Niamey, Níger – O governo militar do Níger fez uma grave acusação contra a França, atribuindo a Paris a orquestração de um motim militar fracassado que abalou a capital, Niamey, na semana passada. A alegação, divulgada na sexta-feira, 5 de setembro de 2026, intensifica as tensões já elevadas entre a ex-colônia africana e sua antiga metrópole, com a França negando veementemente qualquer envolvimento nos eventos.

A acusação surge em um momento de crescente instabilidade no Níger, três anos após o golpe que levou Abdourahamane Tchiani ao poder, derrubando o presidente eleito Mohamed Bazoum. Apesar da promessa de conter grupos armados, a violência e os desafios econômicos persistem, e a segurança interna do país continua sendo uma preocupação central.

Detalhes do Motim Fracassado

O incidente ocorreu pouco depois da meia-noite de 29 de agosto de 2026, quando soldados renegados atacaram a Base 101, uma importante instalação militar localizada dentro do complexo do aeroporto internacional de Niamey. Segundo as autoridades nigerinas, os amotinados detiveram alguns de seus próprios camaradas e abriram fogo contra “certos locais sensíveis” na capital.

Os confrontos se espalharam, atingindo inclusive o palácio presidencial e tirando temporariamente do ar a emissora estatal. Explosões e tiros ecoaram por Niamey por horas até que o exército do Níger, com o apoio de combatentes paramilitares russos conhecidos como Africa Corps, conseguiu conter o motim. A mídia estatal informou que centenas de soldados participaram da ação, resultando em dezenas de mortos ou presos.

Níger Acusa França de Orquestrar Motim Fracassado na Capital
Foto: Al Jazeera — Internacional

Acusações do Governo Militar Nigerino

O governo militar do Níger, por meio de seu porta-voz, Soumana Boubacar, emitiu uma declaração lida na televisão na sexta-feira, atribuindo a responsabilidade do motim à França e a outros países da África Ocidental.

“Esta operação, com suas ramificações internacionais, foi instigada e sustentada por uma vasta rede de conluio liderada pelo regime francês do Sr. [Emmanuel] Macron”, afirmou Soumana Boubacar. “Elementos traidores e renegados, aos quais foram feitas promessas de grandes coisas, foram encarregados de realizar ambições não cumpridas de Macron e seus comparsas em nosso país”, acrescentou, garantindo que tais “manobras subversivas sempre falharão”.

O Conselho de Ministros do Níger, que funciona como gabinete desde o golpe de 2023, declarou ter reunido “um corpo substancial de evidências a respeito deste ataque” e que o Níger “se reserva o direito de levar o assunto perante tribunais internacionais”. Contudo, detalhes específicos sobre as evidências não foram fornecidos.

Além da França, o Níger também acusou vários países regionais, incluindo o bloco econômico regional ECOWAS (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), de envolvimento. O governo do Benin, um dos países acusados, rejeitou as alegações. Em contraste, o Níger expressou gratidão à Rússia, Argélia e aliados na região do Sahel – Burkina Faso e Mali – pelo apoio.

Resposta Francesa e Contexto das Tensões

A França reagiu prontamente às acusações, classificando-as como “pura fantasia”. Jean-Noel Barrot, Ministro das Relações Exteriores francês, em entrevista à rádio francesa RFI, declarou:

“Nunca houve qualquer intenção, nem meios que a França teria mobilizado. Tudo isso é, como de costume, uma maneira de culpar injustamente a França por algo de que ela simplesmente não é responsável.”

As relações entre os dois países têm se deteriorado significativamente desde o golpe de 2023. Desde então, o Níger ordenou a retirada de cerca de 1.500 soldados franceses, expulsou o embaixador francês, revogou uma série de acordos militares bilaterais e suspendeu a transmissão de emissoras financiadas pelo estado francês, como a France 24 e a RFI.

Níger Acusa França de Orquestrar Motim Fracassado na Capital
Foto: Al Jazeera — Internacional

Agravamento da Segurança no Níger

Henri Nsaibia, analista sênior da África Ocidental na Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), expressou preocupação de que a luta das forças armadas nigerinas contra grupos armados ligados ao ISIL e à al-Qaeda possa ser enfraquecida após o motim.

“O regime provavelmente desviará recursos do combate a grupos jihadistas para monitorar ameaças internas”, disse Nsaibia.

A situação de segurança no Níger enfrenta desafios crescentes. Desde o golpe de 2023, quase 6.000 pessoas foram mortas em mais de 1.400 incidentes violentos, de acordo com dados da ACLED. Este número representa um aumento acentuado em comparação com os três anos anteriores ao governo de Tchiani, quando quase 3.200 pessoas foram mortas em mais de 1.300 incidentes violentos.

“O Níger ainda experimenta menos violência intensa do que os vizinhos Mali e Burkina Faso, mas enfrenta uma gama mais ampla de ameaças armadas”, observou Nsaibia.

Histórico Colonial e Sentimento Antifrancês

A influência francesa diminuiu drasticamente em suas ex-colônias na África Ocidental nos últimos anos, em meio a intervenções militares fracassadas e alegações de interferência. O aumento do sentimento antifrancês tem sido um fator que ajudou líderes de golpes em vários países a reivindicar legitimidade, incluindo no Níger, onde a França tem um longo histórico de brutalidade.

A campanha militar francesa de 1899 no Níger é lembrada por sua intensa violência, execuções em massa e destruição de cidades e vilarejos. O Níger tornou-se parte do império colonial francês no ano seguinte e conquistou a independência em 1960. No entanto, Paris continuou a intervir em sua política interna e em suas políticas econômicas. Nos últimos anos, as discussões sobre possíveis reparações como compensação pelo saque e extração dos recursos do país durante e após o domínio francês se intensificaram.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.