A discussão sobre a indexação dos ganhos de capital à inflação, uma medida que ajustaria a base de custo de um ativo para que os impostos sobre ganhos de capital incidissem apenas sobre a valorização real, e não sobre o aumento de valor devido à inflação, ressurgiu no cenário político norte-americano. Embora a ideia seja vista como um alívio potencial para investidores individuais, sua aplicação prática pode gerar uma série de desafios e dores de cabeça.
A proposta, que ganhou destaque em um artigo de opinião do Wall Street Journal em agosto, é apresentada como um 'grande alívio para os contribuintes da classe média'. No entanto, especialistas alertam para as complexidades envolvidas. Cary Sinnett, planejador financeiro certificado e diretor de planejamento financeiro pessoal no American Institute of Certified Public Accountants (Instituto Americano de Contadores Públicos Certificados), explica a premissa.
“A indexação dos ganhos de capital ajustaria sua base pela inflação para que o imposto fosse imposto mais de perto sobre o ganho econômico real.”
Sinnett ilustra com um exemplo: se um investidor compra uma ação por US$ 100 há um ano e hoje ela vale US$ 102, com uma taxa de inflação anual de 2%, sob o tratamento atual dos ganhos de capital, o investidor seria tributado sobre o aumento de US$ 2, mesmo que grande parte desse valor seja atribuída à inflação. Atualmente, a alíquota máxima de longo prazo para ganhos de capital é de 20%, somada a um imposto de 3,8% sobre a renda líquida de investimentos para famílias com renda bruta ajustada modificada acima de US$ 200.000 para declarantes solteiros e US$ 250.000 para casais que declaram em conjunto. Ganhos de capital de curto prazo são tributados na mesma alíquota da renda ordinária, que pode chegar a 37%.
“A ideia por trás desta legislação potencial é ajustar para essa taxa de inflação. Parece simples na superfície, mas há algumas complexidades substanciais.”
Incentivo ao Investimento de Longo Prazo
Investidores de longo prazo seriam os mais impactados por uma mudança no tratamento fiscal dos ganhos de capital, segundo Sinnett. Ele exemplifica: se um investidor compra uma ação de alto crescimento e ela valoriza 20% em um ano e um dia (caracterizando ganho de capital de longo prazo), ao vendê-la, a valorização seria tributada, mas o ajuste pela inflação poderia ser pequeno devido ao curto período. Por outro lado, se o investidor mantivesse a ação por 10 anos, esse seria um tempo suficiente para a inflação se acumular, resultando em um ajuste significativo nos ganhos de capital.
“É ótimo para o investidor de longo prazo. Você provavelmente verá um incentivo cultural para manter [os investimentos] e obter esse aumento pela inflação.”
A indexação dos ganhos à inflação também poderia encorajar os investidores a realocar capital e reequilibrar suas carteiras, especialmente aqueles com valorizações significativas. Sinnett observa que, atualmente, há uma tendência de manter investimentos com grandes ganhos de capital embutidos, pois os investidores muitas vezes evitam vender ativos muito valorizados devido às consequências fiscais. A análise da Tax Foundation (Fundação Tributária) indica que, em média, em 2036, os contribuintes veriam um aumento de 0,4% na renda pós-impostos, com os do quintil superior observando um aumento de 0,6%, enquanto os do quintil inferior teriam um aumento de menos de 0,05%.

Desafios e Complexidades na Aplicação
Embora aplicar um ajuste de inflação a um único ativo possa parecer simples, a implementação dessa medida em uma ampla gama de investimentos apresenta desafios consideráveis. Tim Steffen, CPA e diretor de planejamento avançado na Baird, destaca que, embora as corretoras provavelmente assumiriam a responsabilidade de calcular o ajuste de inflação para a maioria dos ativos, outros investimentos, como colecionáveis, imóveis ou empresas privadas, provavelmente seriam de responsabilidade do próprio contribuinte.
Outra questão complexa surge quando os investidores utilizam a estratégia de 'dollar-cost averaging' (preço médio), comprando ações em intervalos regulares, independentemente do preço. Sinnett aponta que a complexidade dessa estratégia dificulta o rastreamento da base de custo, sendo responsabilidade do investidor manter esse registro. Da mesma forma, o rastreamento da base para reinvestimentos de dividendos poderia se tornar mais complicado com esse ajuste adicional, conforme Steffen.
Há também a questão do que acontece quando um investidor considera vender uma ação que está em queda. Sinnett explica que, nesse cenário, o investidor poderia registrar uma perda maior do que teria anteriormente devido à inflação. Se um investidor aplica US$ 100.000 e a base ajustada pela inflação se torna US$ 130.000, mas o ativo é vendido por US$ 115.000, no sistema atual seria um ganho de US$ 15.000. No entanto, no novo sistema, isso poderia se converter em uma perda de US$ 15.000.

