Monróvia, Libéria – Um acordo entre os Estados Unidos e a Libéria para a deportação de até 1.200 pessoas para o país africano nos próximos 12 meses começou a ser implementado, com a chegada do primeiro grupo de deportados na quinta-feira, 20 de agosto de 2026. A medida, anunciada apenas dois dias antes do voo, gerou uma série de questionamentos sobre soberania, direitos humanos e o status legal dos indivíduos transferidos.

Chegada e Incertezas Iniciais

O primeiro grupo de deportados desembarcou no Aeroporto Internacional Roberts, próximo à capital Monróvia, e foi imediatamente levado em um ônibus por autoridades liberianas. A localização exata para onde foram levados, sua liberdade de movimento e seu status legal permanecem incertos. Samwar Fallah, um advogado de Monróvia que está auxiliando as famílias dos deportados, relatou ter recebido ligações de pessoas nos Estados Unidos buscando informações sobre 20 parentes enviados à Libéria, um país do qual nenhum deles é cidadão.

Fallah, que trabalha pro bono com dois advogados de imigração dos EUA, expressou sua preocupação com a falta de clareza. Ele destacou a dificuldade em informar às famílias se seus parentes poderão se estabelecer na Libéria, escolher seu destino ou até mesmo retornar aos EUA. O advogado evita usar o termo 'deportados' porque o governo liberiano ainda não definiu o status legal dessas pessoas sob a legislação local.

“Não se pode realocar um cidadão de um país para outro sem informações claras sobre o porquê essa pessoa foi realocada”, afirmou Samwar Fallah à Al Jazeera. “Imagine você vindo talvez de El Salvador e descobrindo que está em um avião para a Libéria.”

A prática de deportação para um terceiro país, ou seja, o envio de indivíduos para uma nação diferente de sua cidadania, levanta sérias questões sobre o poder executivo, a soberania nacional e os direitos dos transferidos.

'Hóspedes da República' e Esclarecimentos Governamentais

O governo liberiano descreveu o arranjo com os EUA como humanitário e garantiu que os deportados não estão detidos. Jerolinmek Piah, Ministro da Informação, declarou que os transferidos seriam recebidos como “hóspedes da República”, com liberdade para sair e buscar asilo. Piah justificou a decisão, citando a história da Libéria como um assentamento para pessoas negras livres e ex-escravizadas dos EUA, e como um país cujos cidadãos buscaram proteção no exterior durante 14 anos de guerra civil.

“O gesto da Libéria é inteiramente humanitário e está em conformidade com as tradições de longa data do país”, disse Piah.

O ministro também enfatizou que a Libéria não arcará com os custos. A acomodação, alimentação e eventuais viagens futuras seriam cobertas pelo governo dos EUA e por uma organização parceira internacional. No entanto, o governo não forneceu detalhes adicionais sobre os recém-chegados, incluindo suas nacionalidades completas, onde estão sendo alojados, os documentos legais sob os quais entraram na Libéria ou a identidade da organização internacional envolvida.

A agência de notícias Reuters informou na sexta-feira que cinco dos deportados se recusaram a deixar o avião e foram transportados para a Guiné Equatorial. A Al Jazeera não verificou essa informação de forma independente. Natu Oswald Tweh, Ministro da Justiça, afirmou que a Libéria revisa cada lista de passageiros e pode rejeitar qualquer pessoa. Ele mencionou que a maioria dos deportados tinha “violações e ofensas de imigração”. Contudo, os critérios de triagem do governo não foram publicados, nem foi informado se algum dos recém-chegados possuía ordens de proteção dos EUA que impedissem seu retorno aos seus países de origem. A Al Jazeera apurou que a maioria dos deportados é de países latino-americanos, incluindo Venezuela e Cuba.

Liberia
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Apesar da declaração de Piah de que o grupo estaria livre para sair, jornalistas não foram autorizados a falar com eles no aeroporto. Os indivíduos desceram as escadas da aeronave, embarcaram em um ônibus e foram levados sob supervisão oficial. O termo “hóspedes” não estabelece um status legal claro sob a lei liberiana, deixando em aberto questões sobre permissões temporárias, direito ao trabalho ou a necessidade de solicitar asilo ou residência.

Controvérsia Legislativa e Capacidade Estatal

A legalidade do acordo foi questionada por políticos liberianos. O Senador Samuel Kogar, do Condado de Nimba, citou o Artigo 57 da Constituição da Libéria, que exige a “concorrência da maioria de cada Casa da Legislatura” para que o presidente conduza assuntos externos e conclua tratados e acordos. Kogar questionou se o arranjo foi aprovado pelo legislativo.

O governo defende que o acordo se baseia em notas diplomáticas trocadas em 4 e 10 de setembro do ano passado. No entanto, a maioria dos liberianos só tomou conhecimento da medida em agosto, apesar de o texto ter aparecido no site do Departamento de Estado dos EUA em março, segundo o projeto Third Country Deportation Watch, operado pela Refugees International e Human Rights First.

