GAZA — A Faixa de Gaza, devastada por anos de conflito e um bloqueio persistente, testemunha uma crise humanitária agravada pela crescente população de amputados. Desde o início da guerra em outubro de 2023, cerca de 6.000 pessoas foram submetidas a amputações, com aproximadamente um quarto desses casos envolvendo crianças, tornando o conflito a maior causa de amputações infantis na história moderna, segundo dados das Nações Unidas.
A situação é um reflexo das condições precárias do sistema de saúde da região, que sofre com a escassez de suprimentos médicos e a destruição de infraestruturas. Pacientes como Shurouq Khaira, uma ex-atleta de 24 anos, e Shireen Abu al-Qumsan, de 18, exemplificam a luta diária de milhares que tiveram suas vidas transformadas pela violência e agora enfrentam desafios monumentais para recuperar alguma autonomia e dignidade.
Vidas Transformadas pela Guerra
Shurouq Khaira, antes uma promissora atleta com um título nacional em 2016 e o sonho de representar a Palestina nas Olimpíadas, viu seu futuro desmoronar em 19 de novembro de 2023. Um ataque israelense à sua casa no bairro de Daraj, na Cidade de Gaza, a deixou com ferimentos tão graves que exigiram a amputação de sua perna direita abaixo do joelho. Seu pai, que a inspirou no atletismo, também teve ambas as pernas amputadas no mesmo incidente. A guerra, que se aproxima de seu terceiro aniversário, já ceifou mais de 73.400 vidas palestinas.
“Eu queria que o mundo inteiro soubesse que as pessoas em Gaza vivem, sonham, se esforçam e realizam”, disse Shurouq. “Eu sonhava em competir nas Olimpíadas.”
A rotina de Shurouq, agora, é uma batalha constante. Morando em uma tenda após a destruição de sua casa e a recusa de Israel em permitir a reconstrução adequada, as noites são particularmente difíceis sem iluminação, dificultando o uso de muletas e gerando medo de quedas. O deslocamento pelas ruas, muitas vezes cobertas de areia e escombros, exige que ela se mova em uma perna só. A esperança de uma prótese que facilitaria a caminhada ainda não se concretizou, e as sessões de fisioterapia são um desafio à parte, com o transporte escasso e caro, forçando-a a caminhar quilômetros e, por vezes, perder consultas.
“Vivo entre dor, medo, escuridão e sofrimento, mas meu coração permanece paciente”, desabafou Shurouq. “Essa dificuldade de movimento será permanente. Não importa qual prótese eu consiga, a sensação de perda permanecerá comigo. Isso me afeta profundamente. Às vezes, me sinto fraca e choro. Mas não há soluções, então tento me adaptar a essa realidade dolorosa.”
Shireen Abu al-Qumsan, de 18 anos, também teve sua vida drasticamente alterada. Em maio de 2025, um ataque israelense resultou na amputação de ambas as suas pernas. Ela aguarda próteses e tratamento no exterior, que dependem da aprovação israelense. Enquanto isso, utiliza uma cadeira de rodas manual, mas a destruição das ruas de Gaza torna a mobilidade extremamente difícil, exigindo a ajuda de um acompanhante sempre que precisa sair de casa. Seu irmão foi morto em um ataque separado em junho de 2024.

Escassez Crítica de Recursos e Materiais
A devastação do sistema de saúde em Gaza, resultado dos bombardeios indiscriminados de Israel, é um fator crucial para o alto número de amputações. Cirurgiões ortopédicos na região afirmam que muitos casos poderiam ter sido evitados se não fosse o colapso dos hospitais e a escassez de suprimentos cirúrgicos, antissépticos e anestésicos. A falta desses itens frequentemente força as equipes médicas a recorrer à amputação como a opção mais rápida para salvar vidas e prevenir gangrena.
Essa escassez é amplamente atribuída às restrições impostas por Israel à importação de bens para Gaza, mesmo após um cessar-fogo em outubro de 2025. As restrições se estendem a materiais vitais para a produção de próteses, como silicone, termoplásticos, gessos médicos e articulações mecânicas, que Israel classifica como “uso duplo” — ou seja, que podem ter fins militares e civis. Isso causa atrasos significativos para amputados como Shurouq.
Além da falta de materiais, há uma carência de protesistas, especialistas em adaptação e médicos reabilitadores. Os poucos especialistas que ainda atuam em Gaza tentam encontrar soluções alternativas, montando próteses e muletas improvisadas com canos de plástico, madeira e alumínio recuperados de edifícios destruídos.
Jamal Kallab, especialista em próteses e reabilitação em Gaza, explica que esses dispositivos improvisados não são substitutos adequados: “Esses dispositivos improvisados não são projetados de acordo com as necessidades específicas do corpo. Isso os torna incapazes de fornecer o suporte e o equilíbrio necessários, causando uma distribuição de peso desigual que sobrecarrega [outras partes do corpo].”
Kallab alerta que um encaixe mal-feito leva a “fricção e inchaço contínuos, seguidos por úlceras inflamatórias cirúrgicas graves que impedem o uso do membro por longos períodos”.

Desafios na Reabilitação e Saúde Mental
A enorme quantidade de amputados e a insuficiência de instalações resultam em atrasos no início dos programas de reabilitação. A fisioterapeuta Bissan Kloub explica que essa demora causa fraqueza e atrofia muscular ao redor do local da amputação, rigidez articular, redução da amplitude de movimento e inchaço da pele que impede a cicatrização da ferida. Kloub enfatiza que os atrasos na reabilitação prejudicam a caminhada e causam problemas como posturas articulares incorretas, “enfraquecendo o equilíbrio e afetando diretamente a eficiência futura do uso do membro protético”.
A reabilitação é crucial para o bem-estar do paciente, especialmente em Gaza, onde a falta de mobilidade pode ser extremamente restritiva. Os desafios são ainda maiores para jovens e crianças, pois a amputação afeta profundamente sua autoimagem e relacionamento com a sociedade, exigindo uma reabilitação física, psicológica e social abrangente.
“O desafio é mais profundo entre jovens e crianças porque a amputação toca sua autoimagem e seu relacionamento com a sociedade, exigindo uma reabilitação física, psicológica e social abrangente”, afirmou Kloub.
A dimensão psicológica do trauma é imensa. Shireen, por exemplo, teve um flashback da explosão que lhe tirou as pernas quando sua cadeira de rodas virou na rua. Shurouq vive em constante terror de novos ataques. “Vou dormir encolhida de puro pavor”, disse Shurouq. “Tenho medo constante de que outro projétil nos atinja e leve o resto da minha perna ou meu braço. A sensação de insegurança total me faz dormir abraçando meu corpo de tristeza e dor.”
Impacto Duradouro na População
A situação dos amputados em Gaza é um lembrete sombrio do custo humano prolongado do conflito e do bloqueio. A falta de acesso a cuidados médicos adequados, próteses e reabilitação não apenas impede a recuperação física, mas também agrava o sofrimento mental e social de milhares de pessoas. A incapacidade de realizar tarefas básicas, a dependência de outros e a constante ameaça de violência criam um ciclo de desespero e trauma.
A comunidade internacional e as organizações humanitárias enfrentam o desafio de fornecer ajuda essencial em um ambiente altamente restritivo. A permissão para a entrada de materiais de “uso duplo” e o apoio à infraestrutura de saúde são passos cruciais para aliviar o sofrimento e oferecer esperança a uma população que já perdeu muito.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
