A Cidade Velha de Hebron, na Cisjordânia ocupada, está se transformando em uma verdadeira 'cidade fantasma' para seus moradores palestinos, devido à intensificação das restrições de movimento impostas pelas autoridades israelenses. Checkpoints, portões de ferro e o fechamento de estradas tornaram tarefas cotidianas em um calvário desanimador, afetando a vida de milhares de pessoas e sufocando a economia local.
Restrições Aumentam na Cidade Velha
Recentemente, as autoridades israelenses instalaram três novos portões de ferro em um trecho de apenas 200 metros (equivalente a 0,2 dunams ou 200 metros quadrados) da Cidade Velha de Hebron. Essas estruturas fazem parte de uma série de medidas que visam restringir a liberdade de movimento dos palestinos na cidade.
O prefeito de Hebron, Yousef al-Jabari, informou que um dos portões foi erguido na Estrada al-Zahid, a única rota acessível a veículos que chegam à entrada da Cidade Velha. Um segundo foi colocado no início da Rua al-Shalala, que conecta lojas à área de Bab al-Zawiya, no centro da cidade. Um terceiro portão foi instalado em outra seção da Rua al-Shalala, uma via utilizada por pedestres para acessar a área comercial.
Essas novas barreiras se somam a uma complexa rede de restrições de viagem em toda a Cisjordânia ocupada. No entanto, Hebron, que possui uma forte presença de colonos israelenses, é uma das cidades palestinas mais afetadas. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), aproximadamente 40% dos 89 checkpoints na Cisjordânia e 11% de todos os 925 obstáculos de movimento estão localizados na área H2 de Hebron, que está sob controle israelense rigoroso.
“Nossa presença na Cidade Velha é uma questão de firmeza, não da disponibilidade dos elementos necessários para a vida econômica.”
— Badr al-Tamimi, morador e comerciante de Hebron
Cerca de 7.000 palestinos que vivem em uma área de Hebron com centenas de colonos israelenses são diretamente impactados pelas últimas restrições de viagem. Desde outubro de 2023, com o início do conflito em Gaza, apenas palestinos com números de identificação específicos podem entrar nesta área. Os checkpoints na entrada desta zona geralmente operam apenas das 7h às 20h.

O Cotidiano de Badr al-Tamimi e a Paralisia Econômica
Badr al-Tamimi, um morador de 60 anos do bairro al-Sheikh, adjacente à famosa Mesquita Ibrahimi, possui uma loja na Cidade Velha. Sua rotina, como a de muitos outros, é marcada por longas esperas e incertezas nos checkpoints. O tempo de deslocamento de um palestino pode ser decidido pelo humor de um soldado que opera o posto de controle.
Worshippers que tentam acessar a Mesquita Ibrahimi frequentemente são retidos por horas pelos soldados. Al-Tamimi relata que “eles podem permitir que um número limitado de pessoas entre, enquanto outros são forçados a esperar, e o movimento dos residentes é interrompido durante incursões, feriados judaicos e as medidas de segurança associadas”.
Os fechamentos repetidos paralisaram a atividade econômica em Hebron, tornando cada vez mais difícil para lojas e empresas operarem. Al-Tamimi enfatiza que a presença palestina na Cidade Velha é um ato de resistência, e não um reflexo de uma vida econômica viável.
Antes da ocupação israelense em 1967, Hebron era uma cidade vibrante, com lojas e mercados movimentados, e os moradores podiam se mover livremente entre os bairros, o que impulsionava a economia. A situação mudou drasticamente em 1994, após o massacre na Mesquita Ibrahimi, quando um colono israelense nascido nos EUA assassinou 29 fiéis palestinos. A partir desse ponto, a geografia da Cidade Velha foi alterada, isolando-a de seus arredores, segundo al-Tamimi. Ele cita a Rua Shuhada, antes uma artéria vital para transporte e comércio, que foi transformada por fechamentos e restrições.
“Eles cometeram o crime, mas continuam a nos punir por isso.”
— Badr al-Tamimi, morador e comerciante de Hebron

