Boise, Idaho, a cidade natal da gigante de semicondutores Micron Technology, está vivenciando uma transformação sem precedentes, impulsionada por um investimento de 50 bilhões de dólares (aproximadamente 250 bilhões de reais, considerando a cotação de US$ 1 = R$ 5) da empresa na expansão de suas instalações. O boom na demanda por chips de memória, especialmente para aplicações de inteligência artificial (IA), catapultou a Micron para o centro das atenções, criando uma nova safra de milionários locais e gerando um crescimento econômico notável, mas também levantando preocupações sobre o custo de vida e a sustentabilidade a longo prazo.

Um Boom Impulsionado pela IA

Desde o final de 2024, as ações da Micron valorizaram mais de dez vezes, elevando o valor de mercado da empresa para mais de 1 trilhão de dólares. Esse crescimento meteórico transformou muitos funcionários da Micron em milionários da noite para o dia, um fenômeno que o gerente de patrimônio Dave Petso, atuante em Boise desde a década de 1980, descreve como sem precedentes. Petso, que testemunhou várias recessões e crises financeiras, relata que a Micron, antes considerada um investimento “terrível”, agora é uma das empresas mais quentes do planeta.

“Você tem uma montanha de dinheiro agora, e está tudo preso em uma única empresa”, disse Dave Petso, em entrevista, sobre a necessidade de diversificação dos investimentos de seus clientes da Micron. Ele acrescenta que, enquanto antes se falava em 20.000 dólares em ações, “agora estamos falando de centenas de milhares ou milhões de dólares”.

O impacto do crescimento da Micron é visível em toda Boise, uma cidade de cerca de 250.000 habitantes, conhecida por suas aventuras ao ar livre e pelo campo de futebol azul da Boise State University. O boom se manifesta em:

  • Crescimento de empregos
  • Novos projetos de construção
  • Uma cena gastronômica movimentada
  • Um influxo de novos moradores

A Micron iniciou a construção de duas novas fábricas de chips que devem criar mais de 17.000 novos empregos na região, incluindo 3.500 na própria Micron, que atualmente emprega cerca de 7.000 pessoas em Boise e arredores.

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Desafios do Crescimento Rápido

No entanto, o rápido desenvolvimento e a expansão de US$ 50 bilhões da Micron também trouxeram uma série de inconvenientes para os moradores. Reclamações sobre frequentes congestionamentos de trânsito na cidade e na Interstate 84, o aumento dos custos de moradia e a chegada de pessoas da Califórnia e de outros estados que alteram a cultura e a paisagem locais são comuns. Segundo a Zillow, os preços médios de aluguel em Boise subiram 4,3% no último ano, enquanto a média nacional registrou queda.

“Uma das vantagens competitivas de Boise era nosso baixo custo de vida”, afirmou Jason Crawforth, morador de Boise há toda a vida e construtor de empresas de tecnologia na área por quase 35 anos. Ele reconhece que seu patrimônio líquido aumentou devido a investimentos na Micron, mas ressalta que “há uma grande parcela de nossa comunidade que não se beneficia diretamente disso”.

O valor médio das casas em Boise subiu 2,9% no último ano até junho, em comparação com um aumento médio de 1,2% em todo o país, de acordo com a Redfin. O condado de Ada, onde Boise está localizada, cresceu cerca de 19% desde 2020, adicionando quase 95.000 pessoas. O crescimento de Idaho é o mais rápido do país no mesmo período.

Impacto no Mercado e Economia Local

O boom da Micron está se refletindo em diversos setores da economia local. Lisa Zimowsky, proprietária da joalheria The Diamond Girls, relatou um aumento de 60% nas vendas anuais, observando que muitos clientes estão usando o lucro de suas ações da Micron para fazer compras. No mercado imobiliário, a agente Sheila Smith notou um aumento de compradores e menos imóveis disponíveis na parte sudeste da cidade, perto da sede da Micron. Ela observa que até mesmo empreiteiros da Micron estão comprando casas, algo incomum para trabalhadores temporários.

Gerald Robinson, CEO da 1st Choice Mortgage, confirmou o impacto: “Estamos vendo muitas opções de ações sendo executadas agora, e as pessoas [estão] comprando”. Ele citou casos de clientes da Micron que compraram imóveis como investimento ou para moradia, inclusive um que pagou à vista após vender ações.

A Micron incentiva a participação acionária como estratégia para atrair e reter talentos. Nos primeiros três trimestres do ano fiscal, a empresa registrou 954 milhões de dólares em remuneração baseada em ações, um aumento de mais de 100% em relação a três anos atrás.

“Nós nos apoiamos muito em prêmios de ações”, disse April Arnzen, diretora de pessoas da Micron e nativa de Idaho. “Queremos que nossos membros da equipe sejam proprietários da empresa e compartilhem do sucesso da empresa.”

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A Corrida Global pela Memória e o Papel de Boise

A Micron foi fundada em Boise há quase 50 anos e, em 1981, sua primeira fábrica de chips já produzia chips de memória DRAM (Dynamic Random-Access Memory). Atualmente, a DRAM representa 76% da receita total da Micron e é o tipo de chip usado para construir a memória de alta largura de banda (HBM), essencial para os poderosos processadores de IA. A demanda por HBM está esgotando o suprimento global de DRAM, causando escassez e aumento dos custos de memória, o que eleva os preços em toda a cadeia, até mesmo para eletrônicos de consumo como MacBooks e iPads da Apple.

