Após um período de volatilidade nos prêmios de títulos de empresas em relação aos papéis do Tesouro Nacional, que se intensificou entre março e abril, o mercado de crédito privado indexado à inflação volta a ser visto com otimismo por especialistas. A estabilização observada em maio e o recuo dos prêmios em junho e julho criaram um cenário mais equilibrado entre risco e retorno, reacendendo o interesse por essas aplicações, embora com uma postura seletiva.
De acordo com o BB Investimentos, a correção vista no primeiro semestre foi motivada principalmente por fatores técnicos e de fluxo, como resgates em fundos e maior sensibilidade dos investidores à marcação a mercado, e não por uma deterioração generalizada dos fundamentos corporativos. Apesar disso, os analistas Viviane Silva, Melina Constantino e Fernando Cunha Filho, em relatório, enfatizam a manutenção de uma postura cautelosa, priorizando emissores de alta qualidade e estruturas de investimento robustas.
Oportunidades em Crédito Privado e Tesouro IPCA+
Felipe Passero, CEO da Jaguaretê Investimentos, ressalta que o prêmio atual pago pelo crédito privado de melhor qualidade está “bem apertado”, abaixo da média histórica, o que exige dos investidores uma estratégia de diversificação e a não concentração em uma única posição. As recomendações das casas de investimento incluem uma variedade de papéis atrelados ao IPCA, abrangendo tanto o crédito privado quanto títulos públicos do Tesouro Nacional.
A isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas em papéis de crédito privado, como debêntures incentivadas, é um atrativo adicional, contrastando com a tributação pela tabela regressiva aplicada aos títulos do Tesouro. Essa diferença fiscal pode impactar significativamente o retorno líquido do investimento, especialmente para o longo prazo.
Setor de Energia Elétrica Lidera as Indicações
A análise das recomendações revela uma forte concentração setorial, com a energia elétrica se destacando. Sete dos 18 papéis de crédito privado indicados pertencem a empresas do setor elétrico, enquanto outros cinco são de concessões de infraestrutura, incluindo rodovias, ferrovias, metrô e saneamento. Essa preferência reflete a percepção de estabilidade e previsibilidade desses setores.
O BB Investimentos selecionou três debêntures do setor elétrico: da Celpe (Neoenergia), com vencimento em 15 de agosto de 2040 e rating brAAA pela S&P; da Equatorial Goiás, para 15 de agosto de 2037, com ratings brAAA pela S&P e AA+ pela Fitch; e da Engie, com vencimento em 15 de fevereiro de 2038 e rating AAA pela Fitch.
O BTG Pactual indicou outra emissão da Equatorial Goiás, com vencimento em 15 de janeiro de 2038, rating AAA e perfil conservador, além de um papel de transmissão da Rialma, para 15 de dezembro de 2048, também com rating AAA e perfil conservador. Já a XP Investimentos recomendou a Energisa, com vencimento em 15 de setembro de 2033, a uma taxa de IPCA + 7,87% (equivalente a IPCA + 9,68% para um título tributado), e a CPFL, para 15 de fevereiro de 2035, a IPCA + 7,60% (ou IPCA + 9,31% em taxa equivalente). A debênture da CPFL é restrita a investidores qualificados.

Concessões e Outros Setores Complementam a Lista
As concessões de infraestrutura somam cinco papéis nas indicações. A XP Investimentos recomenda a debênture da Ecovias Raposo Castelo (Ecorodovias), com vencimento em 15 de março de 2029 e taxa de IPCA + 8,07% (equivalente a IPCA + 10,2%). A casa também aponta a emissão da Águas do Rio 4 (Aegea), concessionária de saneamento, para 15 de setembro de 2034, com a taxa mais alta entre os papéis com remuneração divulgada, IPCA + 11,24%. Este último, contudo, apresenta maior risco na seleção, com rating brA e perspectiva negativa pela S&P. Ambos os títulos são destinados a investidores qualificados.