A Divisão de Hebron e a Intensificação das Medidas
Em 1997, o Protocolo de Hebron foi assinado entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel, dividindo a cidade em duas zonas: H1, sob relativa jurisdição palestina, e H2, que inclui a Cidade Velha, a Mesquita Ibrahimi e assentamentos ilegais, que permaneceu sob controle de segurança israelense.
Issa Amro, coordenador do grupo Youth Against Settlements (Jovens Contra Assentamentos), afirma que as proibições israelenses se intensificaram com a eclosão da segunda Intifada em 2000, quando Hebron se tornou um centro do levante. Durante esse período, vastas áreas da cidade foram isoladas, lojas foram forçadas a fechar e os moradores frequentemente ficavam confinados em suas casas ou bairros.
Desde o início do conflito em Gaza, em 7 de outubro de 2023, o número de checkpoints em Hebron aumentou para 32, e outros obstáculos que impedem o movimento palestino agora excedem 130. As “zonas fechadas”, designadas pelas autoridades israelenses como áreas de atividade militar com acesso restrito a palestinos, expandiram-se ao redor da Mesquita Ibrahimi e dos assentamentos ilegais no coração da cidade.
“As restrições de movimento estão efetivamente mantendo os residentes como reféns.”
— Issa Amro, coordenador do grupo Youth Against Settlements
O prefeito al-Jabari estima que aproximadamente 10.000 palestinos na Cidade Velha e nas zonas fechadas circundantes são afetados por essas medidas. Algumas partes de Hebron são inacessíveis a veículos, e os residentes palestinos estão sujeitos a toques de recolher dois ou três dias por semana, geralmente nos fins de semana. Ele acredita que essas restrições visam dificultar a capacidade dos palestinos de retornar para casa e sufocar a vida em partes de Hebron.

Expansão dos Assentamentos e Impacto na Educação
Enquanto as restrições aos palestinos aumentam, as autoridades israelenses têm auxiliado os colonos a expandir sua presença na área, criando uma nova e sufocante realidade para os palestinos na cidade. O prefeito al-Jabari sugere que o atual governo israelense pode estar agindo para agradar os colonos antes das eleições deste mês, já que o controle de Hebron, sua Cidade Velha e a Mesquita Ibrahimi é uma questão central para os colonos, e políticos desse grupo ocupam cargos-chave no governo israelense. Isso coincide com um esforço concentrado das autoridades israelenses para consolidar a presença de colonos na cidade e arredores.
“A apreensão de edifícios e terras, juntamente com a instalação de portões, é uma continuação das políticas israelenses que estão em vigor há décadas. Isso inclui o fechamento da Rua Shuhada e o fechamento de mais de 500 lojas, bem como o estabelecimento de postos avançados de assentamentos e posições militares dentro da Cidade Velha.”
— Yousef al-Jabari, prefeito de Hebron
Al-Jabari observou um aumento nas restrições à liberdade de movimento dos palestinos no último mês, medidas que, segundo ele, sem dúvida agradarão os colonos. Em resposta, o município de Hebron tem apresentado ações judiciais em tribunais israelenses, apesar de seu ceticismo quanto à imparcialidade do judiciário.
A vida para os palestinos está piorando, tornando o trabalho, a vida e a educação uma luta diária. Israel alega razões de segurança para a instalação de mais checkpoints e portões de ferro em Hebron, mas não há tais restrições para os colonos. Desde 2015, Israel limitou o número de residentes palestinos de zonas fechadas que podem passar por esses checkpoints. Estudantes e professores frequentemente têm suas mochilas revistadas por soldados israelenses ou são detidos.
Ayat al-Jabari, uma professora de ciências de 40 anos, trabalhou por um ano na Escola Qurtuba, localizada perto da Rua Shuhada fechada, antes de ser transferida para sua posição atual na Escola Al-Fayha, perto da Mesquita Ibrahimi. Embora o trajeto de sua casa até a Escola Qurtuba devesse levar apenas cinco minutos, muitas vezes demorava uma hora. Em sua inquietante rota matinal por um cemitério próximo, muitas vezes na escuridão durante os meses de inverno, colonos e soldados frequentemente apareciam no cemitério para bloquear o caminho dos palestinos ou abusá-los.
“Todos os dias, eu era forçada a fazer um longo caminho e caminhar por um cemitério para evitar passar pelo checkpoint, pois não possuo um número [de cartão de identificação especial]. Mesmo aqueles que possuem números às vezes são forçados a seguir esse caminho para escapar dos humores dos soldados.”
— Ayat al-Jabari, professora de ciências
Após se mudar para a Escola Al-Fayha, al-Jabari esperava que seu trajeto melhorasse, mas a situação não é melhor do que antes. “Sempre que chegam os feriados judaicos, essas escolas são fechadas porque todos os alunos vivem em áreas sujeitas a um bloqueio total, a ponto de os residentes serem proibidos até de abrir suas portas da frente”, ela explica.

O que isso significa para a região
A situação em Hebron, com a intensificação das restrições de movimento e a criação de uma 'cidade fantasma', representa um cenário de grave crise humanitária e econômica para os palestinos. A paralisia do comércio, a dificuldade de acesso a serviços básicos como educação e saúde, e a constante ameaça de violência e assédio transformam a vida diária em um desafio insustentável. Para a região do Norte Pioneiro do Paraná, embora distante geograficamente, a notícia ressoa como um lembrete da importância da liberdade de circulação e do impacto devastador que conflitos e políticas de segregação podem ter sobre a vida das pessoas e o desenvolvimento de comunidades. A resiliência dos palestinos em Hebron, que se recusam a abandonar suas casas e negócios apesar das adversidades, é um testemunho da força humana diante da opressão.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