Perspectivas Políticas e Fiscais
Apesar do ressurgimento da ideia de ganhos ajustados pela inflação, Garrett Watson, vice-presidente de política fiscal federal na Tax Foundation, não acredita que ela ganhará força. Ele sugere que, para ser implementada corretamente, seria necessário um esforço mais abrangente, e que a melhor chance política para essa medida provavelmente foi no ano passado. Ele menciona que o pacote de mudanças fiscais do presidente Donald Trump, no 'One Big Beautiful Bill Act' do ano passado, elevou o limite das deduções de impostos estaduais e locais e adicionou novas isenções para impostos sobre gorjetas e horas extras.
Democratas em Washington estão céticos em relação ao ajuste dos ganhos de capital pela inflação devido ao custo de receita que isso implicaria. Qualquer proposta enfrentaria um desafio após as eleições de meio de mandato se houver controle compartilhado do Congresso, acrescenta Watson. Para o Congresso, o Tesouro e o Internal Revenue Service (Receita Federal dos EUA), a implementação dessa medida significaria uma perda crescente de receita ao deixar de tributar o que ele chama de 'renda fictícia crescente'.

Impacto para o Investidor e a Economia
A discussão sobre a indexação dos ganhos de capital à inflação é um exemplo claro de como as políticas fiscais podem influenciar diretamente o comportamento dos investidores e a dinâmica dos mercados. Embora a intenção seja tornar a tributação mais justa, refletindo apenas o ganho real, a complexidade de sua aplicação pode gerar incertezas e desafios operacionais. A decisão final sobre essa proposta terá implicações significativas para a arrecadação fiscal do governo e para a forma como os investidores planejam suas estratégias de longo prazo.

A taxa de rendimento do Tesouro de 10 anos atingiu 5%, o que levanta questões sobre como os investidores de renda podem lucrar. Michelle Fox aborda o tema em 'The 10-year Treasury yield just hit 5%. How income investors can profit'. Em outro artigo, 'The 10-year Treasury yield is approaching 5%. What it means for income-seeking investors', Michelle Fox explora o significado desse cenário para investidores em busca de renda. Além disso, Darla Mercado, CFP®, sugere em 'Dump these loser stocks this fall, Wolfe Research says. It could help cut next year's tax bill' que a venda de ações com baixo desempenho pode ajudar a reduzir a conta de impostos do próximo ano.
Leitura da LZ7 Energia
A discussão sobre a indexação dos ganhos de capital à inflação, embora ocorra em um contexto fiscal estrangeiro (EUA), ressoa com a realidade econômica de qualquer país que enfrenta inflação. No Brasil, onde a inflação tem sido uma preocupação constante, a desvalorização da moeda impacta diretamente o poder de compra e o retorno real dos investimentos. Para os consumidores e empresas do Norte Pioneiro do Paraná, a capacidade de investir e gerar riqueza é fundamental para a economia local. Se os ganhos de capital fossem ajustados pela inflação, isso poderia, em tese, incentivar investimentos de longo prazo, ao proteger o capital do investidor da corrosão inflacionária e garantir que a tributação incida sobre o lucro efetivo. Isso é particularmente relevante em setores como o de energia solar, onde investimentos iniciais são significativos e o retorno se dá a médio e longo prazo. Uma política fiscal que reconheça e compense os efeitos da inflação nos investimentos poderia estimular a adoção de tecnologias sustentáveis, como a energia solar, ao tornar esses projetos financeiramente mais atraentes e previsíveis para investidores e empresas da região. No entanto, as complexidades administrativas e a potencial perda de receita para o governo, como apontado no artigo, seriam desafios a serem considerados em qualquer discussão sobre a implementação de tal medida no contexto brasileiro.
Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