Os três maiores fornecedores de HBM – SK Hynix, Samsung e Micron – estão construindo novas fábricas para atender à demanda. SK Hynix e Samsung estão investindo em megafábricas na Coreia do Sul, enquanto a Micron planeja construir duas novas fábricas em Boise. A primeira delas deve entrar em operação em 2027 e será a primeira fábrica de ponta para manufatura de memória nos EUA. Atualmente, a maior parte da memória de ponta da Micron é produzida em Taiwan, Japão e Singapura.

A Micron tem como objetivo produzir 40% de sua DRAM nos EUA, com um investimento de 250 bilhões de dólares até 2035, auxiliada por até 6,2 bilhões de dólares em fundos da Lei CHIPS, concedidos pelo governo Biden. Além disso, a Meta está construindo um centro de dados de 800 milhões de dólares a cerca de 32 km a sudoeste de Boise, em Kuna, Idaho, que criará cerca de 100 empregos operacionais.

Micron’s $50 billion buildout in its hometown of Boise is minting millionaires
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A Sustentabilidade do Boom e os Desafios Futuros

Embora o cenário atual seja de euforia, há preocupações crescentes sobre a sustentabilidade do boom da memória. A Micron, ciente das pressões criadas pela rápida expansão, como transporte e moradia, está colaborando com o estado e o condado para encontrar soluções. A empresa investirá 75 milhões de dólares em desenvolvimento da força de trabalho, educação e comunidade em Idaho na próxima década. Isso inclui um centro de cuidados infantis para funcionários em parceria com a YMCA, um “chip camp” para estudantes do ensino médio, uma fábrica de treinamento patrocinada pela Micron na Boise State e um programa de aprendizado no College of Western Idaho.

“Quando você está escalando tantas pessoas em um curto período, certamente há desafios como transporte, como moradia”, disse April Arnzen, destacando os esforços da empresa para se manter à frente desses problemas.

Apesar do otimismo, o mercado de ações é volátil. As ações da Micron caíram 29% em julho, o pior mês desde 2002, o que levantou um alerta para alguns. Dave Petso lembra o estouro da bolha da internet em 1999, quando muitos clientes da Micron, que se tornaram milionários, se recusaram a vender parte de suas ações, resultando em perdas significativas. Ele adverte que, embora o momento atual seja de sucesso, é crucial aprender com os erros do passado.

Exclusive look inside SK Hynix's $720 billion AI memory expansion
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A Nova Identidade de Boise

A cidade de Boise está em um novo capítulo, com a riqueza e a demanda crescente por moradias gerando preocupações sobre a acessibilidade para aqueles que não são diretamente beneficiados pelo “efeito Micron”. No entanto, o crescimento também trouxe melhorias significativas na qualidade de vida e nas opções de lazer. A cena gastronômica e cultural da cidade evoluiu, com a abertura de novos restaurantes e a realização de grandes shows no Albertsons Stadium da Boise State.

“As comodidades aqui mudaram muito”, comentou Clark Krause, diretor executivo da Boise Valley Economic Partnership. “À medida que a cidade cresceu, os moradores agora têm acesso a coisas que alguém que vive em uma cidade grande desfrutaria.”

Kris Komori, co-proprietário e chef executivo do KIN Boise, um dos principais destinos gastronômicos da cidade, observou a transformação desde sua chegada em 2013. “Você não consegue andar um quarteirão sem que haja algum tipo de construção acontecendo”, disse ele. O KIN Boise, com seu menu sazonal de 130 dólares por pessoa, tornou-se um ponto de encontro para funcionários da Micron e seus clientes, refletindo a nova dinâmica econômica e social da cidade.

Leitura da LZ7 Energia

O caso de Boise, Idaho, ilustra de forma contundente os impactos multifacetados de um grande investimento industrial, especialmente em setores de alta tecnologia como o de semicondutores, que são intensivos em energia. A expansão da Micron, ao demandar novas fábricas de chips, inevitavelmente aumenta a carga sobre a infraestrutura energética local. A declaração da Idaho Power de que não espera que o crescimento da Micron aumente as contas de eletricidade para outros clientes é um ponto crucial, pois a gestão eficiente da demanda e da oferta de energia é vital para evitar desequilíbrios que possam impactar os consumidores. No contexto do Norte Pioneiro do Paraná, onde a LZ7 Energia atua, projetos de grande porte, embora benéficos para a economia e geração de empregos, também requerem um planejamento energético robusto. O aumento populacional e o desenvolvimento urbano, como visto em Boise, elevam a demanda por energia em residências e comércios. A experiência de Boise ressalta a importância de fontes de energia sustentáveis e eficientes, como a solar, para apoiar o crescimento econômico sem sobrecarregar a rede ou encarecer a tarifa para o consumidor final. A diversificação da matriz energética e a capacidade de resposta das concessionárias são elementos chave para garantir que o progresso industrial se traduza em benefícios amplos, sem criar gargalos ou custos adicionais para a população.

Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.