O secretário de Justiça dos Estados Unidos (cargo equivalente ao de procurador-geral da República), Todd Blanche, saiu em defesa pública da decisão tomada pelo Departamento de Justiça de processar o estado do Alasca com o objetivo de impedir a certificação de uma eventual derrota republicana na acirrada disputa por uma cadeira no Senado norte-americano. No domingo, 25 de outubro de 2026, Blanche participou de programas de entrevistas do circuito dominical de emissoras de televisão norte-americanas, marcando presença no State of the Union, da rede CNN, e no Face the Nation, da CBS.
Durante as participações televisivas, o chefe da Justiça norte-americana foi confrontado com questionamentos duros a respeito da legalidade das iniciativas federais sobre prerrogativas eleitorais estaduais. Em diversos momentos, demonstrou irritação pública diante das perguntas formuladas pelos entrevistadores sobre a intervenção do Executivo em um pleito regional.
“Por que isso é controverso? Vamos tentar criar uma situação em que isso possa ser remediado. Isso não deveria ser algo que estivesse causando esse choque e horror.”
— Todd Blanche, secretário de Justiça dos EUA, à rede CNN
A ação judicial movida pelo Departamento de Justiça foi protocolada formalmente em 22 de outubro de 2026 e tornou-se alvo de críticas bipartidárias de democratas e republicanos. Analistas e oposicionistas apontam que a administração do presidente Donald Trump estaria preparando o terreno institucional para inviabilizar a oficialização de uma possível vitória democrata no Alasca. O próprio presidente assumiu ter determinado pessoalmente o início do litígio: “Fui eu quem mandou fazer isso”, declarou Trump na sexta-feira anterior a repórteres.

O cenário da disputa pelo Senado no Alasca
Agendada para 03/11/2026, a votação de meio de mandato (as midterms) no Alasca coloca em jogo uma das disputas mais equilibradas de todo o território dos Estados Unidos. O resultado nesse estado setentrional é apontado como determinante para definir se o Partido Republicano manterá ou não a maioria legislativa no Senado federal.
O atual senador republicano Dan S. Sullivan tenta assegurar sua reeleição, mas enfrenta concorrência acirrada da ex-deputada federal Mary Peltola, filiada ao Partido Democrata. O componente inusitado do pleito, no entanto, é a presença de um terceiro postulante de destaque com identificação idêntica: Dan J. Sullivan, um ex-funcionário público do Serviço Florestal norte-americano.
A entrada do ex-servidor na disputa levantou suspeitas no meio político de que ele estaria atuando deliberadamente como uma candidatura de desgaste (ou spoiler), criada com a finalidade primária de desviar votos conservadores que seriam direcionados ao titular do mandato parlamentar. O ex-trabalhador florestal, contudo, rejeita enfaticamente essas acusações, classificando-as como inteiramente infundadas.
“Não sou um democrata registrado e não tive nenhuma conversa com a campanha de Peltola sobre a minha candidatura. Considerei concorrer a um cargo político por mais de uma década. Tomei a decisão de concorrer formalmente ao Senado dos Estados Unidos na eleição primária porque o senador Sullivan rotineiramente falhou com o povo do Alasca, e eles merecem um representante melhor. É meu direito fazê-lo.”
— Dan J. Sullivan, candidato ao Senado no Alasca, em carta à vice-governadoria do estado
Após as primárias estaduais realizadas em agosto de 2026, quatro nomes avançaram para o turno final de votação, entre eles Mary Peltola e os dois concorrentes chamados Dan Sullivan. Ambos os homens registram sua postulação sob o campo político republicano.
A ação federal protocolada a poucos dias do pleito
Faltando menos de duas semanas para o encerramento do processo eleitoral de meio de mandato, o Departamento de Justiça sustentou nos autos processuais que sua intervenção é fundamental “para proteger a integridade” do pleito. Segundo a tese formal da pasta de Blanche, qualquer resultado decorrente da eleição ao Senado estaria irremediavelmente “contaminado pela inclusão de Daniel J. Sullivan na cédula”.
Diante desse argumento, a pasta comandada por Blanche requereu ao Tribunal Distrital dos Estados Unidos no Alasca a emissão de uma ordem declarando ilícita qualquer certificação futura da corrida eleitoral e proibindo a administração estadual de permitir a conclusão burocrática da apuração oficial.
