O governo dos Estados Unidos acusou publicamente líderes políticos do Canadá de tentarem influenciar as eleições de meio de mandato do país, agendadas para o dia 3 de novembro. A alegação foi formalizada por meio de um documento informativo divulgado pela embaixada norte-americana em 21 de outubro de 2026, apontando que as reações de Ottawa contra as tarifas de importação impostas pela administração de Donald Trump extrapolam disputas econômicas regulares e configuram interferência externa.
A guerra comercial e as alegações da embaixada americana
As relações diplomáticas e comerciais entre as duas nações vizinhas entraram em rota de colisão desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025. Diante da implementação de sobretaxas alfandegárias aplicadas pelo governo norte-americano contra produtos canadenses, o Canadá respondeu impondo tarifas recíprocas sobre mercadorias importadas dos Estados Unidos. Contudo, para a representação diplomática de Washington, declarações públicas e a escolha estratégica de alvos para a retaliação visam pressionar os resultados eleitorais nos colégios eleitorais dos Estados Unidos.
No documento publicado pela embaixada, o governo norte-americano argumenta que Ottawa tem minimizado os protestos diplomáticos sobre o tema:
O governo canadense desdenha das preocupações sobre uma potencial interferência nas eleições dos EUA, mesmo enquanto seus ministros e premiês descrevem abertamente planos para influenciar a política americana em documentos oficiais e aparições públicas.
Ministra da Indústria no centro dos questionamentos de Washington
Entre os nomes diretamente citados no relatório da embaixada norte-americana está o da ministra da Indústria do Canadá, Melanie Joly. O documento aponta para declarações feitas por ela em agosto, quando detalhou como o país estava estruturando sua resposta às tarifas impostas pela Casa Branca.
Também estamos mirando produtos que atinjam estados específicos nos EUA. Dessa forma, estamos sendo prudentes e estratégicos para exercer pressão política.
A embaixada também questionou uma série de agendas realizadas por Joly em setembro, nas cidades de Boston e Chicago, onde ela se encontrou com lideranças do Partido Democrata. Na ocasião, ao ser indagada por repórteres sobre o que poderia ocorrer com a política tarifária caso os democratas vencessem as eleições de meio de mandato, a ministra respondeu:
É exatamente por isso que estou me reunindo com tantos governadores e potenciais candidatos presidenciais.
A ministra canadense rechaçou de forma enfática as suspeitas de intromissão no pleito alheio, declarando que o Canadá jamais interferiria em eleições dos Estados Unidos. Em entrevista concedida em 14 de outubro, Joly enfatizou que suas conversas com políticos americanos, tanto do Partido Democrata quanto do Partido Republicano, tinham o propósito exclusivo de fortalecer a economia canadense e proteger cadeias produtivas.
Fundamentalmente, o que fiz nos EUA foi atrair investimentos.

Campanha publicitária de Ontário e atuação parlamentar
As críticas de Washington não se limitaram ao governo federal do Canadá. O relatório oficial da embaixada mencionou ações promovidas pelo premiê da província de Ontário, Doug Ford, que defendeu abertamente a adoção de medidas retaliatórias contra bens fabricados nos Estados Unidos.
O documento relembrou uma campanha publicitária promovida pela administração provincial de Ontário no ano anterior contra as tarifas norte-americanas. A ação institucional utilizava gravações de um discurso radiofônico de 1987 feito pelo ex-presidente republicano Ronald Reagan, no qual ele criticava o uso de tarifas comerciais. A exibição dessa campanha levou Donald Trump a suspender abruptamente as negociações comerciais bilaterais com o Canadá em outubro de 2025.
Além dos chefes de Executivo, o documento registrou o caso do deputado federal do Partido Liberal Anthony Housefather. O parlamentar declarou ter feito campanha presencial no estado da Flórida em apoio à deputada democrata Debbie Wasserman Schultz, durante as eleições primárias de agosto.
Votos individuais e o posicionamento da diplomacia
O dossiê da embaixada apontou ainda ocorrências individuais de cidadãos canadenses que teriam votado ilegalmente nos Estados Unidos. O texto listou 11 pessoas que foram formalmente acusadas ou condenadas por participar de votações em território americano entre os anos de 2012 e 2024. Não foram apresentadas, entretanto, provas ou vínculos que conectem esses 11 cidadãos a uma ação coordenada ou orquestrada pelo governo canadense.
A embaixada norte-americana concluiu o relatório com uma recomendação direta aos cidadãos do país vizinho:
Todos os canadenses devem se abster de tentar participar ou influenciar as eleições dos EUA de qualquer maneira. Os americanos decidem as eleições da América.
A publicação do documento ocorre uma semana após declarações do embaixador dos Estados Unidos no Canadá, Pete Hoekstra. Em entrevista ao podcast The Really Big Show, divulgada pela agência The Canadian Press, Hoekstra afirmou que a administração americana estava atenta aos passos das autoridades canadenses.
Estamos monitorando, estamos avaliando e, se algo disso se tornar interferência eleitoral, os Estados Unidos irão responder.

Tensões diplomáticas e o referendo separatista em Alberta
Historicamente próximos, Estados Unidos e Canadá vêm enfrentando desgaste diplomático constante desde o retorno de Trump à presidência americana. Além do confronto aduaneiro contínuo, Trump chegou a declarar reiteradas vezes a ideia de transformar o Canadá no 51º estado americano.
Do lado canadense, o cenário político interno também enfrenta instabilidade. Lideranças separatistas da província de Alberta chegaram a buscar interlocução e apoio com integrantes da administração Trump antes de um referendo sobre a independência da província, votação que foi derrotada no início desta semana.
Antes da votação provincial em Alberta, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney — que esteve reunido com Donald Trump em Evian-les-Bains, na França, em 16 de junho —, já havia expressado preocupação quanto a eventuais interferências norte-americanas na soberania canadense. Em declaração ao canal Global News, Carney deixou claro que a soberania dos processos democráticos deve ser recíproca:
Nossa expectativa, para sermos absolutamente claros, em relação a governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos, é que não nos envolvamos nas eleições deles, e eles não se envolvam nas nossas eleições.
Até a publicação desta reportagem, os gabinetes do primeiro-ministro Mark Carney, do Ministério de Assuntos Globais do Canadá, do premiê de Ontário, Doug Ford, e da ministra Melanie Joly não haviam emitido novos pronunciamentos sobre o teor das acusações norte-americanas.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
