Vinte e cinco anos após os ataques de 11 de setembro de 2001, que abalaram Nova York e Washington, D.C., a forma como os conflitos são descritos e justificados passou por uma profunda transformação. O que começou como uma resposta aos atos terroristas evoluiu para uma 'Guerra ao Terror', uma expressão que não apenas definiu uma era, mas também reconfigurou o léxico político e militar, introduzindo termos que, para muitos especialistas, serviram para sanitizar a violência e desumanizar seus alvos.
Desde 'interrogatório aprimorado' para tortura, 'rendição extraordinária' para a transferência forçada de suspeitos através de fronteiras, e 'combatentes inimigos' para detidos em Guantánamo, uma nova linguagem burocrática e de precisão se infiltrou no discurso político dominante dos Estados Unidos. Ataques mortais passaram a ser descritos como 'cirúrgicos' ou 'direcionados', mascarando a brutalidade subjacente.
A Gênese de um Novo Vocabulário
No centro dessa mudança linguística estava a frase 'Guerra ao Terror', abrangente o suficiente para justificar uma série de ações que se seguiram. Esta expressão, segundo analistas, pavimentou o caminho para a invasão ilegal do Afeganistão e do Iraque pelos EUA, a criação do notório centro de detenção de Guantánamo para supostos 'terroristas', e uma expansão drástica dos poderes de vigilância e segurança nacional dentro do próprio país. Especialistas apontam que essa nova retórica foi crucial para facilitar tais ações, ao apagar a humanidade dos alvos e revestir a violência com um verniz de legitimidade.
Embora a expressão 'Guerra ao Terror' seja hoje menos frequente na Casa Branca, seus temas e ideias subjacentes permanecem profundamente enraizados na política dos EUA. Leonie Jackson, professora sênior de relações internacionais na Northumbria University, no Reino Unido, observa que o legado dessa 'guerra' é visível em toda a política norte-americana atual.
“Acho que podemos ver o legado da guerra ao terror em toda a política dos EUA hoje. Na verdade, eu diria que ainda estamos muito dentro da lógica desta 'guerra'.”
— Leonie Jackson, Northumbria University
Uma 'Guerra' Sem Linhas de Frente Claras
Nove dias após os ataques de 2001, o então presidente dos EUA, George W. Bush, dirigiu-se a uma sessão conjunta do Congresso, declarando que a 'guerra ao terror' começaria com a Al-Qaeda, mas não terminaria ali, estendendo-se até que 'todo grupo terrorista de alcance global fosse encontrado, parado e derrotado'. Antes disso, em 18 de setembro, o Congresso já havia aprovado a Autorização para o Uso da Força Militar, concedendo ao presidente ampla autoridade para agir contra os responsáveis pelos ataques ou aqueles que os abrigassem.
No entanto, diferentemente de conflitos convencionais, esta não era uma guerra contra um grupo ou país específico. Christopher Baker-Beall, da Bournemouth University, destaca que o terrorismo não é um estado, um território ou uma organização específica, mas sim uma tática. Declarar uma 'guerra ao terror', portanto, criou um conflito sem fronteiras geográficas óbvias ou um inimigo claramente definido, e, crucialmente, sem um ponto final natural.
Ainda naquele ano, Bush lançou um desafio à comunidade internacional: 'Ou você está conosco, ou você está com os terroristas', frequentemente utilizando o termo 'mal'. Harmonie Toros, professora de política e relações internacionais na University of Reading, no Reino Unido, explica que essa linguagem foi usada para 'sanitizar ações tomadas pelos EUA – ações que poderiam ser vistas como não aceitáveis para uma democracia normal e funcional'. Ao mesmo tempo, representou um forte esforço discursivo para 'demonizar' o inimigo, criando uma narrativa que dividia o mundo entre aliados e inimigos, e entre noções de 'bem' e 'mal'.

De 'Tortura' a 'Interrogatório Aprimorado'
A invasão do Afeganistão ocorreu menos de um mês após o 11 de setembro, seguida pela invasão do Iraque em março de 2003, baseada em alegações da administração Bush sobre a posse de armas de destruição em massa por Saddam Hussein – alegações que nunca foram comprovadas. A 'Guerra ao Terror' rapidamente se expandiu para uma vasta rede de operações militares e secretas globais.
Quase 780 pessoas passaram pela prisão militar dos EUA em Guantánamo. A maioria foi libertada sem acusação formal, mas algumas permaneceram detidas por duas décadas. Clive Stafford Smith, advogado de direitos humanos que foi um dos primeiros a ter acesso a Guantánamo, relatou ter visto meninos de 14 anos detidos. Além de Guantánamo, a CIA operava instalações de detenção secretas, as 'black sites', no exterior, e os abusos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, tornaram-se um dos maiores escândalos da guerra.
Para facilitar essas práticas, uma linguagem deliberadamente clínica foi empregada. Métodos de tortura e interrogatório abusivos, como o notório 'waterboarding', privação prolongada de sono e posições de estresse, foram descritos como 'técnicas de interrogatório aprimorado'. A transferência secreta de detidos fora dos processos judiciais ordinários tornou-se 'rendição extraordinária'.
“O que é impressionante em muitos desses termos é seu caráter burocrático ou técnico. O efeito foi criar uma 'distância moral e política' que 'pode sanitizar atos de violência extraordinária e transformá-los em algo que soa como um instrumento comum de política governamental'.”
