São José da Boa Vista, no Norte Pioneiro do Paraná, guarda uma história que transcende em muito a fundação de seus primeiros povoados. Longe de começar com a chegada dos colonizadores no século XIX, a região dos rios Itararé e Pescaria foi palco de uma longa e complexa ocupação por diversas populações indígenas, cujos vestígios arqueológicos continuam a reescrever o passado local. Um dos capítulos mais marcantes dessa narrativa é a descoberta, em 1973, de urnas funerárias indígenas que, inicialmente confundidas com um caso criminal, se tornaram um marco para a arqueologia paranaense.

Uma história anterior à colonização

As pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná (CEPA/UFPR), com destaque para os trabalhos do arqueólogo Igor Chmyz, revelam que o Vale do Itararé foi habitado por diferentes tradições arqueológicas. Entre elas, destacam-se os conjuntos pré-ceramistas e ceramistas, incluindo as tradições Umbu, Humaitá, Itararé-Taquara e Tupiguarani. É fundamental esclarecer que essas classificações são categorias arqueológicas baseadas em vestígios materiais e não devem ser diretamente associadas a nomes de povos indígenas atuais.

Um extenso levantamento arqueológico, realizado na área da Linha de Transmissão Ivaiporã–Itaberá III, confirmou a antiguidade da ocupação humana no Vale do Itararé, com datações que remontam a milhares de anos antes do presente. Embora essas datas se refiram ao conjunto regional, elas sublinham a profundidade temporal da presença humana na área. A arqueologia regional também aponta para a presença de grupos associados à tradição Itararé-Taquara, geralmente ligada aos Jê meridionais, e à tradição Tupiguarani. Estudos de Lúcio Tadeu Mota, por exemplo, enfatizam a importância das cabeceiras do rio Itararé para compreender a circulação dos Jê meridionais entre Paraná e São Paulo. Assim, a paisagem de São José da Boa Vista e arredores é vista como uma área de ocupação humana de longa duração, moldada por diferentes grupos e momentos históricos.

Da fundação colonial à transferência da sede

Séculos após essas antigas ocupações indígenas, o processo de colonização deu origem aos núcleos históricos. A história oficial de São José da Boa Vista registra que, por volta de 1848, o mineiro Domiciano Corrêa Machado, sua esposa Ana Cândida de Farias Machado, filhos e acompanhantes chegaram à região. Devoto de São José, Domiciano teria doado terras na confluência dos rios Pescaria e Itararé para a formação de uma povoação chamada São José do Cristianismo. Em 1870, pela Lei Provincial nº 245, foi criado o Distrito Judiciário de São José do Cristianismo, que em 1872 contava com 3.572 habitantes, conforme o primeiro recenseamento geral do Império.

Contudo, a povoação enfrentou problemas com a malária. Diante disso, o fazendeiro Manoel Bernardino da Silva doou uma área às margens do rio Pescaria, aproximadamente duas léguas acima do antigo povoado, para a formação de uma nova localidade: São José da Boa Vista. A nova povoação prosperou, atraindo moradores de São José do Cristianismo. Em 29 de março de 1875, pela Lei Provincial nº 421, a sede do Distrito Judiciário foi transferida para São José da Boa Vista. No ano seguinte, em 24 de março de 1876, a Lei Provincial nº 448 elevou o distrito à categoria de município. Posteriormente, São José da Boa Vista tornou-se comarca e, pela Lei Estadual nº 246, de 14 de dezembro de 1897, foi elevada à categoria de cidade. É crucial entender que São José do Cristianismo e São José da Boa Vista não foram o mesmo núcleo desde o início, mas sim um antigo povoado que teve sua sede transferida para uma nova localidade.

O achado das urnas do Vitorino e o papel de Joaquim Gil

No século XX, a região tornou-se foco de pesquisas arqueológicas sistemáticas. Um trabalho pioneiro, “Notas sobre a arqueologia do Vale do Rio Itararé”, publicado em 1968 por Igor Chmyz, Celso Perota, Helena Isabel Müller e Maria Lúcia Fleury da Rocha, do CEPA/UFPR, inseriu o Vale do Itararé no mapa arqueológico do Paraná.

Foi nesse contexto que, em 1973, ocorreu um dos episódios mais importantes para o patrimônio arqueológico de São José da Boa Vista. Agricultores que trabalhavam em uma área rural do município encontraram duas urnas cerâmicas indígenas durante o arado. As peças foram atingidas, e uma delas continha restos ósseos humanos. A descoberta teve um desdobramento inusitado: devido à presença de ossos humanos, o objeto foi levado à delegacia de Wenceslau Braz, cidade vizinha, onde um inquérito foi instaurado sob suspeita de crime. A presença da urna na delegacia gerou preocupação entre os presos, que, segundo relato reproduzido por Igor Chmyz e publicado pela Folha de Londrina, chegaram a exigir que a urna permanecesse do lado de fora.

Urnas funerárias revelam história milenar em São José da Boa Vista
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Nesse momento, a figura de Joaquim Gil, professor e historiador de Wenceslau Braz, foi fundamental. Gil reconheceu a natureza arqueológica dos vestígios, e seus esclarecimentos levaram ao encerramento do inquérito. Sua importância reside em ter reconhecido o caráter arqueológico do material, contribuindo para sua preservação e encaminhamento para investigação especializada, antes mesmo da pesquisa formal. A Folha de Londrina, ao recuperar a história em 2025, atribuiu esse relato ao arqueólogo Igor Chmyz.