Anthony F. Williams, membro de comitês da Câmara que abrangem segurança nacional, direitos humanos e relações exteriores, rejeitou a ideia de que o executivo poderia agir sozinho.

“Nenhum acordo que envolva a segurança nacional deste país, a soberania do país, pode ser celebrado apenas pelo poder executivo”, declarou Williams à Al Jazeera.

Com o legislativo em recesso até outubro, Williams prometeu buscar respostas sobre alojamento, saúde, triagem e a autoridade da Libéria para deter ou remover qualquer pessoa. Suas preocupações não se limitam à chegada dos deportados, mas também à capacidade do Estado liberiano. Ele apontou a falta de sistemas biométricos e pessoal treinado para documentar até 1.200 pessoas se deslocando por condados ou fronteiras porosas, além do risco de que aqueles que fugiram de perseguição possam ser rastreados pelos governos que escaparam.

Libéria Recebe Deportados dos EUA em Acordo Controverso
Foto: Al Jazeera — Internacional

Eddie Jarwolo, diretor executivo da NAYMOTE Partners for Democratic Development, criticou a falta de um plano público sobre como a Libéria acomodaria os recém-chegados sem sobrecarregar ainda mais os serviços públicos. Ele ressaltou que grupos da sociedade civil não foram consultados e pediu monitoramento independente das condições de vida, gastos e conformidade legal.

Possíveis Trocas Diplomáticas

O governo liberiano insiste que não recebeu pagamento ou recompensa diplomática por aceitar as transferências. Contudo, críticos exigem a divulgação das negociações. O acordo surgiu em meio a várias decisões dos EUA que afetam a Libéria. Em 9 de dezembro de 2025, os dois países assinaram um memorando de saúde de cinco anos no valor de US$ 124 milhões (US$ 124 million). Washington também estendeu a validade dos vistos de visitante B1/B2 para liberianos de 12 para 36 meses.

A Al Jazeera já havia noticiado que essas medidas seguiram o acordo da Libéria em aceitar Kilmar Abrego Garcia, cuja remoção equivocada dos EUA para uma prisão salvadorenha se tornou um ponto de tensão político e legal. Os EUA posteriormente buscaram permissão judicial para enviá-lo à Libéria. Enquanto isso, os vistos de imigrante para liberianos foram suspensos em janeiro, de acordo com o Third Country Deportation Watch, e os EUA concederam à Libéria US$ 5 milhões este ano para gestão de migração. Nenhum dos governos estabeleceu publicamente uma ligação direta entre o acordo de deportação e as mudanças nos vistos.

Jarwolo, da NAYMOTE, defendeu que as duas nações deveriam divulgar se a extensão dos vistos estava ligada à aceitação de deportados de terceiros países.

“Se estivessem ligados, isso levantaria sérias preocupações sobre a posição negocial da Libéria, a soberania nacional e a segurança pública”, afirmou Jarwolo. “A assistência ao desenvolvimento não deveria exigir que a Libéria aceite indivíduos cujos antecedentes e status legal não foram divulgados de forma transparente e devidamente avaliados.”
Security guards stand outside a building in Marshall, a small beach town near Roberts International Airport, as deportees from the United States arrive in Liberia, August 20, 2026
Security guards stand outside a building in Marshall, a small beach town near Roberts International Airport, as deportees from the United States arrive in Liberia, August 20, 2026

William Sando, presidente da União Estudantil da Universidade da Libéria, soube do acordo pelo Facebook antes da confirmação do Ministro Piah. Ele rejeitou o argumento do ministro como “desconectado da realidade atual” e exigiu que o governo divulgasse onde os recém-chegados viverão e se aqueles que permanecerem poderão trabalhar.

“Eles não informaram adequadamente o povo liberiano”, disse Sando.

O Senador Kogar reiterou que as questões vão além da oposição à migração.

“Isto não é um problema pequeno”, disse ele. “Estamos falando da nossa soberania, das nossas leis, da nossa segurança nacional e da responsabilidade que temos para com o povo liberiano. Onde estamos nós, os liberianos?”

Imagens e vídeos da cobertura

William Sando, President, University of Liberia Student Union [Lennart Dodoo/Al Jazeera]
William Sando, President, University of Liberia Student Union [Lennart Dodoo/Al Jazeera]

Leitura da LZ7 Energia

A situação na Libéria, com a chegada de deportados e as incertezas sobre seu futuro e o impacto na infraestrutura local, ressalta a complexidade das políticas migratórias e seus reflexos na economia e nos serviços públicos. Embora não diretamente ligada ao setor de energia solar, a pressão sobre a infraestrutura de um país para acomodar um grande número de pessoas, como a Libéria está enfrentando, pode gerar demandas adicionais por recursos básicos, incluindo energia. Em regiões com infraestrutura energética limitada, a necessidade de expandir o acesso à eletricidade de forma sustentável, por exemplo, através de fontes como a solar, torna-se ainda mais premente para garantir condições mínimas de vida e desenvolvimento, tanto para os cidadãos locais quanto para os recém-chegados. A capacidade de um país de absorver e integrar novas populações está intrinsecamente ligada à robustez de seus serviços essenciais.

Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.