Em um raro momento de diálogo diplomático em meio a crescentes tensões, os ministros das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, e da Rússia, Sergey Lavrov, se encontraram em Nova York. A reunião ocorreu à margem da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no sábado, 26 de setembro de 2026, e foi o primeiro encontro entre os chefes da diplomacia dos dois países desde a invasão russa da Ucrânia em 2022.
De acordo com Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, o encontro foi solicitado pela parte alemã e precedeu o discurso de Lavrov aos líderes mundiais na Assembleia Geral.
Apelo Alemão e Críticas Russas
Durante as conversas, o ministro alemão Johann Wadephul instou a Rússia a abandonar seu “perigoso caminho de escalada” nas relações com a Alemanha, a Europa e a OTAN. A posição alemã reflete a deterioração das relações diplomáticas entre Berlim e Moscou, que se agravaram ainda mais após um incidente com drones no aeroporto de Leipzig, no leste da Alemanha, no mês anterior, pelo qual Berlim culpou a Rússia. Moscou, por sua vez, negou veementemente qualquer envolvimento e acusou a Alemanha de fabricar provas.
Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Lavrov criticou a Alemanha, afirmando que o país não é apenas o “principal patrocinador” de Kyiv (a capital da Ucrânia), mas também busca ser uma potência militar líder na Europa. Ele questionou: “Berlim entende aonde isso pode levar? Eles… não aprenderam as lições da Segunda Guerra Mundial?”

Após seu discurso na ONU, Lavrov concedeu uma coletiva de imprensa onde expressou que não havia aprendido nada de novo com seu homólogo alemão que Berlim já não tivesse declarado publicamente em seus comunicados oficiais.
“Eu disse a ele, francamente… você poderia simplesmente ter me ligado e dito: ‘Leia minha declaração’”, afirmou Lavrov.
Apesar das declarações públicas, funcionários de ambos os lados confirmaram que os ministros discutiram os laços bilaterais e a guerra na Ucrânia.
Crise de Grãos e Navegação no Mar Negro
Um dos pontos cruciais da discussão foi a questão das exportações de grãos pelo Mar Negro. Uma fonte da delegação alemã, citada pela agência de notícias Reuters, informou que Wadephul instou Lavrov a fazer “todo o possível para chegar a um acordo sobre as exportações de grãos via Mar Negro”.
O encontro acontece em meio a esforços diplomáticos para reativar as exportações de grãos e energia da Rússia e da Ucrânia pelo Mar Negro, que foram restringidas por ataques a navios e infraestruturas portuárias. Lavrov, na coletiva de imprensa, mencionou que a Rússia tem mantido conversas com Índia, Egito e Turquia sobre propostas para garantir a navegação segura na região. Ele enfatizou a necessidade de discussões separadas com os ucranianos, “e não na linguagem de pedidos, mas sim de exigências”, culpando a Ucrânia pelos ataques a navios. Kyiv, por sua vez, declarou estar aberta a acordos e atribui todas as consequências da guerra à Rússia e à sua invasão.
![Russian Foreign Minister Sergey Lavrov addresses the 81st United Nations General Assembly at UN headquarters in New York City, US, September 26, 2026 [Eduardo Munoz/Reuters]](https://www.aljazeera.com/wp-content/uploads/2026/09/2026-09-26T163424Z_2031465268_RC24RNAWVQ7H_RTRMADP_3_UN-ASSEMBLY-1790476122.jpg?w=1280&resize=770%2C513&quality=80)
Comunicação com Aliados Europeus
Após a reunião, Wadephul informou seus aliados europeus sobre o teor da conversa em uma mensagem, vista pela Reuters. Ele reiterou a posição alemã em relação à guerra na Ucrânia.
“Aproveitei esta oportunidade para reiterar nossa posição sobre a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e para pedir um cessar-fogo imediato e completo, com foco mais urgente nas exportações de grãos e na infraestrutura energética”, escreveu Wadephul.
Contexto das Tensões
As relações diplomáticas entre Berlim e Moscou estão congeladas desde a invasão russa da Ucrânia em 2022. Além do incidente com drones em Leipzig, países europeus têm associado a Rússia a incursões de drones perto de aeroportos, bases militares e infraestruturas críticas em todo o continente no último ano, aumentando o clima de desconfiança e escalada.
Este encontro, embora não tenha resultado em avanços imediatos, representa um raro canal de comunicação direta entre duas potências com papéis centrais no cenário geopolítico atual, especialmente no que tange à guerra na Ucrânia e suas ramificações globais.
Leitura da LZ7 Energia
A instabilidade geopolítica, como a guerra na Ucrânia e as tensões entre grandes potências, tem um impacto direto e significativo no setor de energia. A discussão sobre as exportações de grãos e energia pelo Mar Negro é um exemplo claro. Interrupções nas rotas de transporte ou na produção de commodities essenciais, como gás e petróleo, podem causar flutuações drásticas nos preços globais, afetando diretamente o custo da energia para consumidores e empresas, inclusive no Norte Pioneiro do Paraná. A segurança energética, que inclui a diversificação de fontes e a estabilidade das cadeias de suprimentos, torna-se ainda mais crucial em cenários de conflito, reforçando a importância de investimentos em fontes renováveis e autossuficiência para mitigar riscos externos.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
