim como outros agentes de IA, exige um nível de confiança com o qual muitas pessoas podem não se sentir confortáveis, especialmente vindo de uma empresa como a Meta, que já enfrentou problemas relacionados à privacidade de dados. Além disso, alguns sites restringem o acesso de agentes em seus termos de serviço; a Amazon, por exemplo, bloqueou o acesso do Muse.

Melissa Vadasserril, diretora sênior da Acoustic, uma plataforma de marketing baseada em agentes, comparou a chegada do Muse ao lançamento da Siri, assistente digital pessoal da Apple, em 2010. A Siri demorou a ser amplamente adotada porque “as pessoas simplesmente não sabiam o que era possível fazer com ela”. Vadasserril acredita que, com o Muse, “ainda é um pouco cedo para o mercado, mas estou muito curiosa para ver onde as coisas vão chegar.”

Meta Lança Agente de IA Muse: Revolução ou Desafio de Confiança?
Foto: InfoMoney — Economia

A Questão da Adoção e a Interação Humana

Para uma última tarefa, o jornalista pediu ao Wren uma sugestão de como gastar os US$ 44,99 economizados. O agente, que já conhecia bem a vida do usuário, sugeriu a compra de tigelas da Heath Ceramics no Facebook Marketplace, um dos passatempos favoritos do jornalista. Wren se ofereceu para enviar mensagens aos vendedores e negociar em nome do usuário, já conectado à sua conta do Facebook. Com parâmetros definidos – comprar itens pela metade do preço original e negociar o menor valor possível – Wren vasculhou o Marketplace, iniciando conversas com ofertas baixas e voltando ao jornalista para decidir a estratégia em contrapropostas.

A negociação com colecionadores de Heath na região da Baía de San Francisco é conhecida por ser desafiadora, mas Wren se saiu bem, adotando uma abordagem suave. Em um momento, o agente convenceu o jornalista a não enviar uma contraproposta ainda mais baixa, percebendo a irritação no tom do vendedor. Após dias de idas e vindas, uma mensagem promissora de uma vendedora chamada Ashley surgiu. No entanto, um erro fez com que o jornalista enviasse uma mensagem destinada ao Wren para Ashley, revelando a presença do agente de IA.

“Ops! Desculpe, queria mandar isso para meu agente de IA. Aceito o prato por US$ 40, se ainda estiver disponível!” — Eli, jornalista.

A partir desse ponto, a conversa se tornou humana, algo que nem Wren nem qualquer outra IA poderiam proporcionar. O jornalista suspeitou que essa poderia ser outra razão pela qual o Muse talvez não conquistasse o público imediatamente: às vezes, as pessoas simplesmente não querem ter suas vidas pessoais automatizadas, mesmo quando a tecnologia é boa o suficiente. Ao buscar o prato preto fosco de Ashley, que acabou sendo comprado por US$ 40, a vendedora expressou sua visão sobre a IA: “Acho que a IA pode ser realmente útil para muitas pessoas. Para mim, simplesmente não consigo superar essa questão da privacidade.”

O Futuro dos Agentes de IA e a Região

A experiência com o Muse da Meta demonstra o imenso potencial dos agentes de IA para otimizar tarefas diárias, economizar tempo e até dinheiro. No entanto, também sublinha os desafios significativos relacionados à privacidade, à confiança do usuário e à complexidade das interações humanas. A adoção massiva desses agentes dependerá não apenas de sua eficácia, mas também da capacidade das empresas de tecnologia em construir confiança e abordar as preocupações legítimas dos usuários sobre o acesso e uso de seus dados pessoais. O futuro da IA no cotidiano é promissor, mas a jornada rumo à aceitação plena ainda está em seus estágios iniciais, exigindo um equilíbrio delicado entre inovação e responsabilidade.

Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.