O Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo, tem sido palco de uma escalada sem precedentes nos ataques a navios. Uma análise da BBC Verify, baseada em dados da Agência de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO), revelou que o número de embarcações que reportaram ataques na região atingiu um recorde histórico.
Entre os dias 5 e 11 de outubro, foram registrados 12 ataques a navios, marcando o maior número de incidentes semanais desde o início do conflito entre EUA-Israel e Irã. Na semana anterior, 10 navios haviam reportado ataques. Somente em um único dia, no domingo, seis embarcações foram atingidas, um pico diário. Até o momento, nesta semana, já foram reportados quatro novos ataques.
A intensificação desses incidentes coincide com uma desaceleração na recuperação das exportações de petróleo através do estreito, observada no mês passado, conforme indicam dados da indústria. A BBC Verify compilou relatórios de incidentes publicados pela UKMTO, criando uma linha do tempo baseada na primeira data citada em cada relatório. É importante notar que esta data pode se referir tanto ao dia do ataque quanto ao dia em que foi reportado.
Estratégia Iraniana e Impacto no Tráfego Marítimo
Especialistas apontam que o Irã tem intensificado os ataques a navios como uma forma de reafirmar seu controle sobre a via navegável. Essa estratégia surge em resposta ao aumento da presença militar dos EUA, que tem escoltado um número maior de navios-tanque pelo sul do estreito para evitar os ataques iranianos. Além disso, o Irã tem expandido suas operações, realizando ataques a embarcações em áreas mais distantes do Estreito de Ormuz.
Apesar da crescente tensão, o Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM), responsável pelas operações no Oriente Médio, afirmou em suas redes sociais que, mesmo com os ataques, o tráfego comercial continua fluindo pelo Estreito de Ormuz, com proteção coordenada das forças americanas e parceiros regionais.
“O tráfego comercial continua a fluir pelo Estreito de Ormuz com proteção coordenada das forças dos EUA e parceiros regionais.”
Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM)
Incidentes Recentes e Vítimas
A gravidade dos ataques foi evidenciada por incidentes recentes. Um dos seis ataques reportados no domingo resultou em um incêndio no navio-tanque Petro Dolphin, de bandeira da Nicarágua. Imagens verificadas, capturadas pela tripulação de uma embarcação menor próxima, mostraram o navio em chamas. Segundo a empresa de inteligência marítima Vanguard, o navio foi atingido por um drone perto do ancoradouro de Sohar, em Omã, a mais de 250 km do estreito.
Onze marinheiros indianos foram resgatados, mas dois ainda estão desaparecidos, conforme informou o Sindicato dos Marinheiros Avante da Índia. Os ataques continuaram nesta semana, com o navio porta-contêineres GFS Pride afundando na terça-feira, após ser atingido por um projétil não identificado dentro do estreito. Vinte e um tripulantes foram evacuados em segurança. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) divulgou imagens que pareciam ser do mesmo navio afundando, alegando que a embarcação transportava “2.500 contêineres de contrabando” e seguia uma “rota não autorizada”.

Fluxo de Petróleo e Novas Táticas
A intensificação dos ataques tem impactado diretamente as exportações de petróleo do Oriente Médio. Em 13 de outubro, cerca de 12,6 milhões de barris por dia transitaram pelo estreito, um volume inferior aos 15 milhões reportados no final de setembro, de acordo com dados da empresa de inteligência comercial Kpler. Esse número contrasta com a linha de base pré-guerra, que era de aproximadamente 17 milhões de barris por dia.
O aumento recente nos ataques ocorre em um momento em que dados da Marinha dos EUA indicam que o número de navios que receberam assistência para navegar pelo Estreito de Ormuz nos primeiros 10 dias de outubro aumentou 85% em comparação com o mesmo período de agosto. Grande parte do petróleo exportado pelos estados árabes do Golfo tem sido transportada por um sistema de “transbordo”, onde uma frota de navios-tanque menores carrega e navega pelo estreito antes de transferir sua carga para navios-tanque maiores no Golfo de Omã. Essas embarcações menores utilizam uma rota próxima à costa de Omã. O Irã considera essa rota “não autorizada” e insiste que os navios utilizem uma rota alternativa mais próxima à sua própria costa.
Os chamados trânsitos assistidos foram um fator chave para ajudar a impulsionar os fluxos de petróleo do Oriente Médio de volta aos níveis pré-guerra em setembro. No entanto, isso não inclui as exportações iranianas, que foram completamente paralisadas devido ao bloqueio dos portos e navios iranianos pelos EUA.

Estratégia Ampliada do Irã
Martin Kelly, CEO da Orbital Risk Intelligence, afirmou que o Irã “evoluiu sua estratégia” em resposta ao afrouxamento de seu controle sobre o estreito, realizando “quase diária ou múltiplas ataques todos os dias”.
“O objetivo aqui é impedir que os navios passem e dissuadir outros.”
Martin Kelly, CEO da Orbital Risk Intelligence
A Marinha do IRGC declarou que os ataques não seriam “limitados ao Estreito de Ormuz” e, posteriormente, anunciou uma “nova formação de implantação” em toda a região, segundo a mídia estatal. Kelly também informou à BBC Verify que o Irã está ampliando seus ataques, visando navios perto da costa dos estados árabes do Golfo e no Golfo de Omã.

Um navio-tanque foi atingido por múltiplos projéteis ao norte do Catar em 8 de outubro, a mais de 500 km do estreito, resultando em várias vítimas, conforme a Vanguard. Outro navio-tanque foi atacado perto da cidade de Al-Jazirah al-Hamra, nos Emirados Árabes Unidos, em 9 de outubro. Imagens verificadas mostram membros da tripulação correndo pelo convés e colocando coletes salva-vidas enquanto uma grande nuvem de fumaça preta se eleva sobre o navio.

O que isso significa para a região
A escalada de ataques no Estreito de Ormuz representa um risco significativo para a estabilidade do comércio global de energia e para a economia como um todo. A interrupção ou a ameaça de interrupção do fluxo de petróleo por essa rota vital pode levar a flutuações nos preços internacionais do petróleo, impactando diretamente os custos de combustível e energia em todo o mundo, incluindo o Brasil. A incerteza gerada por esses incidentes pode também aumentar os custos de seguro para as embarcações, elevando os preços dos produtos transportados. Para a região do Norte Pioneiro do Paraná, que depende da estabilidade econômica para seu desenvolvimento, qualquer impacto nos mercados globais de energia pode ter repercussões indiretas, afetando desde o custo de transporte de mercadorias até o poder de compra dos consumidores.

Leitura da LZ7 Energia
A intensificação dos ataques a navios no Estreito de Ormuz, uma rota crucial para o transporte de petróleo, sublinha a volatilidade geopolítica e seus impactos diretos no mercado global de energia. Para o consumidor brasileiro, e em particular para a região do Norte Pioneiro do Paraná, essa instabilidade pode se traduzir em aumento nos preços dos combustíveis e da energia elétrica, já que o custo do petróleo influencia a matriz energética e os custos de transporte. Em um cenário de incertezas, a busca por fontes de energia mais autônomas e sustentáveis, como a energia solar, ganha ainda mais relevância. A energia solar, gerada localmente, oferece uma barreira contra as flutuações de preços causadas por conflitos internacionais, promovendo maior segurança energética e economia a longo prazo para residências e empresas na nossa região.
Fonte: BBC News — World (internacional) — matéria original publicada em bbc.com. Imagens e vídeos: BBC News — World (internacional). Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
