A plataforma global de comércio eletrônico Etsy anunciou formalmente a proibição da venda de receitas culinárias, moldes de artesanato e manuais de instruções gerados inteiramente por ferramentas de inteligência artificial (IA). A decisão, divulgada nesta quinta-feira por meio de comunicado oficial aos usuários e vendedores, faz parte de uma ofensiva abrangente do marketplace para estabelecer diretrizes mais rígidas sobre o uso de tecnologias automatizadas e preservar sua identidade histórica voltada ao trabalho manual autêntico.
As novas determinações impedem a comercialização do que a empresa classifica como guias funcionais desenvolvidos por modelos generativos. Esses itens costumam ser distribuídos digitalmente na forma de arquivos descarregáveis pela internet, com destaque para instruções detalhadas de costura e padrões de crochê. De acordo com a plataforma, esse tipo de produto demanda tempo e trabalho consideráveis por parte de quem compra para que se atinja uma peça acabada, o que torna inaceitável a entrega de instruções defeituosas ou inviáveis criadas por algoritmos.
Proibição atinge receitas culinárias e moldes de artesanato
Com as novas diretrizes, vendedores que operam no marketplace não poderão mais anunciar roteiros de culinária, desenhos de alfaiataria ou projetos estruturados por sistemas computacionais sem fundamentação prática. A proliferação de materiais desse gênero vinha gerando forte descontentamento entre os compradores que adquiriam esquemas técnicos achando que haviam sido concebidos e testados por especialistas humanos.
A empresa destacou que, para esses guias funcionais, haverá uma cobrança direta sobre a veracidade do passo a passo oferecido. Os lojistas terão a obrigação expressa de comprovar que o produto final pode ser concretizado no mundo real a partir do material textual e visual vendido na página comercial.

Regras rígidas contra automação total e exigência de fotos reais
Além de banir os guias gerados por inteligência artificial, o Etsy implementou exigências adicionais para assegurar a autenticidade das ofertas em todo o seu ecossistema digital. Entre as principais exigências estabelecidas estão:
- Proibição total da criação de anúncios gerados por robôs ou sistemas autônomos sem qualquer envolvimento ou supervisão de um ser humano;
- Exigência obrigatória de inclusão de ao menos uma fotografia real e não editada da peça física produzida a partir das instruções, em substituição a maquetes virtuais ou renderizações geradas por computadores;
- Obrigatoriedade de declarar explicitamente qualquer uso de inteligência artificial em obras artísticas visuais permitidas;
- Vedação expressa de rotular peças criadas por modelos generativos como sendo feitas à mão ou de autoria puramente artesanal.
A companhia esclareceu que peças artísticas produzidas com o auxílio de inteligência artificial ainda poderão ser negociadas no site, desde que os comerciantes mantenham um papel decisivo no processo criativo e mantenham total transparência perante o público consumidor.
Em informe direcionado aos lojistas cadastrados, o Etsy pontuou os limites que separam a experimentação gráfica da tentativa de ludibriar os clientes:
Os vendedores ainda devem divulgar quando um item for criado com uso de inteligência artificial e não podem apresentar trabalhos gerados por IA como sendo feitos à mão ou como uma criação inteiramente própria.
Confusão dos consumidores virou obstáculo para o comércio
A mudança nas normas ocorre em meio a pesquisas internas que acenderam um alerta na gestão da empresa. Segundo a comunicação enviada pela administração aos lojistas, o excesso de produtos sem clareza sobre o uso de automação estava corroendo diretamente os níveis de confiança e afastando os clientes frequentes do ambiente de compras virtuais.
Nos levantamentos operacionais conduzidos recentemente pela empresa, a dificuldade para distinguir o que era realmente manual do que era fruto de sistemas automáticos passou a figurar entre os três principais motivos citados por consumidores para reduzir o volume de pedidos na plataforma.
Em comunicado oficial emitido aos comerciantes, a direção do marketplace detalhou a frustração relatada tanto por clientes quanto pela comunidade criativa:
Hoje, muitos compradores ativos dizem que não conseguem identificar quais itens envolvem conteúdo gerado por IA. Isso se tornou uma das três principais barreiras para compras mais frequentes no Etsy. E vocês, nossa comunidade de vendedores, nos disseram que estão preocupados com o fato de seu trabalho aparecer ao lado de itens que usam IA de maneiras enganosas, tornando mais difícil para os compradores reconhecerem o papel de vocês na criação de seus produtos.
Concorrência acirrada e o combate ao conteúdo artificial
Fundado em 2005, o Etsy construiu sua reputação no comércio eletrônico internacional como um refúgio para artesãos independentes, pequenos produtores e peças feitas manualmente sob encomenda. No entanto, nos últimos anos a companhia tem enfrentado uma intensa batalha para barrar o avanço de revendedores que oferecem mercadorias padronizadas e fabricadas em massa, além de encarar forte disputa com gigantes globais do varejo.
O avanço de empresas consolidadas, como Walmart e Amazon, aliado ao surgimento veloz de novos modelos de comércio eletrônico — caso de TikTok, Temu e Shein —, colocou pressão sobre as margens e a identidade do Etsy. Paralelamente, o site foi tomado por um volume expressivo de padrões de crochê e materiais decorativos falsos, fenômeno frequentemente chamado no setor tecnológico de entulho digital de inteligência artificial.
O problema das imagens e produtos artificiais enganosos tornou-se um desafio geral para as grandes plataformas de vendas online. Recentemente, a rival Amazon determinou que seus lojistas identifiquem fotos e vídeos que contenham representações de pessoas virtuais criadas por inteligência artificial, atendendo a imposições legais que exigem transparência imediata ao consumidor.
Contradição controlada: o uso interno de inteligência artificial pela empresa
Apesar de endurecer o controle e reprimir a circulação de produtos gerados por inteligência artificial em suas vitrines, o Etsy segue incorporando ferramentas dessa mesma tecnologia em seus próprios sistemas internos de gestão e infraestrutura técnica de comércio.
A organização tem aplicado modelos de inteligência artificial para traçar perfis detalhados de navegação dos clientes e aperfeiçoar os mecanismos de busca interna, com o objetivo de apresentar resultados mais precisos e personalizados para cada visitante. Além disso, a companhia estabeleceu uma parceria com a desenvolvedora OpenAI para integrar recursos de compras avançados em sua plataforma, o que incluiu o lançamento de um aplicativo específico no ambiente do ChatGPT voltado para a descoberta e recomendação de produtos.
Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
