A Justiça de São Paulo proferiu sentença em um caso emblemático do futebol paulista, conhecido como a 'Batalha da Inajar'. Um torcedor do Corinthians foi condenado pela morte de um dos dois palmeirenses que perderam a vida no confronto generalizado ocorrido em 2012. O episódio, que marcou a rivalidade entre as torcidas, foi um dos principais catalisadores para a implementação da medida de torcida única em clássicos do estado, quatro anos depois.

Sentença e Condenação na 'Batalha da Inajar'

O Tribunal do Júri deliberou entre segunda e terça-feira sobre dez réus, todos torcedores do Corinthians. Eles respondiam por homicídio duplamente qualificado, com acusações de motivo torpe e meio cruel, além de associação criminosa. Carlos Roberto de Brito Júnior foi o único condenado, recebendo uma pena de 16 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado, pela morte de Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, de 19 anos. Ele foi absolvido da acusação de associação criminosa e da morte de André Alves Lezo.

Verifico a necessidade de fixação da pena-base acima do mínimo legal. Trata-se de réu primário e sem antecedentes criminais. A culpabilidade e as circunstâncias do crime são normais à espécie. De outro lado, devem ser relevadas as consequências do crime, dado que a vítima contava com apenas 19 anos de idade, tratando-se, portanto, de pessoa jovem, cuja perspectiva de vida foi retirada.

A declaração foi da magistrada na sentença, destacando a juventude da vítima como fator relevante para a fixação da pena. Embora Carlos Roberto de Brito Júnior respondesse ao processo em liberdade, foi imediatamente detido após a leitura da sentença. A defesa do réu, procurada pela reportagem, optou por não comentar o caso.

Outros Réus e Desdobramentos

Dos dez réus corintianos julgados, Mario Batista teve sua conduta em relação à morte de Guilherme desclassificada para 'rixa qualificada'. Dada a pena máxima de dois anos para esse crime e o fato de terem se passado 14 anos desde o ocorrido, a juíza Flavia Castellar Oliverio declarou a punibilidade extinta para ele. Mario Batista também foi absolvido dos demais crimes pelos quais era acusado. Os outros oito réus foram absolvidos de todas as acusações. Todos os réus respondiam em liberdade antes do julgamento, embora alguns tivessem sido presos na época dos fatos.

O processo judicial ainda não está totalmente encerrado. Ele foi desmembrado e ainda prevê o julgamento de nove réus palmeirenses, embora uma data para essa etapa não tenha sido definida até o momento. Para este julgamento, foram arroladas 50 testemunhas, mas 41 foram dispensadas. O júri ouviu cinco testemunhas de acusação e quatro de defesa, além dos interrogatórios dos dez réus. Os debates e a sentença ocorreram nesta terça-feira. Por questões de segurança, a juíza Flavia Castellar Oliverio proibiu o uso de roupas de clubes e torcidas organizadas durante as sessões do julgamento.

Relembrando a 'Batalha da Inajar' e a Torcida Única

A 'Batalha da Inajar' ocorreu na manhã de 25 de março de 2012, horas antes de um clássico entre Corinthians e Palmeiras no Estádio do Pacaembu, pelo Campeonato Paulista. Integrantes da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, emboscaram um grupo menor de membros da Mancha Alviverde, do Palmeiras, na Avenida Inajar de Sousa, na zona norte da capital paulista. A confusão, que envolveu cerca de 500 pessoas e foi registrada por câmeras de segurança, resultou na morte de André Alves Lezo, de 21 anos, no dia do confronto, e de Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, de 19 anos, dois dias depois. Ambos faleceram devido a traumatismo craniano.

A investigação policial da época apontou que a briga seria uma retaliação pela morte do corintiano Douglas Karin da Silva, cujo corpo foi encontrado no Rio Tietê em 2011. Dois palmeirenses chegaram a ser detidos por esse caso. Após a 'Batalha da Inajar', a Federação Paulista de Futebol (FPF) implementou uma proibição temporária do ingresso de uniformes de torcidas organizadas nos estádios. Contudo, a medida não foi permanente, e novos conflitos continuaram a ocorrer.

A Implantação da Torcida Única em São Paulo

O estopim para a adoção definitiva da torcida única em clássicos paulistas foi um confronto em 2016, novamente entre corintianos e palmeirenses, que resultou em uma morte e dezenas de feridos. Diante da escalada da violência, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) determinou a medida. A torcida única passou a valer para os clássicos envolvendo os quatro grandes clubes da capital (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo), além do Dérbi Campineiro, disputado entre Guarani e Ponte Preta.

No início deste ano, a Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), que representa as agremiações desde 2014, apresentou um projeto sugerindo o fim gradual da torcida única. A proposta incluía a realização de jogos-teste para permitir o retorno de torcedores visitantes aos estádios. No entanto, essa iniciativa contrasta com discussões recentes da Justiça de São Paulo. No final de 2024, após uma emboscada de palmeirenses a cruzeirenses na rodovia Fernão Dias, em Mairiporã (SP), que resultou na morte de um torcedor mineiro, o Juizado Especial de Defesa do Torcedor do Tribunal de Justiça de São Paulo discutiu a possibilidade de estender a imposição de torcida única para clássicos do futebol nacional. A proposta era aplicar a medida em jogos específicos, como Palmeiras x Flamengo e Palmeiras x Cruzeiro, sempre que o time alviverde fosse o mandante e as partidas ocorressem na capital paulista.

Serviço

Evento: Julgamento da 'Batalha da Inajar'

Réus Julgados: 10 torcedores do Corinthians

Condenado: Carlos Roberto de Brito Júnior (16 anos e 4 meses de prisão)

Vítimas: André Alves Lezo (21 anos) e Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira (19 anos)

Data do Confronto Original: 25 de março de 2012

Local do Confronto: Avenida Inajar de Sousa, Zona Norte de São Paulo

Próximos Passos: Julgamento de 9 réus palmeirenses (data a ser definida)

O que isso significa para a região

Embora este caso tenha ocorrido na capital paulista, a repercussão de sentenças em brigas de torcidas organizadas ecoa por todo o país, inclusive em regiões como o Norte Pioneiro do Paraná. A violência no futebol é um tema de preocupação geral, e a busca por justiça em episódios como a 'Batalha da Inajar' reforça a importância de medidas de segurança e de conscientização para garantir que eventos esportivos sejam momentos de celebração e não de conflito. A discussão sobre a torcida única, por exemplo, é um debate que transcende as fronteiras estaduais, impactando a forma como os jogos são organizados e como a segurança pública é planejada em diversas cidades, incluindo as do interior do Paraná, que muitas vezes recebem jogos de campeonatos regionais ou nacionais.

Fonte: Tribuna do Norte — Campos Gerais — matéria original publicada em tnonline.uol.com.br. Imagens e vídeos: Tribuna do Norte — Campos Gerais. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.