O Sítio Vitorino 3 e o contexto funerário

O material encontrado passou a ser relacionado às pesquisas de Igor Chmyz, um dos principais nomes da arqueologia paranaense. Em sua publicação de 2002, “A tradição Tupiguarani no litoral do estado do Paraná”, Chmyz registrou o sítio PR-SE-3: Vitorino-3, pesquisado em 1973, em São José da Boa Vista. A documentação acadêmica posterior identifica o Vitorino 3 como um sítio arqueológico associado à Tradição Tupiguarani, indicando a presença de estruturas de habitação em terra preta. Isso é relevante, pois as urnas não eram objetos isolados, mas parte de um contexto de ocupação habitacional.

A pesquisa arqueológica identificou as urnas como parte de um contexto funerário. As duas formas de recipientes identificadas por Chmyz eram do PR-SE-3 – Vitorino 3. Pela dimensão da urna, o sepultamento foi interpretado como secundário, e os restos humanos pertenciam a um indivíduo adulto de idade avançada, com elementos como crânio, mandíbula, vértebras e tíbias, além de alterações ósseas na mandíbula. Ao lado da urna maior, havia um pequeno recipiente cerâmico com decoração canelada. Esses elementos conferem ao achado um valor arqueológico muito superior ao de uma peça cerâmica isolada.

Urnas funerárias revelam história milenar em São José da Boa Vista
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Pesquisas e levantamentos posteriores demonstraram que o nome Vitorino está associado a mais de um sítio arqueológico no município, incluindo Vitorino 2, Vitorino 3 e Vitorino 4, com registros de sítios cerâmicos e líticos da Tradição Tupiguarani. Vitorino 3 e Vitorino 4 também aparecem relacionados a contextos de enterramento. É importante ressalvar que a documentação não permite afirmar com segurança que o Vitorino 4 corresponde às urnas fotografadas ou que possui as mesmas peças do achado de 1973. Há também diferenças de numeração em registros posteriores do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (PR-SE-4 para Vitorino 2, PR-SE-5 para Vitorino 3 e PR-SE-6 para Vitorino 4), que devem ser tratadas como questões documentais a serem esclarecidas.

O legado das urnas do Vitorino

Entre o final da década de 1990 e os anos 2000, novas pesquisas, como o projeto da Linha de Transmissão de 750 kV Ivaiporã–Itaberá III, ampliaram o conhecimento sobre a região. Trabalhos que envolveram pesquisadores como Igor Chmyz, Eliane Maria Sganzerla, Jonas Elias Volcov, Eloi Bora e Roseli S. Ceccon identificaram inúmeros vestígios arqueológicos e reforçaram a importância do Vale do Itararé como área de ocupação humana de longa duração, com diferentes tradições como Umbu, Itararé, Casa de Pedra e Tupiguarani.

As urnas do Vitorino são um testemunho material de práticas funerárias indígenas. Seu valor arqueológico reside na associação entre o recipiente, os restos humanos, os objetos associados e o contexto do sítio. Essa preservação permite aos pesquisadores estudar a vida e a morte de populações sem registros escritos. Uma urna funerária indígena não é apenas uma peça antiga; é parte de um contexto cultural e funerário complexo.

Segundo a Folha de Londrina, os fragmentos cerâmicos e a ossada foram levados a Curitiba e integraram o acervo do Museu Paranaense. Atualmente, o material está preservado no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR), em Paranaguá. Essa trajetória demonstra como um achado acidental em uma lavoura de São José da Boa Vista foi incorporado ao patrimônio arqueológico institucional do Paraná.

As fotografias do episódio, creditadas ao “Acervo da família Gil/Trick Fotos Antigas de W. Braz” na reportagem da Folha de Londrina de 17 de junho de 2025, também possuem grande importância histórica. Elas preservam a memória visual de um momento crucial para a arqueologia do Norte Pioneiro.

Importância para o Norte Pioneiro

A história das urnas do Vitorino é vital não só para São José da Boa Vista, mas para todo o Norte Pioneiro. Ela revela a profundidade histórica do patrimônio arqueológico da região, com registros de ocupações humanas muito anteriores à formação dos atuais municípios. As pesquisas arqueológicas continuam a desvendar diferentes tradições e momentos de ocupação, mostrando que, sob as cidades e lavouras, jazem vestígios de uma história muito mais antiga.

O episódio de 1973, que transformou uma possível ocorrência criminal em uma revelação arqueológica de grande importância, destaca a atuação de Joaquim Gil e o trabalho de Igor Chmyz e outros pesquisadores do CEPA/UFPR, que foram fundamentais para o estudo e preservação desse material. Mais de cinquenta anos depois, as urnas permanecem como testemunhos materiais de uma história indígena que antecede em muito a formação colonial, lembrando que a história do Norte Pioneiro não começa com as fazendas ou cidades, mas com os povos que ocuparam, percorreram e deram significado a essa paisagem.

Leitura da LZ7 Energia

A revelação da profunda história arqueológica do Norte Pioneiro, como a descoberta das urnas funerárias em São José da Boa Vista, ressalta a importância de compreendermos o passado para construir um futuro sustentável. Assim como a energia solar da LZ7 Energia busca aproveitar recursos naturais de forma inovadora e consciente, a arqueologia nos ensina a valorizar e preservar os legados de milênios. O desenvolvimento regional, impulsionado por novas tecnologias e investimentos em infraestrutura, deve sempre considerar e proteger o patrimônio histórico e cultural que define a identidade da nossa terra. A energia solar, ao oferecer uma alternativa limpa e renovável, contribui para um progresso que respeita o meio ambiente e, por extensão, a história inscrita na paisagem que nos cerca.

Fonte: NP Diário — Norte Pioneiro — matéria original publicada em npdiario.com. Imagens e vídeos: NP Diário — Norte Pioneiro. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.