A crescente integração da inteligência artificial (IA) em diversas operações empresariais está gerando um dilema significativo no setor de seguros, com líderes da indústria divididos sobre a melhor forma de classificar e cobrir os riscos associados a essa tecnologia. A discussão acalorada ocorreu durante a Cúpula de Risco Digital da NetDiligence, realizada na Filadélfia, Estados Unidos, na última terça-feira, dia 6 de outubro.

Enquanto hackers já empregam a IA para orquestrar ataques cada vez mais sofisticados, as seguradoras ainda não chegaram a um consenso sobre se a exposição à IA deve ser tratada como uma questão puramente digital, um problema de responsabilidade civil para diretores e executivos (D&O), ou se representa um novo tipo de risco para o qual o mercado ainda não possui uma solução de cobertura adequada.

Responsabilidade em Debate: IA é Risco Cibernético ou D&O?

A complexidade dos riscos da IA vai além das tradicionais preocupações cibernéticas, segundo Gail Arkin, vice-presidente sênior e diretora jurídica da Berkley Cyber Risk Solutions. Ela argumenta que as apólices de seguro digital existentes não abordam questões cruciais, como o uso indevido de dados por uma empresa, a violação de direitos de terceiros ou a incorporação de preconceitos em programas de IA.

“Há tantas coisas que podem dar errado e que vão além da área eletrônica que, basicamente, cheguei à conclusão de que se trata de uma questão de responsabilidade civil de diretores e executivos”, afirmou Gail Arkin.

Arkin destacou que conselhos de administração estão ativamente desenvolvendo políticas de IA e montando equipes para monitorar o uso da tecnologia, o que, para ela, transforma a questão em algo “mais do que uma questão tecnológica, honestamente, e definitivamente mais do que uma questão cibernética”.

Por outro lado, Tim Nazzaro, gerente global de produtos digitais da Hartford Steam Boiler, propôs uma categorização dos riscos da IA em três grupos distintos:

  • Riscos de Segurança e Privacidade: Envolvem vazamento de dados pessoais por ferramentas de IA. Nazzaro defende que a responsabilidade da empresa é clara e que esses riscos devem ser explicitamente cobertos por uma apólice de segurança eletrônica.
  • Outras Linhas de Seguro: Exemplos incluem ferramentas de IA que discriminam no processo de contratação, o que se enquadraria em uma apólice de responsabilidade civil por práticas trabalhistas.
  • Novos Riscos sem Lugar Definido: Esta categoria abrange exposições emergentes que ainda não se encaixam nas apólices tradicionais. Nazzaro alertou contra a prática de “ampliar a cobertura, simplesmente incluir o risco, sem fazer a subscrição”, enfatizando a necessidade de uma avaliação cuidadosa desses riscos, especialmente diante de novas regulamentações. Ele ressaltou que multas por violação de regras não relacionadas à privacidade podem não ser cobertas por apólices cibernéticas.
Setor de Seguros Diverge sobre Cobertura de Riscos da IA
Foto: InfoMoney — Economia

A IA como “Risco Silencioso” e a Necessidade de Análise Detalhada

Danielle Roth, líder de prática e chefe de sinistros cibernéticos para a América do Norte na Axa XL, sugeriu que as seguradoras evitem tratar a IA como um “monólito”. Em vez disso, ela defendeu um retorno à análise fundamental da cobertura: identificar o segurado, a natureza do sinistro, se ele aciona algum acordo de seguro e se há exclusões aplicáveis.

“Talvez nem saibamos, em caso de violação, se a IA foi usada ou não. Podemos especular, mas talvez nunca venhamos a descobrir”, comentou Roth.

Ela aconselhou os segurados a colaborarem com seus corretores para avaliar seus próprios riscos de IA. Arkin, da Berkley, comparou a situação a um “risco cibernético silencioso”, indicando que “a exposição à IA estará presente em todas as apólices de seguro existentes. No momento, trata-se apenas de uma IA silenciosa”.

Explosão de Ataques e a Aceleração da IA Maliciosa

O cenário de ameaças cibernéticas está em constante evolução, com a IA desempenhando um papel cada vez mais proeminente na sofisticação dos ataques. Michael Brunetti, vice-presidente de resposta a incidentes da MOXFIVE, relatou um aumento sem precedentes na atividade de sua empresa desde o dia 4 de julho. Embora o ransomware tradicional e a dupla extorsão ainda sejam comuns, Brunetti observou uma mudança significativa nos ataques a serviços de computação em nuvem.

Grupos como o ShinyHunters, que visam aplicativos de software como serviço (SaaS), agora utilizam IA para vasculhar dados roubados em busca do material mais sensível, criar mensagens de extorsão que “parecem muito mais assustadoras” e gerar perfis de executivos rapidamente. Segundo Brunetti, tarefas que antes levavam dias ou semanas agora são concluídas em minutos ou horas, demonstrando a aceleração proporcionada pela IA no lado dos atacantes.

Danielle Roth, da Axa XL, também confirmou um verão bastante movimentado para sua empresa, com um aumento notável em ataques a escritórios de advocacia, que teriam substituído o setor de saúde como alvo preferencial. Apesar da crescente preocupação com a IA, a maioria dos ataques ainda se baseia em phishing, e os funcionários continuam sendo o elo mais forte ou mais fraco na segurança de uma empresa.

O que isso significa para a região

A discussão sobre os riscos da inteligência artificial no setor de seguros, embora focada em um contexto global, tem implicações diretas para empresas e organizações no Norte Pioneiro do Paraná. À medida que a digitalização avança e a IA se torna mais presente em processos administrativos, industriais e de serviços, a exposição a novos tipos de ataques cibernéticos e a riscos de responsabilidade civil se amplia. Para as empresas da região, é crucial que os gestores e conselhos de administração avaliem proativamente como a IA está sendo utilizada em suas operações, desde a automação de processos até a análise de dados. A falta de clareza nas apólices de seguro atuais sobre a cobertura de incidentes envolvendo IA destaca a necessidade de um diálogo aprofundado com corretores e seguradoras, garantindo que as políticas de risco estejam atualizadas e que as empresas estejam adequadamente protegidas contra vazamentos de dados, interrupções operacionais e possíveis litígios decorrentes do uso da tecnologia. A compreensão desses riscos é fundamental para a sustentabilidade e segurança dos negócios locais em um ambiente cada vez mais digitalizado.

Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.