Um relatório da Polícia Federal (PF), divulgado após a recente retirada do sigilo das investigações pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), lançou luz sobre a relação entre o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), e o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro. O documento, que faz parte da apuração do caso Master, indica que o ex-banqueiro teria atuado para que o Rioprevidência, fundo responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores públicos fluminenses, realizasse aportes financeiros em sua instituição.
A investigação da PF detalha um tratamento informal e próximo entre Castro e Vorcaro, sugerindo uma relação que vai além do âmbito profissional. A corporação aponta que essa proximidade teria sido um fator para os investimentos do Rioprevidência, que totalizaram R$ 3,7 bilhões, em Letras Financeiras e fundos do Banco Master.
A Proximidade Revelada pela PF
O relatório da Polícia Federal apresenta diversos exemplos que demonstram a informalidade e os 'laços de amizade' entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. As comunicações analisadas pela PF mostram um tratamento pessoal entre os dois, com convites e elogios mútuos.
Em dezembro de 2024, por exemplo, Vorcaro elogiou Castro após uma missa, com a frase: “Canta demais!”. A resposta do então governador foi reveladora: “Vc é meu amigo, não conta”.
Meses depois, em março de 2025, a informalidade se manteve. Vorcaro convidou Castro para uma feijoada: “Fala meu irmão. Tudo bem? Vamos nos ver essa semana algum dia! Amanha vou fazer uma feijoada, se puder ir com a esposa”. Castro respondeu prontamente: “Fala irmão. Seja bem vindo. Manda o endereço que vou sim. Te dou um abraço lá”.
Ainda em março de 2025, Castro pediu contato para acessar o camarote do ex-banqueiro sem esperar na entrada, ao que Vorcaro respondeu: “Fala meu irmão. Claro. Me fala a hora que peco alguem te pegar la e trazer. Pegar no seu”. A PF afirma que esses e outros encontros confirmam a existência de 'laços de amizade' entre os dois.
Esse cenário de eventos petit comitê prestigiados pela presença do governador eram sucedidos de aportes massivos do Rioprevidência nas letras financeiras, ou, posteriormente, no portfólio de fundos apresentados pelo Banco Master. De modo que se infere, de maneira contundente, que dali eram concebidos os investimentos em títulos podres operacionalizados pelos gestores da autarquia previdenciária, devidamente nomeados para esta finalidade.
A conclusão da PF, conforme trecho do relatório, é de que esses encontros precediam ou coincidiam com os investimentos do Rioprevidência, levantando sérias questões sobre a natureza e a legalidade dessas operações.

Cronologia de Encontros e Aportes Milionários
A Polícia Federal elaborou uma linha do tempo detalhada, que correlaciona os encontros entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro com os aportes financeiros realizados pelo Rioprevidência no Banco Master. Segundo a investigação, os investimentos do fundo, que alcançaram a cifra de R$ 3,7 bilhões, foram 'permeados, com coincidência temporal', pelos encontros entre o ex-banqueiro e o ex-governador.
A cronologia apresentada no relatório é a seguinte:
- 12 de maio de 2023: Jantar em Nova York, com despesa de R$ 66.000 paga por Vorcaro.
- 27 de julho de 2023: Encontro entre Castro e Vorcaro, três meses antes do primeiro aporte do Rioprevidência.
- 6 de novembro de 2023: Encontro dias após o primeiro aporte do Rioprevidência.
- 4 de março de 2024: Encontro.
- 11 de março de 2024: Novo encontro.
- 14 de março de 2024: Encontro em Nova York, período em que Castro participava do Lide Brazil Investment Forum.
- 14 de maio de 2024: Degustação de bebidas em Nova York, com a presença de Castro e Vorcaro.
- 17 de maio de 2024: Novo encontro.
As investigações apontam que o Rioprevidência realizou um total de 9 aportes financeiros no Banco Master, distribuídos entre novembro de 2023 e julho de 2024. Essa sequência de eventos reforça a tese da PF sobre a 'coincidência temporal' entre a relação pessoal e as decisões financeiras de grande vulto.

