Às vésperas do Dia da Amazônia, comemorado em 5 de setembro, a discussão sobre a floresta transcende a mera preservação, focando em como transformar sua vasta biodiversidade em produção, renda e negócios sem comprometer o ecossistema. Nesse cenário, a agricultura indígena e os Sistemas Agroflorestais (SAFs) emergem como alternativas cruciais, permitindo a geração de valor para as comunidades locais enquanto a floresta permanece de pé.
Essa abordagem já se materializa em cadeias produtivas consolidadas, como as do açaí, castanha, guaraná, pirarucu, camu-camu e pau-rosa. Tais produtos não apenas evidenciam um novo olhar sobre a economia amazônica, mas também ressaltam que o valor intrínseco não reside apenas na matéria-prima, mas na biodiversidade, no conhecimento tradicional e na capacidade de produzir de forma sustentável.
Modelos Sustentáveis Inspirados na Floresta
Sonia Sena Alfaia, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e laureada com o Prêmio Fundação Bunge 2026 por sua dedicação à agricultura familiar, destaca que a própria floresta oferece os princípios para o funcionamento desses modelos. Em entrevista, Alfaia explicou que os sistemas agrícolas indígenas baseiam-se em práticas tradicionais desenvolvidas a partir dos recursos disponíveis no território.
Esses modelos, que demandam pouca energia externa, incorporam conhecimentos milenares sobre o funcionamento dos ecossistemas amazônicos. A pesquisadora ressalta a importância de imitar a floresta na agricultura amazônica, aplicando os saberes dos povos que habitam a região há milênios. A combinação de diferentes espécies em uma mesma área, prática ancestral dos povos tradicionais, protege o solo, promove a ciclagem de nutrientes e alinha a produção agrícola à dinâmica florestal.
“A agricultura na Amazônia deve tentar imitar a floresta, colocando em prática os conhecimentos milenares dos povos que habitam a região”, explicou Sonia Sena Alfaia, pesquisadora do INPA.
Alfaia alerta que os solos amazônicos são naturalmente pobres e não suportam a agricultura intensiva, que tem sido introduzida na região. O conhecimento tradicional, portanto, é fundamental para o manejo adequado.

Conhecimento Tradicional e a Transformação do Solo
A relação entre os povos indígenas e a floresta vai além da escolha de espécies e métodos de cultivo. Segundo Sonia Alfaia, o manejo realizado ao longo de milhares de anos transformou as características do solo amazônico. Um exemplo notório é a Terra Preta de Índio (TPI), um tipo de solo enriquecido pela ação humana, que hoje é objeto de estudo científico para compreender como essas populações conseguiram aumentar a fertilidade de áreas naturalmente pobres em nutrientes.
Para a pesquisadora, esse conhecimento demonstra como práticas tradicionais podem construir modelos mais adaptados às condições da Amazônia. Essa lógica já impulsiona produtos com sucesso comercial, como açaí, castanha e guaraná, que têm na floresta e no saber das comunidades parte essencial de sua origem e valor.
No caso do guaraná, Alfaia destacou o papel do povo Sateré-Mawé, que domesticou a espécie, desenvolveu métodos próprios de beneficiamento e conseguiu levar o produto ao mercado europeu, onde a demanda pelo guaraná orgânico produzido pela comunidade tem crescido.