O investidor olha só a taxa e vai com tudo em cima da maior taxa, e muitas vezes a taxa é super alta justamente porque o emissor está com problema.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, alerta para a cautela com prêmios muito elevados, pois taxas excessivamente altas podem indicar problemas com o emissor.
O BTG Pactual escolheu a Autopista Litoral Sul, com vencimento em 15 de outubro de 2031, e o MetrôRio, para 15 de março de 2042, ambos com rating AAA e perfil moderado. O BB Investimentos indicou a MRS Logística, operadora ferroviária da Malha Sudeste, com vencimento em 15 de setembro de 2039 e nota máxima em duas agências: brAAA pela S&P e AAA pela Fitch.
Completando a lista, os setores de papel e celulose, combustíveis, saúde e imobiliário também aparecem nas recomendações. Em papel e celulose, a XP aponta a CPR da Suzano, com vencimento em 17 de março de 2036, a IPCA + 7,51% (ou IPCA + 9,10% em taxa equivalente), restrita a qualificados. O BTG indicou dois papéis da Eldorado, com vencimentos em 17 de setembro de 2035 e 17 de setembro de 2040, ambos com rating AA+ e perfil moderado.
O BB Investimentos escolheu a debênture da Vibra, com vencimento em 15 de março de 2036 e nota máxima nas duas agências que avaliam o emissor: brAAA pela S&P e Aaa.br pela Moody’s. O Itaú BBA fechou a seleção de crédito privado com dois papéis: o da Rede D’Or para 15 de dezembro de 2033, com rating AAA e perfil conservador, e o da JHSF para 16 de outubro de 2034, sem rating e de perfil moderado.

Títulos Públicos: Tesouro IPCA+ como Complemento
A XP Investimentos também incluiu em suas recomendações dois títulos públicos atrelados à inflação, que servem para preencher a parcela sem risco de crédito corporativo na carteira. A casa sugere uma 'duration' próxima de seis anos, preferindo vencimentos intermediários, argumentando que vértices mais longos têm oferecido remuneração menos atrativa para o risco adicional assumido.
A alocação sugerida é de 12,5% para o perfil conservador, 22,5% para o moderado e 27,5% para o sofisticado. O primeiro título é o Tesouro IPCA+ com juros semestrais para 15 de agosto de 2032, a IPCA + 7,65%, com 'duration' de 4,95 anos e cupom de 6% ao ano pago em fevereiro e agosto. O segundo é o Tesouro IPCA+ sem juros semestrais para 15 de maio de 2035, a IPCA + 7,45%, com 'duration' de 8,7 anos. Nesta modalidade, o rendimento é incorporado ao valor do papel e pago apenas no vencimento. Ao contrário das debêntures incentivadas, ambos os títulos são tributados pela tabela regressiva do Imposto de Renda.
