Figura central da política israelense há décadas, Benjamin Netanyahu chega às eleições gerais marcadas para 27 de outubro de 2026 acumulando o título de primeiro-ministro mais longevo da história do país. Conhecido entre seus partidários pela alcunha de "Rei Bibi", o líder do partido Likud também enfrenta fortes críticas de adversários, que o rotulam como o responsável por graves falhas de segurança nacional e escândalos de corrupção. Ao longo de cerca de 19 anos no poder, exercidos de forma intercalada, o governante capitaneou uma guinada contínua de Israel à direita, alterando o funcionamento de órgãos do Estado, tribunais e estruturas de defesa.

Ascensão política e a retórica contra acordos de paz

Nascido em 1949, Benjamin Netanyahu ganhou projeção nacional no início dos anos 1990 ao articular uma forte oposição pública às negociações de paz que Israel mantinha com representantes palestinos e com a Síria. Naquele período, líderes políticos do país acusaram o dirigente de promover incitações que culminaram no assassinato do então premiê Yitzhak Rabin, em 1995, morto por um extremista israelense ultranacionalista enquanto conduzia tratativas com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Durante atos e manifestações liderados por Netanyahu na época, participantes exibiram imagens de Rabin trajando uniformes da SS nazista e cartazes com o premiê sob a mira de uma arma, acompanhados por gritos de "traidor". Embora o líder do Likud negue qualquer responsabilidade pelo episódio, relatórios da imprensa israelense apontam que ex-oficiais de segurança chegaram a adverti-lo formalmente antes do atentado, pedindo moderação no discurso, pedido que foi recusado. A estratégia populista rendeu frutos nas urnas no ano seguinte: em 1996, Netanyahu foi eleito o primeiro-ministro mais jovem da história de Israel.

Como Benjamin Netanyahu transformou as instituições de Israel
Foto: Al Jazeera — Internacional

Alianças religiosas e a Lei do Estado-Nação

Ao longo de suas passagens pelo governo, o estilo pragmático de articulação política de Netanyahu elevou partidos religiosos e de extrema-direita a posições centrais, tornando essas legendas indispensáveis para a sustentação de sua coalizão. Sob sua administração, tribunais religiosos tiveram prerrogativas ampliadas, passando a intervir inclusive sobre litígios de natureza civil e disputas empresariais. Paralelamente, instituições estatais absorveram agendas do segmento confessional e destinaram repasses recordes de recursos públicos para escolas e entidades ultraortodoxas.

A visão ideológica do premiê também foi incorporada formalmente à legislação nacional. Em 2018, o Knesset — o parlamento de Israel — aprovou a chamada Lei Básica do Estado-Nação. O texto legal estabeleceu que Israel é o Estado exclusivo do povo judeu e transformou o avanço e desenvolvimento de assentamentos considerados ilegais pelo direito internacional em uma prioridade nacional. Entidades de direitos humanos locais chegaram a acionar a Suprema Corte na tentativa de impedir a entrada em vigor da legislação, mas o pedido acabou rejeitado. Organizações de defesa dos direitos humanos e analistas internacionais apontam esse dispositivo legal como elemento de uma política de apartheid contra a população palestina.

Como Benjamin Netanyahu transformou as instituições de Israel
Foto: Al Jazeera — Internacional

Disputas com a cúpula de segurança e reflexos de 2023

Outra frente de reestruturação conduzida por Netanyahu atingiu o setor de segurança e defesa. Ao longo dos mandatos, o premiê atuou para nomear aliados políticos e nomes de confiança para cargos de comando, acumulando divergências com chefes militares e de inteligência que manifestavam posicionamentos contrários às suas diretrizes governamentais.

Esse atrito atingiu novos patamares após os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que deram início à ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza. Diante das críticas sobre as falhas estratégicas que permitiram os ataques, Netanyahu procurou transferir a responsabilidade para a cúpula de segurança do país. A postura levou Ronen Bar, diretor da agência de segurança interna Shin Bet em 2023, a abrir um processo judicial por difamação contra o primeiro-ministro.

A ofensiva contra o Judiciário e casos de corrupção

A transformação das instituições israelenses ganhou especial intensidade no campo judiciário. Netanyahu responde a três processos criminais distintos por corrupção, abertos em 2019, nos quais nega irregularidades, mas que podem resultar em pena de prisão caso venha a ser condenado. Em paralelo ao andamento dessas ações, seu governo promoveu alterações na composição do Comitê de Seleção Judicial, garantindo maior peso e influência política da coalizão governista sobre a escolha de magistrados.

People protest against Prime Minister Benjamin Netanyahu’s proposed judicial reforms to reduce powers of the Supreme Court, in Tel Aviv, Israel on February 25, 2023
People protest against Prime Minister Benjamin Netanyahu’s proposed judicial reforms to reduce powers of the Supreme Court, in Tel Aviv, Israel on February 25, 2023

A medida, classificada por Netanyahu como uma reforma necessária para coibir o que chamou de "ditadura judicial" sobre representantes eleitos, foi duramente repelida pela oposição. Críticos definiram a iniciativa como um golpe institucional destinado a enfraquecer a autonomia da Suprema Corte e subordinar assessores jurídicos ministeriais ao poder político, deflagrando protestos maciços pelo país, a exemplo dos atos registrados em Tel Aviv no início de 2023.

As investidas contra os mecanismos de controle institucional também envolveram tentativas sucessivas, porém frustradas, de exonerar o procurador-geral da República. Por outro lado, Netanyahu obteve sucesso ao destituir o advogado-geral militar que havia vazado um vídeo mostrando soldados israelenses cometendo estupro coletivo contra um detido palestino — militares que posteriormente acabaram liberados e isentados das acusações.

O pleito de 2026 e a herança institucional

Alvo de mandados emitidos pelo Tribunal Penal Internacional por acusações de crimes de guerra em Gaza, Netanyahu assegura a sua base de apoiadores que seus planos não foram concluídos. Em campanha para o pleito de 27 de outubro de 2026, ele promete levar adiante a revisão completa dos poderes de fiscalização judicial e manter sua agenda de medidas conservadoras.

Enquanto setores aliados o enxergam como um líder decisivo e capaz de concretizar projetos antes tidos como inviáveis, opositores prometem desmontar o arranjo construído nas últimas décadas, atribuindo ao governante a responsabilidade pelo aprofundamento das divisões sociais, escândalos e o crescente isolamento internacional de Israel. Contudo, analistas ponderam que desarticular essas mudanças estruturais, muitas delas já cristalizadas na legislação e na burocracia do Estado, representará um desafio complexo para qualquer eventual sucessor.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.