O piloto britânico Lewis Hamilton revelou o desejo de prolongar a sua trajetória na Fórmula 1 até o início da década de 2030. O principal motivo apontado pelo heptacampeão mundial é a oportunidade de disputar o Grande Prêmio da África, que será sediado em Ruanda. Aos 41 anos de idade, o atleta declarou considerar correta a inclusão da etapa no calendário da categoria, mesmo diante das fortes contestações internacionais relativas ao histórico de direitos humanos do país africano.

Acordo histórico marca retorno da F1 ao continente africano

A confirmação de Ruanda como sede do Grande Prêmio da África ocorreu após o anúncio de um contrato de dez anos firmado com a Fórmula 1. O planejamento prevê a realização da prova inaugural no começo dos anos 2030 em uma pista construída especificamente para a competição, situada em Bugesera, localidade localizada a cerca de 40 quilômetros (25 milhas) ao sul da capital, Kigali. O autódromo ainda precisa ser erguido para viabilizar as atividades.

A chegada do evento encerra um longo hiato da principal categoria do automobilismo mundial na África. A última vez em que o continente recebeu uma corrida oficial da Fórmula 1 foi em 1993, com a realização do Grande Prêmio da África do Sul no circuito de Kyalami.

The Formula One driver Lewis Hamilton smiles during a press conference.
The Formula One driver Lewis Hamilton smiles during a press conference.

O plano de longevidade de Hamilton e o contrato com a Ferrari

Defensor ferrenho de uma etapa africana há bastante tempo, Hamilton possui vínculo contratual em vigor com a escuderia Ferrari até o término da temporada de 2027. Durante as entrevistas que antecederam o Grande Prêmio dos Estados Unidos, o piloto inglês destacou que pretende continuar competindo por pelo menos mais quatro temporadas além do acordo atual para alcançar a data de estreia em Bugesera.

“Agora sou forçado a ter que ficar muito mais tempo porque temos uma corrida na África, e esse tem sido o meu sonho: poder correr na África. Então, tenho que continuar lutando para tentar me manter em forma, se conseguir. Se eu ainda conseguir entregar bons resultados no próximo ano, vamos continuar em frente.”

— Lewis Hamilton, piloto da Ferrari

Para atingir essa meta e alinhar no grid na virada para a próxima década, Hamilton terá de competir na faixa dos 45 anos. Atualmente, a marca de piloto mais experiente em atividade na Fórmula 1 pertence ao espanhol Fernando Alonso, que atua aos 45 anos de idade.

Controvérsias de direitos humanos e acusações de sportswashing

Embora a categoria celebre a expansão global, a escolha do governo ruandês provocou duras reações de organizações da sociedade civil. A parceria de dez anos foi classificada como uma tentativa de encobrir violações internas por meio do prestígio esportivo, prática conhecida internacionalmente como sportswashing.

“Um grande prêmio de dez anos apresentado pela marca Visit Rwanda é um prêmio de sportswashing para as autoridades ruandesas. Ruanda está comprando espaço nos maiores esportes do mundo para polir sua imagem e desviar a atenção de seu histórico estarrecedor de direitos humanos. A Fórmula 1 afirma que o esporte pode ser uma força positiva para o bem. Isso soa vazio se a F1 ignora com quem está se associando. As autoridades de Ruanda são prolíficas em detenções arbitrárias, tortura e repressão à liberdade de expressão.”

— Felix Jakens, chefe de campanhas da Anistia Internacional no Reino Unido
Protestors outside Broadcasting House in London hold up signs protesting football teams taking sponsorship money from Rwanda
Protestors outside Broadcasting House in London hold up signs protesting football teams taking sponsorship money from Rwanda

Posicionamento do piloto sobre o papel social da corrida

Questionado sobre as críticas humanitárias, Hamilton defendeu que a realização da etapa pode representar um impacto positivo para o continente e defendeu uma ampliação da conscientização sobre a realidade africana.

“Estou muito, muito esperançoso em relação a esse grande prêmio. Claro, eu não escolho para onde vamos, e naturalmente há problemas em todo o mundo hoje em dia, então já vi muitas histórias, mas acho que realmente temos que abordar isso com humildade. Há muito que não sabemos. Digo, crescendo na Inglaterra, nunca nos ensinaram nada sobre a África. Isso precisa estar no currículo escolar. Muitos dos problemas que eles enfrentam lá ainda são resultados do colonialismo e da intervenção do Ocidente.”

— Lewis Hamilton

O britânico complementou sua visão ressaltando a relevância geopolítica do território e a necessidade de não ignorar as pautas humanitárias globais durante a passagem da categoria automobilística pela região.

“Eu realmente espero, e ainda tenho esperanças, de que a África se una. Sei que há muitas pessoas que não querem que isso aconteça, porque eles seriam muito poderosos se fizessem isso, mas ainda tenho esperança de que em algum momento se unirão. Ir até lá não significa que você negligencia as coisas que estão acontecendo no local. Espero que muitas pessoas comecem a se educar um pouco mais sobre o que ocorre lá, o que acontece lá há centenas de anos, e espero que isso acenda a conversa. Para encerrar, acho que precisamos garantir que estamos pressionando para libertar o Congo, libertar o Sudão, libertar a Síria, libertar a Palestina. Acho que há muita paz que espero que alcancemos em algum momento.”

— Lewis Hamilton
Lewis Hamilton planeja estender carreira até 2030 por GP na África
Foto: The Guardian — World (internacional)

A estratégia de eventos e o contexto da disputa nas pistas

O projeto do autódromo e da etapa de Fórmula 1 conta com respaldo direto do governo de Ruanda e do Conselho de Desenvolvimento de Ruanda (Rwanda Development Board). As autoridades locais planejam utilizar o complexo em Bugesera não apenas como sede do automobilismo, mas como um polo de atração turística voltado a alavancar a economia nacional.

Nos últimos anos, o país intensificou seus investimentos esportivos e recebeu ou programou os seguintes acontecimentos internacionais:

  • Campeonatos Mundiais de Ciclismo de Estrada;
  • Women's Challenge Trophy de críquete;
  • Congresso da Federação Internacional de Futebol (Fifa) realizado em 2023;
  • Basketball Africa League (liga continental de basquete).

Enquanto os planos para Ruanda miram o longo prazo, a Fórmula 1 mantém foco imediato na definição do campeonato durante o Grande Prêmio dos Estados Unidos. O jovem piloto italiano Kimi Antonelli, da Mercedes, chega ao fim de semana com a chance de assegurar o primeiro título mundial de sua carreira aos 20 anos. Antonelli lidera com 102 pontos de vantagem sobre o companheiro de equipe George Russell e se tornará o campeão mais jovem da história caso vença a corrida, Russell cruze em nono lugar ou pior e Hamilton complete a disputa na quinta posição ou abaixo.

Fonte: The Guardian — World (internacional) — matéria original publicada em theguardian.com. Imagens e vídeos: The Guardian — World (internacional). Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.