A Agência Marroquina de Energia Sustentável (Masen, órgão estatal responsável pela gestão e condução dos projetos de transição energética no país) deu início oficial à fase de pré-qualificação para o programa Noor PV Multisites. O processo licitatório internacional tem como objetivo viabilizar a implantação de uma capacidade mínima total de 350 MW em energia solar fotovoltaica, distribuída em diferentes províncias marroquinas.
Estrutura da concorrência e modelo de contratação
De acordo com as diretrizes divulgadas pela Masen, a concorrência será conduzida sob o modelo de contratação integrada EPC (Engenharia, Gestão de Compras e Construção, na sigla em inglês), comumente conhecido no mercado como regime 'chave na mão' (turnkey). A empresa ou consórcio vencedor ficará encarregado de todas as etapas de desenvolvimento técnico: elaboração do projeto executivo, fornecimento completo dos equipamentos e materiais, e execução das obras civis e eletromecânicas.
Além da entrega física das usinas concluídas, os termos estabelecidos pela agência determinam que a contratada assumirá também os serviços subsequentes de operação e manutenção (O&M) dos empreendimentos. Os interessados em participar da fase de qualificação têm até as 12h (horário local do Marrocos) do dia 30 de novembro para submeter suas candidaturas. Os editais e cadernos técnicos já se encontram acessíveis por meio da plataforma digital de compras eletrônicas da Masen.
Distribuição regional e capacidade dos empreendimentos
O certame estabelece que as instalações fotovoltaicas individuais terão potências nominais variando entre 40 MW e 170 MW cada. Conforme reportado pelo veículo especializado TaiyangNews, o escopo do programa Noor PV Multisites está estruturado em seis usinas no total, descentralizadas geograficamente para garantir equilíbrio à infraestrutura elétrica do território marroquino.
As seis usinas serão implantadas nas seguintes regiões administrativas:
- Casablanca-Settat: principal centro econômico e demográfico do país, com alta demanda por consumo energético industrial e urbano;
- Béni Mellal-Khénifra: região do interior marroquino, caracterizada por áreas agrícolas e relevo montanhoso;
- Marrakech-Safi: polo turístico e comercial de grande relevância, dotado de altos índices de irradiação solar;
- Souss-Massa: território no centro-sul do Marrocos, com vocação agrícola e industrial voltada à exportação;
- Guelmim-Oued Noun: porta de entrada para o sul marroquino e região de transição desértica, reconhecida pelo excelente potencial fotovoltaico.
Continuidade ao programa Noor Atlas e cronogramas
A nova rodada dá sequência direta à estratégia de expansão fotovoltaica da Masen, sucedendo o programa Noor Atlas, que contratou 305 MW de capacidade. No caso do Noor Atlas, a construção de seis usinas teve início formal no mês de março. Naquele programa, a Masen também estruturou o gerenciamento de operação e manutenção sob o regime de EPC e firmou contratos de compra e venda de energia (conhecidos no setor como PPAs) de longo prazo com o Escritório Nacional de Eletricidade e Água Potável (ONEE), a concessionária pública estatal de distribuição.
O cronograma oficial estabelecido para os complexos pertencentes ao programa Noor Atlas projeta que o comissionamento gradual e o início da injeção de eletricidade na rede ocorram a partir de julho de 2027. O modelo adotado para o novo lote de 350 MW deve seguir parâmetros contratuais de integração à rede semelhantes aos estabelecidos com a ONEE.
Panorama da matriz elétrica e metas renováveis
Os investimentos em grande escala têm acelerado a transformação da matriz marroquina. Durante o ano de 2025, o país adicionou 204 MW de capacidade fotovoltaica em usinas centralizadas (de grande porte), de acordo com estatísticas compiladas pela Autoridade Reguladora Nacional de Eletricidade (ANRE). Com essa expansão, a potência solar acumulada em operação de grande porte atingiu a marca de 1.285 MW, conforme dados mantidos pela concessionária estatal ONEE.
Até a metade de 2025, a participação total das fontes renováveis no parque gerador marroquino alcançou 45,5% da capacidade instalada. O índice aproxima o país da meta estabelecida pelas políticas públicas nacionais, que prevê que 52% de toda a capacidade de geração instalada seja de origem limpa até o ano de 2030. Os novos 350 MW do Noor PV Multisites são peça fundamental para suprir essa diferença percentual nos próximos quatro anos.
Expansão industrial, baterias e solar flutuante
A atração de projetos de geração vem acompanhada pelo desenvolvimento de uma cadeia industrial voltada à transição energética no Marrocos. A companhia chinesa Gotion High-Tech opera no território a primeira fábrica de baterias do continente africano. A unidade fabril é especializada na manufatura de células de fosfato de ferro-lítio (LFP), tecnologia de armazenamento químico voltada primordialmente ao abastecimento da indústria de veículos elétricos.
Simultaneamente às usinas convencionais de solo e ao parque fabril de armazenamento, pesquisadores constataram recentemente a viabilidade econômica para implantação de usinas solares fotovoltaicas flutuantes em reservatórios e represas hidrelétricas marroquinas. O aproveitamento da lâmina d'água surge como uma alternativa complementar para expandir a geração limpa sem a necessidade de ocupação de áreas agrícolas ou florestais no país.
Leitura da LZ7 Energia
A estruturação marroquina em leilões centralizados de modelo EPC turnkey reflete uma tendência global que também impacta os consumidores brasileiros e os agentes de geração no Norte Pioneiro. Ao contratar projetos com operação e manutenção vinculadas e prazos rígidos de conexão, reduz-se o custo nivelado da energia (LCOE). Além disso, a combinação de geração fotovoltaica com a fabricação local de baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) demonstra como o armazenamento energético é etapa obrigatória para suportar frentes renováveis acima de 45% da matriz, movimento que começa a ganhar urgência técnica e regulatória no mercado elétrico brasileiro.
Fonte: PV Magazine — Solar global — matéria original publicada em pv-magazine.com. Imagens e vídeos: PV Magazine — Solar global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