Valor Econômico da Conservação: O PSA
Com o avanço das técnicas de manejo sustentável, a remuneração pela conservação da floresta abre novas possibilidades para a produção. Lucia Wadt, pesquisadora da Embrapa, explicou que o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), instituído pela Lei nº 14.119/2021, funciona como um reconhecimento econômico para aqueles que contribuem para manter os benefícios oferecidos pela natureza.
Uma floresta conservada, segundo Wadt, armazena carbono, regula o clima e a água, conserva a biodiversidade e protege o solo. Na prática, isso agrega uma camada de valor ao que já é produzido pela floresta. A castanha, por exemplo, continua sendo comercializada como produto, mas pode receber um valor adicional quando sua origem está associada à conservação do território.
Um caso citado por Wadt é o da Terra Indígena Rio Branco, onde a castanha recebeu um adicional de 20% sobre o preço convencional, pago pela empresa Castanhas Ouro Verde à organização indígena. É importante notar que esse percentual não corresponde a uma mensuração científica dos serviços ambientais, mas sim a uma decisão comercial para remunerar a cooperativa acima do valor de mercado, considerando a origem do produto e sua contribuição para a conservação.
“A ciência consegue estimar diferentes parcelas do valor da floresta, mas não existe uma etiqueta de preço única para a biodiversidade. O PSA é também uma decisão econômica e social sobre quanto estamos dispostos a devolver a quem mantém esses benefícios para todos”, afirmou Lucia Wadt, pesquisadora da Embrapa.
Wadt ressalta que o preço convencional de produtos como a castanha geralmente contabiliza fatores como quantidade, qualidade, transporte, oferta e demanda, mas a conservação da floresta por trás do produto muitas vezes permanece fora dessa conta.

Transformar Conservação em Renda e Diversificação
A pesquisadora da Embrapa enfatiza que o PSA não deve substituir a atividade econômica dos produtores, mas sim complementar a renda gerada pelos produtos da floresta. Nesse modelo, a comunidade continua comercializando castanha, açaí, cacau, óleos, sementes e outros produtos, enquanto recebe um valor adicional pela manutenção da floresta.
Lúcia Wadt também destaca a importância de diversificar produtos e compradores para evitar que o PSA se torne uma nova dependência financeira. Para escalar essa iniciativa, é necessário ampliar o número de compradores dispostos a incorporar o valor ambiental em suas aquisições, estabelecer relações comerciais duradouras e criar mecanismos simples de rastreabilidade e monitoramento.
Ao mesmo tempo, é crucial fortalecer organizações comunitárias e cooperativas para que possam negociar melhores condições de comercialização. A pesquisadora ressalta que o PSA não deve financiar sozinho estruturas como beneficiamento, armazenamento, transporte, certificação e capital de giro. Esses pontos dependem de crédito, políticas públicas e programas de desenvolvimento capazes de fortalecer as cadeias da sociobiodiversidade.

Uma Floresta de Pé e com Valor
Enquanto os SAFs demonstram que a produção pode coexistir com a dinâmica da floresta, utilizando a diversidade de espécies e conhecimentos geracionais, o PSA cria a oportunidade de reconhecer economicamente parte do trabalho de conservação que ainda não se reflete no preço dos produtos. Para Wadt, o desafio reside em reduzir a diferença econômica entre conservar e transformar a floresta.
Estudos recentes comparando o uso da terra na Amazônia Legal indicam que terras indígenas apresentaram reduções de 48% a 83% no desmatamento em comparação com outras alternativas de uso da terra. Para Sonia Alfaia, a aproximação entre o conhecimento científico e as necessidades das comunidades tradicionais é essencial para o avanço social e econômico dos sistemas agroflorestais.
“Estamos trabalhando com eles para fortalecer essas cadeias, indo desde a produção até a sua comercialização”, disse Sonia Sena Alfaia.
Leitura da LZ7 Energia
O avanço da produção sustentável na Amazônia, com foco em sistemas agroflorestais e no Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), demonstra uma sinergia crucial entre a conservação ambiental e o desenvolvimento econômico. A valorização de práticas que demandam pouca energia externa e que, em muitos casos, podem até gerar créditos de carbono ou reduzir a pressão sobre recursos naturais, alinha-se diretamente aos princípios da eficiência energética e da sustentabilidade. Ao promover a floresta em pé como um ativo econômico, essas iniciativas contribuem para a redução do desmatamento e, consequentemente, para a mitigação das mudanças climáticas, impactando positivamente a matriz energética global e a demanda por energia em processos produtivos menos sustentáveis. A LZ7 Energia, ao promover a energia solar, compartilha da visão de que a inovação e a sustentabilidade são pilares para um futuro mais próspero e equilibrado, onde a geração de valor está intrinsecamente ligada ao respeito pelo meio ambiente e à valorização do conhecimento local.
Fonte: CNN Brasil — Nacional — matéria original publicada em cnnbrasil.com.br. Imagens e vídeos: CNN Brasil — Nacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
