O Ministério da Saúde do Quênia confirmou o segundo óbito decorrente de ebola no país, em um momento em que as autoridades locais enfrentam o primeiro surto documentado da doença em sua história. A vítima recente é uma mulher de 65 anos, que mantinha parentesco próximo com o primeiro paciente registrado no território queniano — um homem que havia viajado a partir da República Democrática do Congo. De acordo com as informações divulgadas pelas autoridades sanitárias, a paciente faleceu após ter sido colocada em quarentena.
Além dos dois óbitos confirmados, outras sete pessoas diagnosticadas com a enfermidade continuam internadas recebendo assistência médica em duas unidades hospitalares de isolamento. Todos os casos confirmados até o momento pertencem ao mesmo agrupamento de transmissão. Segundo a pasta da Saúde queniana, não há, até o presente estágio da apuração epidemiológica, indícios de contágio ou circulação comunitária ampla no país.
Segundo óbito confirmado e perfil dos pacientes internados
A paciente de 65 anos estava sob regime de quarentena preventiva quando começou a apresentar os primeiros sintomas clínicos da infecção, em 13 de outubro. Ela integrava o círculo de contatos diretos da primeira vítima fatal do país, cuja morte foi registrada no dia 5 de outubro. Esse primeiro caso tratava-se de um homem que adoeceu ainda em setembro, passou por atendimento em múltiplos hospitais na República Democrática do Congo e, em seguida, deslocou-se até a capital queniana, Nairóbi, onde faleceu poucos dias após a sua chegada.
Entre as sete pessoas que permanecem sob cuidados médicos nas instalações de isolamento, a composição do grupo reflete a cadeia inicial de transmissão e a exposição ocupacional direta:
- Três familiares próximos do primeiro paciente infectado;
- Três profissionais de saúde que participaram do atendimento médico;
- Um funcionário responsável pelos serviços de limpeza hospitalar.
Ao avaliar o cenário de contágio, o órgão de saúde pública destacou que as transmissões permanecem restritas a um único foco de contatos rastreados:
"Todos os casos estão dentro de um único agrupamento, sem evidências de disseminação comunitária."

Controle sanitário e triagem reforçada nas fronteiras
Diante do avanço dos diagnósticos na capital e do risco sanitário regional, o governo queniano implementou um protocolo intensivo de triagem voltado a passageiros procedentes da República Democrática do Congo e de outros nove países africanos considerados de alto risco epidemiológico: Uganda, Tanzânia, Ruanda, Burundi, Angola, Zâmbia, Etiópia, Sudão do Sul e República Centro-Africana.
Pelas regras estabelecidas, qualquer viajante oriundo dessas nações deve obrigatoriamente preencher um formulário digital de vigilância epidemiológica antes do embarque aéreo. Na chegada ao Quênia, o passageiro precisa apresentar o código QR gerado às equipes de saúde portuária e aeroportuária. O governo também determinou a realização de inspeções sanitárias rigorosas nas aeronaves que aterrissam vindas dessas origens.
Em decorrência do cenário, os Estados Unidos emitiram uma recomendação para que seus cidadãos evitem viagens ao Quênia. Paralelamente, nações vizinhas como Etiópia e Somália também elevaram seus níveis de alerta de vigilância sanitária em suas respectivas faixas de fronteira.

A ameaça regional e as características da cepa Bundibugyo
O continente africano contabiliza mais de 4.000 mortes associadas à doença desde que a confirmação laboratorial do ebola ocorreu na República Democrática do Congo, em maio, consolidando o atual episódio como o segundo surto mais letal já documentado na história do vírus. Na República Democrática do Congo, o número de casos ultrapassa a marca de 9.500 ocorrências, mantendo a região sob constante pressão epidemiológica.
O Comitê Internacional de Resgate (IRC), entidade humanitária que atua em conjunto com os governos de ambos os países para tentar deter a propagação, alertou que o Quênia enfrenta um risco permanente de importação de novos casos através das fronteiras terrestres e conexões aéreas.
O surto atual está associado à espécie Bundibugyo do vírus ebola, uma variante relativamente rara. Diferentemente de outras cepas mais comuns da enfermidade, não existem vacinas aprovadas ou tratamentos específicos autorizados para uso comercial contra o ebola Bundibugyo, embora testes e ensaios clínicos permaneçam em andamento.
O ebola é uma patologia viral grave e de alta letalidade. Com o agravamento do quadro clínico, os infectados costumam manifestar episódios recorrentes de vômito e diarreia severa, condições que podem evoluir rapidamente para falência múltipla de órgãos. Alguns pacientes, embora não a totalidade deles, desenvolvem hemorragias internas e externas. A transmissão ocorre pelo contato físico direto com fluidos corporais de indivíduos infectados, incluindo sangue e vômito.

Investigação de vínculo com a Nigéria e restrições em Uganda
As ramificações da doença também alcançaram a Nigéria, onde as autoridades sanitárias confirmaram um caso positivo: a esposa de um diplomata suíço. Segundo declarações do ministro da Saúde nigeriano, professor Ali Pate, análises preliminares indicam que o caso registrado no país apresenta parentesco genético com a cepa viral identificada previamente no Quênia.
"Não há evidências até o momento de que o paciente queniano tenha viajado para a Nigéria, mas novos testes laboratoriais estão em andamento."
Investigadores de saúde pública apuram se o paciente diagnosticado no Quênia e a mulher infectada na Nigéria cruzaram caminhos em trânsito internacional, já que os dados de deslocamento indicam que ambos passaram pelo Aeroporto Internacional de Entebbe, em Uganda, no início deste mês. Como resposta preventiva direta à circulação do vírus na região, o Ministério da Saúde de Uganda anunciou na sexta-feira que passageiros procedentes da República Democrática do Congo estão temporariamente proibidos de fazer trânsito no território ugandense.
Ações de conscientização e busca ativa no território queniano
Internamente, as autoridades governamentais do Quênia intensificaram campanhas educativas voltadas à população civil para ampliar o conhecimento sobre os sintomas característicos da doença. As orientações oficiais instruem os cidadãos a notificarem prontamente qualquer quadro clínico suspeito às equipes de saúde locais e a buscarem atendimento imediato em unidades hospitalares.
O foco das operações sanitárias quenianas permanece concentrado no monitoramento estrito das pessoas que tiveram contato com o grupo original infectado e no bloqueio das vias de entrada internacionais, buscando impedir que o vírus ultrapasse os limites do agrupamento já isolado e atinja a circulação comunitária aberta no país.
Fonte: BBC News — World (internacional) — matéria original publicada em bbc.com. Imagens e vídeos: BBC News — World (internacional). Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