Pela Constituição dos Estados Unidos, a atribuição de organizar e administrar as votações recai exclusivamente sobre as unidades federativas (os estados), cabendo ao Congresso apenas aprovar diretrizes regulatórias gerais sobre sufrágios em nível federal. A interferência direta do Executivo da União sobre atos estaduais de certificação eleitoral rompe padrões históricos e é considerada por juristas com ampla probabilidade de ser declarada ilegal pelas cortes.

Medidas estaduais já tomadas e a postura da Suprema Corte do Alasca
Antes da investida do governo federal em Washington, as autoridades do Alasca já haviam estabelecido regras para mitigar qualquer equívoco no momento do voto. Ainda em junho de 2026, a Suprema Corte do Estado do Alasca determinou juridicamente que ambos os candidatos com o nome Dan Sullivan possuíam o direito legal de disputar a vaga ao Senado.
A partir dessa decisão judicial local, a Divisão de Eleições do estado adotou providências gráficas na formulação do material impresso oficial que será entregue aos eleitores no dia 03/11/2026:
- O senador em exercício, Dan S. Sullivan, constará na cédula identificado expressamente como mandatário (incumbente) e com a descrição de “republicano registrado”.
- O concorrente homônimo, Dan J. Sullivan, terá o sufixo “Jr.” anexado ao seu nome na cédula eleitoral para diferenciação visual.
- O campo de filiação partidária de Dan J. Sullivan será deixado em branco na cédula impressa, ainda que o candidato se apresente publicamente como de orientação republicana.
Apesar desses ajustes definidos pela justiça estadual, Todd Blanche insistiu publicamente nas transmissões televisivas que a convivência de nomes idênticos constitui erro inaceitável para a higidez do processo de votação.
“Está errado. Deixando de lado se vamos ganhar ou perder nos tribunais, deixando de lado o que a Suprema Corte do Alasca fez, em nosso sistema não deveríamos ter um candidato que tenha que se preocupar com outro candidato na cédula sem outro motivo que não seja confundir os eleitores.”
— Todd Blanche, em entrevista à CNN
Questionado sobre as falas de Donald Trump atribuindo a si próprio a ordem para a abertura da ação, Blanche rechaçou desvios funcionais: “Cabe a ele garantir que tudo neste país funcione direito, incluindo as eleições”.
Balanço de forças no Congresso e o histórico de contestações
Historicamente, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos preserva diretrizes de autonomia técnica em relação à Casa Branca. As investidas recentes alimentaram acusações de que a administração Trump estaria instrumentalizando o aparato jurídico para colher vantagens eleitorais em disputas estratégicas.
Durante a entrevista à CNN, a apresentadora Dana Bash apontou as declarações públicas de Trump imputando supostas fraudes ao Partido Democrata e lembrou o comportamento do mandatário em 2020, quando não reconheceu a derrota presidencial e viu apoiadores invadirem a sede do Congresso norte-americano em 06/01/2021 com a intenção de impedir a certificação da vitória do adversário. Blanche reagiu à lembrança dos fatos repreendendo a jornalista no ar e afirmando que aquele debate não se aplicava ao caso atual.
O secretário negou que o processo judicial sirva de preparação para contestar os resultados se a democrata Mary Peltola vencer as urnas no Alasca. Segundo ele, a meta da petição não seria indicar quem assumirá o cargo nem reverter atos do governo estadual, mas assegurar a retenção das cédulas recebidas em moldes que permitam a abertura de apurações judiciais futuras. Na CBS, Blanche também se recusou taxativamente a revelar se Trump havia exigido dele pessoalmente o ajuizamento da ação, argumentando que jamais discutirá diálogos mantidos em sigilo com o chefe de Estado.
A disputa pelo controle do Senado em 2026 apresenta margens estreitas: o Partido Republicano mantém no momento uma maioria exígua de 53 cadeiras das 100 existentes. Apenas 35 vagas — pouco mais de um terço da casa legislativa — estão em disputa nestas eleições de meio de mandato, em decorrência do sistema de mandatos de seis anos renovados de forma escalonada.
Projeções eleitorais apontam dificuldades para os republicanos preservarem a hegemonia parlamentar no pleito, cenário impulsionado pelo encarecimento do custo de vida e pela queda na aprovação de Trump nas pesquisas de opinião. Dentre as cerca de sete disputas para o Senado classificadas como indefinidas em todo o território norte-americano, o Alasca figura com destaque: levantamento conduzido em conjunto pelo jornal The New York Times e pelo Siena College no início de outubro apontou a democrata Mary Peltola com uma vantagem de quase sete pontos percentuais à frente do senador Dan S. Sullivan, uma das maiores margens apuradas entre os estados mais concorridos do ciclo.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
