Os preços do açúcar bruto registraram em agosto o seu desempenho mensal mais robusto desde outubro de 2010, com um aumento notável de 21,5%. Essa valorização coloca o adoçante à frente do índice S&P 500 no acumulado do ano, com uma alta de cerca de 20% em 2026, em comparação com o avanço de quase 13% do índice de mercado mais amplo. A escalada dos preços é atribuída a uma combinação de fatores climáticos, econômicos e decisões políticas que impactam diretamente a oferta global.

Disparada de Preços e Fatores Impulsionadores

O índice de preços de alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) também registrou alta em agosto, com o açúcar liderando os aumentos generalizados. A FAO, em seu relatório recente, detalhou os motivos por trás dessa disparada:

“A alta refletiu as expectativas de menores rendimentos da beterraba sacarina na União Europeia devido ao clima adverso, preocupações sobre o impacto do El Niño nas perspectivas de produção nos principais países produtores da Ásia, menor produção de açúcar no Brasil e o anúncio da Índia de importações de açúcar bruto com isenção de impostos.”

William Osnato, diretor de pesquisa e análise de dados de commodities da Barchart, destacou que a mudança nas expectativas sobre a oferta global é um fator crucial. Ele apontou que os danos à safra de beterraba sacarina na Europa, causados pela onda de calor durante o verão, foram um dos impactos mais imediatos, levando diversas organizações a reduzirem suas estimativas de produção.

A Comissão Europeia, por exemplo, estima uma queda de 19% na produção da União Europeia, atingindo 13,4 milhões de toneladas métricas no ano comercial de 2026/27, em comparação com 16,6 milhões de toneladas em 2025/26. Projeções de déficit global também foram revisadas para cima: o Citi previu um déficit de 1,3 milhão de toneladas métricas, enquanto a Green Pool Commodity Specialists estimou 3,2 milhões de toneladas métricas.

“O que geralmente é consistente é que todos estão indo na mesma direção. Todos estão aumentando o déficit.”
— William Osnato, Barchart

Analistas do Citi classificaram o açúcar como um mercado de “maior convicção altista” entre as commodities agrícolas negociadas na Intercontinental Exchange, elevando seu preço-alvo para 19 centavos de dólar por libra-peso nos próximos três meses, citando estoques apertados, o programa de importação inesperado da Índia e a deterioração do clima em países como Índia, Tailândia e União Europeia.

El Niño e Seus Impactos na Produção Global

O El Niño, um padrão climático global que pode trazer temperaturas oceânicas mais quentes e condições climáticas severas, é considerado a “maior preocupação prospectiva”, segundo Osnato. Um El Niño potencialmente extremo intensifica a pressão sobre os preços do açúcar.

Brasil, Índia e Tailândia, juntos, respondem por aproximadamente 70% das exportações globais de açúcar. O Goldman Sachs alertou que a seca durante a estação de crescimento pode reduzir o rendimento da cana, enquanto chuvas excessivas na colheita podem interromper o trabalho de campo e diminuir o teor de açúcar na cana.

A previsão mediana de múltiplos modelos do The Climate Brink indica que a anomalia de temperatura para a região Niño 3.4 no Oceano Pacífico pode atingir um pico próximo a 3,9 graus Celsius em novembro. Esse valor está bem acima do limiar de 2 graus Celsius para um El Niño muito forte.

A Índia tem enfrentado chuvas abaixo do normal em suas principais regiões produtoras de açúcar. Um período de monções fraco pode esgotar os reservatórios, desestimulando muitos agricultores a plantar cana-de-açúcar, que demanda muita água, na próxima temporada. Além disso, temperaturas incomumente quentes no Oceano Pacífico devem trazer chuvas irregulares e escassez de água na Tailândia.

A Mudança para Etanol no Brasil e Importações Indianas

Os preços elevados da energia estão tornando o etanol mais atrativo em relação ao açúcar no Brasil, onde as usinas podem alternar a destinação da cana-de-açúcar entre os dois produtos. O Brasil, sozinho, responde por cerca de metade das exportações mundiais de açúcar.

