A corrida eleitoral para o Senado dos Estados Unidos pelo estado do Texas ganhou um capítulo incomum e de forte repercussão partidária. Neil Bush, irmão do ex-presidente republicano George W. Bush e filho do também falecido ex-presidente George H.W. Bush, anunciou publicamente que votou no candidato do Partido Democrata, James Talarico. A manifestação foi divulgada em publicação feita nas redes sociais em uma terça-feira, a poucos dias da votação decisiva marcada para 3 de novembro de 2026.

A decisão de apoiar um adversário político decorre, de acordo com o próprio Neil Bush, de profundas ressalvas em relação à conduta e ao histórico do postulante republicano à vaga, o atual procurador-geral do Texas, Ken Paxton. O posicionamento do membro de uma das famílias mais tradicionais do conservadorismo norte-americano expõe de forma contundente as fraturas internas vividas pela legenda republicana no estado, considerado historicamente um dos maiores redutos do partido no país.

Ruptura pública na tradicional dinastia republicana

A família Bush construiu laços históricos profundos com a política do Texas e com a estrutura nacional do Partido Republicano. Antes de governar os Estados Unidos por dois mandatos, entre 2001 e 2009, George W. Bush ocupou o cargo de governador do Texas. Contudo, nos últimos anos, o ex-mandatário se afastou de maneira considerável da vida partidária pública e tem evitado declarar apoio formal a candidatos nas disputas eleitorais mais recentes.

Apesar da discrição do ex-presidente, outros integrantes da família têm manifestado insatisfação com os rumos do partido. Além da manifestação de voto explícita de Neil Bush, Barbara Bush, filha de George W. Bush, também sinalizou simpatia e alinhamento à candidatura de Talarico, realizando doações financeiras para um comitê de ação política (PAC) organizado para respaldar a campanha do democrata na disputa estadual.

Irmão de George W. Bush apoia candidato democrata ao Senado no Texas
Foto: Al Jazeera — Internacional

As justificativas de Neil Bush e as críticas a Ken Paxton

Ao explicar sua posição publicamente, Neil Bush destacou que a reprovação à postura do candidato republicano não se trata de uma visão isolada, mencionando inclusive processos disciplinares e investigações anteriores que atingiram o procurador-geral texano durante o exercício do mandato público.

Minhas preocupações sobre seu julgamento e conduta não são apenas minhas. Ele sofreu impeachment pela Câmara dos Deputados do Texas, controlada pelos republicanos, embora tenha sido absolvido posteriormente pelo Senado do Texas.

— Neil Bush

Entre os episódios que motivaram sua rejeição à candidatura conservadora, Bush apontou diretamente o envolvimento ativo de Paxton na contestação jurídica infundada das eleições presidenciais de 2020, quando o então procurador liderou iniciativas judiciais para tentar invalidar os resultados eleitorais em outros estados americanos com a finalidade de favorecer Donald Trump.

Fiquei profundamente preocupado com a conduta de Paxton como procurador-geral do Texas, particularmente com sua decisão de contestar os resultados da eleição presidencial de 2020 em outros estados em um esforço para ajudar Donald Trump a permanecer no poder. Acredito que esse esforço foi uma afronta às nossas instituições democráticas e à transição pacífica de poder.

— Neil Bush
Irmão de George W. Bush apoia candidato democrata ao Senado no Texas
Foto: Al Jazeera — Internacional

Divisões internas no Partido Republicano e a influência de Donald Trump

A ascensão de Ken Paxton como o nome do partido para a cadeira no Senado federal foi consolidada após uma acirrada disputa interna. No segundo turno das primárias republicanas, realizado em 26 de maio de 2026, Paxton derrotou o experiente senador em exercício John Cornyn, garantindo a indicação formal da legenda para a eleição geral.

O desfecho da primária contou com a interferência direta do ex-presidente Donald Trump, que declarou endosso oficial a Paxton em 19 de maio de 2026, uma semana antes da votação partidária. Na ocasião, Trump atacou o senador titular Cornyn, afirmando por meio de comunicado que o parlamentar não havia lhe dado suporte em momentos de dificuldade, ao mesmo tempo em que exaltou Paxton definindo-o como um verdadeiro guerreiro do movimento político conservador.

Essa ingerência gerou inquietação e frustração entre setores republicanos tradicionais do Texas. Lideranças locais apontavam receios de que a vulnerabilidade política de Paxton, acentuada pelo processo de impeachment estadual que enfrentou e por outros escândalos associados à sua trajetória pública, pudesse fragilizar a hegemonia da agremiação no estado durante o confronto contra a oposição democrata.

Cenário eleitoral e a disputa pelo controle do Senado

A vaga aberta no Texas tornou-se um dos campos de batalha mais estratégicos do calendário eleitoral nacional. Nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro de 2026, estarão em disputa 35 das 100 cadeiras que compõem o Senado dos Estados Unidos. Os democratas concentram esforços e recursos na tentativa de conquistar o controle majoritário da Casa legislativa.

Na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, o candidato democrata James Talarico realizou um ato público e discursou para apoiadores na cidade de Houston, intensificando a mobilização na reta final da campanha. A corrida no estado é considerada altamente competitiva e fora dos padrões históricos habituais para o eleitorado texano.

Pesquisas de intenção de voto e o histórico eleitoral no Texas

Tradicionalmente visto como uma fortaleza do conservadorismo norte-americano, o Texas não elege um senador pelo Partido Democrata desde 1988. Entretanto, os levantamentos eleitorais recentes apontam um cenário de equilíbrio técnico entre os dois concorrentes, desafiando a hegemonia mantida pelos republicanos há quase quatro décadas.

Um levantamento do instituto Marist, divulgado em 14 de outubro de 2026, mostrou Talarico na liderança com 47% das intenções de voto, contra 45% registrados por Ken Paxton. A margem estreita reflete tanto o engajamento da base democrata quanto o desgaste gerado pelas divisões entre os republicanos locais, que veem nomes tradicionais do próprio partido se afastarem publicamente do candidato oficial indicado para o Senado.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.