Trocas na Gestão do Rioprevidência
A Polícia Federal também destaca em seu relatório as mudanças na gestão do Rioprevidência promovidas por Cláudio Castro em um período crucial. Entre julho e outubro de 2023, o ex-governador realizou três nomeações estratégicas no fundo, conforme apurado pelo Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ):
- Deivis Marcon Antunes: Nomeado como diretor-presidente.
- Euchério Lerner Rodrigues: Nomeado como diretor de Investimentos.
- Pedro Pinheiro Guerra Leal: Nomeado como gerente de Investimentos.
A PF ressalta que a nomeação de Euchério Rodrigues ocorreu em 4 de outubro de 2023, mesma data em que o Banco Master enviou um e-mail ao Rioprevidência solicitando credenciamento, procedimento essencial para receber aportes do fundo. No mesmo dia, Pedro Leal iniciou a análise do processo. Apenas 12 dias após o envio do e-mail, Pedro Leal informou, em ofício à gerência interna do Rioprevidência, que o banco de Daniel Vorcaro atendia a todos os requisitos.
Deivis Antunes, segundo as investigações, 'era o responsável por dar guarita' tanto a Euchério Rodrigues quanto a Pedro Leal, 'permitindo que eles aplicassem os recursos previdenciárias de forma irregular ao alvedrio da organização criminosa instalada na Rioprevidência'.
Foram nomeados com o propósito de praticarem o crime de gestão fraudulenta, pois ocuparam os 3 cargos que tinham o poder de decisão sobre o credenciamento do Banco Master, a análise dos respectivos investimentos e a definição dos investimentos do Rioprevidência. Os agentes operacionalizaram toda a dinâmica de investimento de Letras Financeiras com um almanaque de irregularidades, inclusive contrariando a Política de Investimentos da Rioprevidência, demonstrando de forma clara e objetiva o propósito espúrio e ilícito da conduta dos operadores da gestão fraudulenta.
A PF conclui que as nomeações tiveram o propósito de facilitar a 'gestão fraudulenta', uma vez que os três ocupavam cargos com poder de decisão sobre os investimentos. O relatório ainda aponta que os gestores nomeados por Castro tomaram decisões que contrariavam a política de investimentos do Rioprevidência, que 'sempre seguiu um parâmetro de aplicação em renda fixa e/ou de baixo risco, isto é, conservador, pois sempre atenderam ao equilíbrio atuarial'.
O Outro Lado da Investigação
O veículo Poder360, responsável pela apuração original, buscou contato com a assessoria do ex-governador Cláudio Castro para que se manifestasse sobre as investigações da Polícia Federal. No entanto, não houve resposta até a publicação do texto. A reportagem também não conseguiu estabelecer contato com Deivis Marcon Antunes, Euchério Lerner Rodrigues e Pedro Pinheiro Guerra Leal. O espaço permanece aberto para manifestações futuras de todos os citados.
O que isso significa para a região
Embora as investigações se concentrem no Rio de Janeiro, casos de má gestão ou desvio de recursos em fundos de previdência pública têm um impacto indireto em todo o cenário econômico nacional. A confiança nas instituições públicas e a estabilidade financeira dos fundos de pensão são pilares para o desenvolvimento regional e a segurança dos aposentados. Escândalos como este podem gerar desconfiança nos mercados e na capacidade de gestão pública, afetando o ambiente de negócios e a atração de investimentos em outras regiões, como o Norte Pioneiro do Paraná. A transparência e a correta aplicação dos recursos públicos são fundamentais para um ambiente econômico saudável e previsível, que permita o crescimento de setores estratégicos e a melhoria da qualidade de vida da população.
Fonte: Poder360 — Nacional — matéria original publicada em poder360.com.br. Imagens e vídeos: Poder360 — Nacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.