Vinte e cinco anos após os trágicos ataques de 11 de setembro de 2001, a Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos desclassificou um extenso conjunto de documentos que detalham o conhecimento da inteligência americana sobre Osama bin Laden e a rede al-Qaeda nos anos que antecederam o evento. A divulgação, que inclui resumos diários presidenciais (PDBs) – relatórios de inteligência altamente confidenciais preparados para o presidente e altos funcionários – foi descrita pelo diretor da CIA, John Ratcliffe, como um "ato de transparência excepcional", sendo a maior liberação de PDBs já realizada pela agência.

Os 71 documentos, totalizando 101 páginas, abrangem o período de fevereiro de 1998 a 12 de setembro de 2001, o dia seguinte aos ataques que mataram quase 3.000 pessoas em Nova York e Washington, D.C. Eles revelam como a CIA monitorava os movimentos de bin Laden, seu financiamento e suas redes tanto nos EUA quanto no exterior. Embora os arquivos adicionem poucas informações novas sobre o planejamento dos ataques em si, eles fornecem um registro detalhado de avisos que se acumulavam ao longo do tempo, destacando a percepção da ameaça por parte da inteligência americana.

O Conteúdo dos Documentos Desclassificados

A série de 71 resumos diários presidenciais agora públicos oferece uma visão aprofundada das informações de inteligência que chegavam à Casa Branca. O primeiro documento, datado de 13 de fevereiro de 1998, é intitulado "Terroristas buscando capacidade de Armas de Destruição em Massa" (WMD, na sigla em inglês). O último, de 12 de setembro de 2001, é um "Relatório de Situação: Rastros de Bin Laden".

Entre esses dois extremos, os briefings abordam uma gama de tópicos, incluindo a recusa do Talibã em entregar bin Laden, sua busca por armas químicas, biológicas e radiológicas, seus métodos de financiamento e repetidos avisos sobre sua intenção de atacar dentro dos Estados Unidos. Muitos trechos dos documentos foram editados (redigidos) para proteger fontes e métodos de inteligência.

O Que a Inteligência Sabia Antes dos Ataques

Os documentos demonstram que a inteligência dos EUA tinha um conhecimento considerável sobre a al-Qaeda e suas operações muito antes do 11 de setembro. Analistas monitoravam os movimentos de bin Laden, seu sistema de apoio, sua rede dentro e fora dos EUA e como suas operações eram financiadas. Alguns dos avisos eram notavelmente específicos.

Em setembro de 1998, três anos antes dos ataques, um analista escreveu que a "opção preferida" de bin Laden era "atacar os EUA em seu próprio solo em Washington". Os analistas também notaram seu interesse em armas não convencionais, como químicas, biológicas e radiológicas. Em junho de 1999, os relatórios incluíam informações de que operativos de bin Laden haviam realizado experimentos com explosivos para "aumentar sua produção de energia", como parte de uma busca por "bombas sujas" (radiológicas).

As dificuldades em conter bin Laden também foram compreendidas. Um briefing de abril de 1998 indicava que não havia evidências de que o Talibã pretendia entregá-lo, descrevendo-o como seu "convidado" e observando que a "gratidão por sua assistência durante a ocupação soviética" do Afeganistão (entre dezembro de 1979 e fevereiro de 1989) os deixava "relutantes em aliená-lo monitorando ou controlando suas atividades".

Flowers adorn a reflecting pool during a memorial.
Flowers adorn a reflecting pool during a memorial.

Avisos Sobre o Uso de Aeronaves

Uma das revelações mais impactantes é o conhecimento da inteligência sobre a possibilidade de aeronaves serem usadas em ataques. Já em 10 de setembro de 1998, um briefing intitulado "Localização e Intenções de Bin Laden" registrava sua preferência por atacar Washington e acrescentava que o grupo responsável pelos atentados às embaixadas dos EUA na África Oriental naquele verão "poderia voar um avião carregado de explosivos para uma cidade dos EUA". O FBI (Federal Bureau of Investigation) havia rapidamente determinado que esses ataques foram realizados pela al-Qaeda.

O mesmo memorando, no entanto, alertava que a inteligência não fornecia "informações conclusivas" sobre suas intenções para futuros ataques. Em dezembro do mesmo ano, outro briefing descrevia conspiradores que "haviam evadido verificações de segurança durante um recente teste em um aeroporto não identificado de Nova York" e observava que "alguns membros da rede de Bin Laden receberam treinamento de sequestro". Esse briefing, datado de 4 de dezembro de 1998, era intitulado "Bin Laden se preparando para sequestrar aeronaves dos EUA e outros ataques".

"A opção preferida [de Bin Laden] é atacar os EUA em seu próprio solo em Washington."
– Trecho de um briefing presidencial de setembro de 1998, conforme divulgado pela CIA.
CIA Revela Documentos Pré-11 de Setembro: Avisos Acumulados Sobre Bin Laden
Foto: Al Jazeera — Internacional

Frequência dos Alertas e Contexto

Os avisos não eram esporádicos; eles eram constantes. Em 1998, 1999 e 2000, houve vários relatórios, incluindo um intitulado "Terrorismo: Extremistas de Bin Laden planejando ataques". Em 2001, com a posse de George W. Bush, a frequência aumentou, e no verão, a linguagem tornou-se cada vez mais alarmante, com um briefing simplesmente intitulado: "Bin Laden Determinado a Atacar nos EUA".

É importante notar que alguns desses documentos já haviam sido tornados públicos anteriormente. O briefing de 6 de agosto de 2001, "Bin Laden Determinado a Atacar nos EUA", foi desclassificado em 2004 a pedido da Comissão do 11 de Setembro. As descobertas mais amplas também eram conhecidas, incluindo que a inteligência dos EUA havia rastreado as intenções de bin Laden por anos, que aeronaves figuravam nos relatórios e que nada disso identificava a hora, o local, o método ou os alvos do plano eventual. A Comissão do 11 de Setembro já havia estabelecido tudo isso há mais de duas décadas. A liberação atual adiciona os documentos subjacentes, nas palavras dos próprios analistas, em vez de um resumo da comissão.

Implicações e Conclusões

Apesar da riqueza de informações, a CIA enfatiza que a liberação dos documentos não prova que o governo dos EUA tinha conhecimento exato e preventivo dos ataques iminentes. Em vez disso, reforça a explicação de que as agências de inteligência possuíam muitas peças do quebra-cabeça, mas falharam em montá-las em um quadro claro a tempo. Não há evidências que apoiem teorias da conspiração sobre o envolvimento do governo ou que autoridades tivessem conhecimento prévio dos ataques.

A divulgação, portanto, serve como um registro histórico da complexidade da inteligência e dos desafios de prever e prevenir atos terroristas em larga escala, mesmo com um vasto volume de informações.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.