Recomendações de Investimento em Papéis de Inflação
A tabela a seguir detalha os papéis atrelados ao IPCA mais recomendados pelas instituições financeiras, com seus respectivos emissores, setores, vencimentos e taxas indicativas, quando divulgadas:
| Código | Emissor | Setor | Vencimento | Taxa | Recomendado por |
|---|---|---|---|---|---|
| CEPEB7 | Celpe (Neoenergia) | Energia elétrica | 15/08/2040 | Não divulgada | BB Investimentos |
| CGOSB0 | Equatorial Goiás | Energia elétrica | 15/08/2037 | Não divulgada | BB Investimentos |
| EGIEA6 | Engie | Energia elétrica | 15/02/2038 | Não divulgada | BB Investimentos |
| MRSAC2 | MRS Logística | Transporte e logística | 15/09/2039 | Não divulgada | BB Investimentos |
| VBBRA0 | Vibra | Distribuição de combustíveis | 15/03/2036 | Não divulgada | BB Investimentos |
| ENGIB9 | Energisa | Energia elétrica | 15/09/2033 | IPCA + 7,87%* | XP |
| PALFB6 | CPFL | Energia elétrica | 15/02/2035 | IPCA + 7,60%* | XP |
| CERT11 | Ecovias Raposo Castelo | Concessão rodoviária | 15/03/2029 | IPCA + 8,07%* | XP |
| RIS414 | Águas do Rio 4 (Aegea) | Saneamento | 15/09/2034 | IPCA + 11,24%* | XP |
| 26D00013405 | Suzano | Papel e celulose | 17/03/2036 | IPCA + 7,51%* | XP |
| NTN-B Tesouro IPCA+ 2032 | Título público | 15/08/2032 | IPCA + 7,65%* | XP | |
| NTN-B Principal Tesouro IPCA+ 2035 | Título público | 15/05/2035 | IPCA + 7,45%* | XP | |
| CGOSA2 | Equatorial Goiás | Energia elétrica | 15/01/2038 | Não divulgada | BTG Pactual |
| RALM11 | Rialma | Energia elétrica | 15/12/2048 | Não divulgada | BTG Pactual |
| PLSB1A | Autopista Litoral Sul | Concessão rodoviária | 15/10/2031 | Não divulgada | BTG Pactual |
| MGPRA0 | MetrôRio | Concessão metroviária | 15/03/2042 | Não divulgada | BTG Pactual |
| CRA0250080X | Eldorado | Papel e celulose | 17/09/2035 | Não divulgada | BTG Pactual |
| CRA0250080Y | Eldorado | Papel e celulose | 17/09/2040 | Não divulgada | BTG Pactual |
| 23L1737622 | Rede D’Or | Saúde | 15/12/2033 | Não divulgada | Itaú BBA |
| 24J2539865 | JHSF | Imobiliário | 16/10/2034 | Não divulgada | Itaú BBA |
*Taxas indicativas da XP referentes a 3 de agosto de 2026, sujeitas a variação ao longo do mês. As demais casas não divulgaram taxas nos materiais consultados.

Pontos de Atenção para o Investidor
É fundamental que os investidores estejam cientes dos riscos associados aos papéis de crédito privado, como debêntures, CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Esses instrumentos não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e estão sujeitos a riscos de crédito, de mercado e de liquidez.
A XP Investimentos recomenda limitar a exposição a 5% em um único emissor e a 20% em crédito privado no total da carteira. O BB Investimentos, por sua vez, esclarece que sua seleção não constitui uma carteira sugerida, mas sim opções independentes, e que a retirada de um papel da lista não implica em recomendação de venda. A diversificação e a análise cuidadosa de cada ativo são essenciais para mitigar riscos e buscar retornos consistentes.
Leitura da LZ7 Energia
A forte presença de empresas do setor de energia elétrica nas recomendações de investimento em títulos de inflação, como Celpe (Neoenergia), Equatorial Goiás, Engie, Energisa, CPFL e Rialma, reflete a percepção de solidez e previsibilidade do segmento. Para a região do Norte Pioneiro do Paraná, onde a LZ7 Energia atua, esse cenário é relevante. Investimentos em infraestrutura de energia, seja em geração, transmissão ou distribuição, contribuem para a segurança energética e para o desenvolvimento econômico local. A busca por retornos atrativos em papéis de empresas do setor pode indicar um fluxo de capital que, indiretamente, fortalece a capacidade de investimento e expansão dessas companhias, beneficiando a modernização e a eficiência da matriz energética, inclusive com a crescente participação da energia solar. A estabilidade e a capacidade de indexar os rendimentos à inflação tornam esses ativos atraentes em um ambiente econômico que busca proteger o poder de compra e garantir o financiamento de projetos de longo prazo, essenciais para a infraestrutura energética.
Fonte: InfoMoney — Economia — matéria original publicada em infomoney.com.br. Imagens e vídeos: InfoMoney — Economia. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
