Seul, Coreia do Sul – O governo sul-coreano veio a público para refutar veementemente as notícias veiculadas pela mídia doméstica que apontavam para um iminente desdobramento de ativos militares no estratégico Estreito de Ormuz. Os relatórios, publicados na quinta e sexta-feira por grandes veículos sul-coreanos, citavam fontes governamentais e militares não identificadas, afirmando que os preparativos estavam em andamento e que o governo buscaria aprovação parlamentar para uma nova missão.

No entanto, o gabinete presidencial coreano contestou essas informações, declarando ao The Guardian que tais relatos estavam “em desacordo com os fatos” e que “nada relacionado ao assunto foi decidido”. Apesar da negativa, o gabinete confirmou que a revisão da situação na região está “em andamento”.

Pressão dos EUA e a Dependência Estratégica

A discussão sobre um possível desdobramento surge em um contexto de crescente pressão por parte do governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, que tem cobrado maior apoio de Seul na região. A Coreia do Sul é extremamente dependente do Estreito de Ormuz, por onde importa mais de 90% de sua energia primária, incluindo aproximadamente 70% de seu petróleo bruto.

Um oficial sul-coreano afirmou que o governo tem discutido com a comunidade internacional “formas de fazer contribuições práticas para a rápida restauração da livre navegação no Estreito de Ormuz e para a paz e estabilidade no Oriente Médio”.

A South Korean armored vehicle crosses a pontoon bridge during a joint US-South Korea drill
A South Korean armored vehicle crosses a pontoon bridge during a joint US-South Korea drill

Ativos Considerados e Processo de Aprovação

De acordo com os relatórios da mídia local, os ativos militares sob consideração incluiriam uma aeronave P-8 Poseidon, o que marcaria o primeiro desdobramento ultramarino de uma aeronave de patrulha marítima pela Coreia do Sul, e um navio de apoio logístico naval para fornecer suporte de retaguarda. A Seoul Broadcasting System (SBS) acrescentou que uma equipe de descarte de artefatos explosivos da unidade de demolição subaquática da marinha também faria parte do pacote.

Qualquer novo desdobramento, em princípio, exigiria uma revisão pelo Conselho de Segurança Nacional, uma resolução do gabinete e a aprovação da Assembleia Nacional.

Precedentes e Desafios Legislativos

Em 2020, o governo do então presidente Moon Jae-in expandiu o mandato de uma unidade anti-pirataria existente, que operava na costa da Somália, para cobrir o Estreito de Ormuz, evitando assim a necessidade de buscar aprovação parlamentar para um novo desdobramento. No entanto, o ministro da Defesa sul-coreano, Ahn Gyu-back, declarou em março ao parlamento que qualquer desdobramento para o Estreito de Ormuz exigiria o consentimento da Assembleia Nacional, dada a diferença substancial da missão em relação ao mandato anti-pirataria existente.

“Nosso governo tem discutido de perto com a comunidade internacional formas de fazer contribuições práticas para a rápida restauração da livre navegação no Estreito de Ormuz e para a paz e estabilidade no Oriente Médio.”

A declaração oficial do governo, através do gabinete do presidente Lee Jae Myung, reitera que “nada relacionado ao assunto foi decidido” em resposta aos relatórios da mídia.

Lee Jae Myung
Lee Jae Myung

Tensões na Aliança EUA-Coreia do Sul

Os relatórios surgem em meio a crescentes tensões na aliança entre EUA e Coreia do Sul. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, tem reclamado publicamente que Seul recusou seu pedido de ajuda em relação ao Irã. Em agosto, Trump afirmou que o presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, lhe disse “Não, obrigado”, apesar da presença de dezenas de milhares de tropas americanas na península coreana. Dias depois, Trump ordenou a redução dos exercícios militares conjuntos Ulchi Freedom Shield, encurtando os treinamentos em seis dias.

As relações entre os dois aliados também foram tensionadas por atrasos na implementação de um pacote de investimento de 350 bilhões de dólares (trezentos e cinquenta bilhões de dólares americanos) que Seul concordou com Washington no ano passado, relatos de que os EUA restringiram o compartilhamento de inteligência com a Coreia do Sul e uma disputa sobre uma violação de dados na empresa sul-coreana de comércio eletrônico Coupang.

Separadamente, Seul expressou interesse em participar de qualquer diplomacia renovada entre EUA e Coreia do Norte, já que Trump sinaliza abertura para outro encontro com Kim Jong-un.

O que isso significa para a região

A Coreia do Sul se encontra em uma posição delicada, equilibrando a pressão de um aliado chave como os Estados Unidos com a necessidade de manter a estabilidade regional e a aprovação interna para qualquer ação militar. A dependência energética do Estreito de Ormuz torna a questão ainda mais crítica para o país, pois a interrupção do fluxo de petróleo e gás teria um impacto devastador em sua economia. A decisão final sobre o desdobramento, caso venha a ocorrer, dependerá de um complexo jogo de xadrez diplomático e político, com implicações significativas para a segurança e a economia global.

Leitura da LZ7 Energia

A Coreia do Sul, assim como o Brasil, é um país com alta dependência de importação de combustíveis fósseis para sua matriz energética, o que a torna vulnerável a instabilidades em rotas marítimas estratégicas como o Estreito de Ormuz. Eventuais bloqueios ou conflitos nessa região podem causar disparada nos preços do petróleo e do gás natural, impactando diretamente o custo da energia em países como a Coreia do Sul e, por tabela, no mercado global. Para o consumidor brasileiro, embora indiretamente, isso pode se traduzir em aumento nos preços dos combustíveis e, consequentemente, na tarifa de energia elétrica, especialmente em sistemas que dependem de termelétricas a gás ou óleo. A busca por fontes de energia renovável e a diversificação da matriz energética, como a energia solar, tornam-se ainda mais cruciais para mitigar esses riscos geopolíticos e garantir a segurança energética e a estabilidade econômica a longo prazo.

Fonte: The Guardian — World (internacional) — matéria original publicada em theguardian.com. Imagens e vídeos: The Guardian — World (internacional). Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.