“Quando o preço do petróleo aumenta, os países que produzem etanol a partir do açúcar têm um incentivo maior para produzir mais etanol e exportar menos açúcar para o mercado global. Com os preços do petróleo acima de 90 dólares o barril, países como o Brasil, que subsidia fortemente sua indústria de etanol, estão produzindo mais biocombustível, diminuindo a quantidade de açúcar disponível no mercado e exercendo pressão altista sobre os preços.”
— Rob Johansson, diretor de economia e análise de políticas da American Sugar Alliance

A análise do Goldman Sachs sugere que, como o milho é uma matéria-prima importante para a produção de etanol, juntamente com a cana-de-açúcar, uma safra de milho mais fraca devido às secas relacionadas ao El Niño pode desviar ainda mais cana-de-açúcar para a produção de etanol, deixando menos açúcar disponível para exportação. As chuvas também atrasaram a colheita no Brasil, embora uma recuperação seja possível se os campos secarem, o que representa um risco de queda para os preços.

A Índia, o segundo maior produtor de açúcar do mundo, atrás do Brasil, autorizou recentemente a importação de 1 milhão de toneladas métricas de açúcar bruto com isenção de impostos. O governo indiano afirmou que a decisão visa reforçar a disponibilidade doméstica em meio à menor produção, demanda sazonal e aumento dos preços. Esta é a primeira autorização de importação da Índia desde a temporada de 2017-2018, após duas safras decepcionantes. Mesmo que a Índia importe apenas metade do volume autorizado, a medida reforça a percepção de que a oferta está mais apertada do que o estimado anteriormente.

“O Brasil continua sendo o principal fornecedor de equilíbrio do mercado, mas os riscos de execução relacionados ao clima durante o restante da colheita deixam pouca margem para erro.”
— Arkady Gevorkyan, Citi

O que isso significa para a região

Para o Norte Pioneiro do Paraná, uma região com forte vocação agrícola, a valorização do açúcar no mercado global pode ter impactos mistos. Produtores de cana-de-açúcar podem se beneficiar de preços mais altos, o que poderia incentivar a expansão da cultura ou a otimização da produção. No entanto, o aumento dos custos de produção, impulsionado por fatores como o preço do petróleo (que afeta combustíveis e fertilizantes), pode mitigar parte desses ganhos. Além disso, a dinâmica entre a produção de açúcar e etanol no Brasil é crucial; se as usinas locais optarem por priorizar o etanol devido à sua maior rentabilidade, isso pode afetar a oferta de açúcar no mercado interno e, consequentemente, os preços para os consumidores. A volatilidade climática, como o El Niño, também representa um risco para a produtividade da cana na região, que, embora não seja um grande exportador de açúcar, está inserida no contexto da produção agrícola nacional e global.

Leitura da LZ7 Energia

A relação entre a produção de açúcar e etanol no Brasil é um exemplo claro de como os preços das commodities e as políticas energéticas se entrelaçam. A decisão das usinas de priorizar o etanol quando o preço do petróleo está alto demonstra a flexibilidade do setor de bioenergia. Para a LZ7 Energia, isso ressalta a importância de fontes de energia renováveis e diversificadas. A cana-de-açúcar, como matéria-prima para o etanol, oferece uma alternativa aos combustíveis fósseis, contribuindo para a segurança energética e a redução da pegada de carbono. A instabilidade nos mercados de commodities, influenciada por fatores climáticos como o El Niño, reforça a necessidade de sistemas energéticos resilientes e que possam se adaptar a cenários de oferta e demanda variáveis. Investir em energia solar, por exemplo, oferece uma fonte de energia limpa e previsível, que pode complementar a matriz energética e reduzir a dependência de combustíveis sujeitos a flutuações de preço e produção global.

Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.