— Christopher Baker-Beall, Bournemouth University
Em uma série de memorandos legais, conhecidos como 'Torture Memos', advogados da administração Bush construíram uma interpretação extremamente restrita do que constituía tortura, enquanto a CIA buscava autoridade legal para usar técnicas de interrogatório cada vez mais brutais. Leonie Jackson afirma que a linguagem eufemística ajudou a revestir essas práticas com um 'verniz de legalidade', permitindo que líderes violassem proteções legais internacionais, mantendo a imagem dos EUA como os 'mocinhos'. Tahir Abbas, professor de criminologia e justiça global na Aston University, no Reino Unido, acrescenta que essa linguagem também 'dessensibilizou membros comuns do público, tornando-os cada vez mais insensíveis às maneiras profundamente desumanizadoras e despersonalizadas como a morte e a destruição eram discutidas', muitas vezes em relação a vítimas inocentes.

Vigilância e o Estado de Segurança
Quarenta e cinco dias após o 11 de setembro, Bush assinou o Patriot Act, expandindo vastamente o aparato de vigilância do governo dos EUA e facilitando o compartilhamento de informações pessoais entre agências de inteligência e aplicação da lei. A arquitetura de segurança pós-11 de Setembro transformou a compreensão de imigração, fronteiras e policiamento doméstico. O Departamento de Segurança Interna foi estabelecido em 2002, unindo diversas agências sob uma única estrutura de segurança nacional.
A política de segurança passou a se preocupar não apenas com o que alguém havia feito, mas com o que poderia fazer. Baker-Beall explica que a principal mudança política foi de responder a ameaças reais para governar possíveis ameaças futuras, o que ampliou o escopo potencial da política de segurança. Essa lógica criou espaço político para coleta de inteligência, detenção, controle de fronteiras e poder executivo. Governos em toda a Europa também introduziram leis antiterrorismo abrangentes e expandiram a vigilância, enquanto comunidades muçulmanas se tornaram alvo crescente.
Abbas descreveu o resultado como um 'efeito bumerangue', no qual a retirada de cidadania, a securitização e a vigilância se normalizaram na vida dos muçulmanos. A linguagem da guerra ao terror, segundo ele, ajudou a construir uma política mais ampla de 'outrificação', na qual comunidades inteiras podiam ser vistas como fontes de perigo – tornando a mera suspeita uma justificativa para vigilância, detenção e outras formas de controle estatal, mesmo quando os indivíduos não haviam cometido nenhum erro.
O Legado da 'Guerra ao Terror'
Quando Barack Obama assumiu a presidência dos EUA em 2009, a nova terminologia começou a mudar. Em 23 de maio de 2013, Obama anunciou o fim da 'guerra ao terrorismo'. No entanto, as instituições construídas após o 11 de Setembro não desapareceram. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), criado como parte do Departamento de Segurança Interna, tem como legado imagens cada vez mais frequentes de agentes patrulhando ruas e prendendo pessoas de cor, especialmente após Donald Trump iniciar seu segundo mandato no ano passado.
Longe de ser fechada, a Baía de Guantánamo – talvez o símbolo físico mais reconhecível da suspensão das normas legais ordinárias pós-11 de Setembro – foi usada pela administração Trump para deter migrantes. A guerra ao terror, portanto, deixou um legado de construção de comunidades ameaçadoras: 'uma prática de vilanizar um grupo específico de pessoas', afirma Toros. Isso pode se estender a gangues, grupos de imigrantes específicos, ou até mesmo gênero e identidade de gênero. O pós-11 de Setembro e todo o discurso da guerra ao terror permitiram que as pessoas se tornassem mais hábeis em vilanizar comunidades.
Seu legado se expande para a política externa dos EUA, com Trump ordenando em 2025 que o poder executivo use o nome 'Departamento de Guerra' como título secundário para o Departamento de Defesa, alegando que o nome transmitia melhor a disposição da América não apenas de se defender, mas de lutar e vencer guerras. Essas ideias se manifestaram sob a gestão de Trump, com os EUA novamente em guerra no Oriente Médio. Trump alegou que a ação militar contra o Irã era necessária para impedir o desenvolvimento de armas nucleares – uma justificativa que gerou comparações com as alegações sobre armas de destruição em massa usadas antes da invasão do Iraque em 2003.
A administração Trump também se baseou em partes do léxico pós-11 de Setembro, desenvolvendo um vocabulário próprio. A ação militar foi novamente enquadrada pela linguagem de ataques 'preventivos' e de 'precisão', enquanto o Irã foi repetidamente descrito como um 'regime terrorista' e o 'principal patrocinador estatal do terrorismo no mundo'.
“Não é simplesmente uma continuação da 'guerra ao terror' e as circunstâncias são muito diferentes. Mas a mesma lógica de segurança preventiva é familiar. O que é impressionante é o poder contínuo do mesmo argumento político: Não podemos esperar que a ameaça se materialize, então a ação deve ser tomada agora. O legado da guerra ao terror está em toda a política dos EUA hoje. Podemos ter nos afastado da linguagem da guerra ao terror, mas seus efeitos permanecem profundamente enraizados na sociedade dos EUA.”
— Leonie Jackson, Northumbria University
Leitura da LZ7 Energia
Embora o tema da 'Guerra ao Terror' e suas implicações na linguagem política possam parecer distantes do setor de energia solar, a análise da Al Jazeera revela um aspecto crucial para qualquer setor econômico: a influência da retórica e da percepção pública. A forma como governos e empresas comunicam suas ações e justificam suas decisões tem um impacto direto na aceitação social, na regulamentação e no ambiente de negócios. No contexto da energia, a narrativa em torno de fontes renováveis versus fósseis, por exemplo, pode moldar políticas de incentivo, investimentos e a própria transição energética. A 'sanitização' de práticas controversas através da linguagem, como observado no artigo, serve como um alerta sobre a importância da transparência e da comunicação clara para evitar a desinformação e garantir a confiança pública, elementos essenciais para o avanço de tecnologias sustentáveis como a energia solar no Norte Pioneiro do Paraná e em todo o Brasil.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
