Um patógeno altamente letal está por trás de uma preocupante mortandade em massa de girinos e do rápido declínio populacional de anfíbios na Mata Atlântica. Pela primeira vez na América do Sul, pesquisadores apoiados pela Fapesp comprovaram que surtos recorrentes de ranavirose provocaram uma queda de 83% na reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa no estado de Santa Catarina. A doença, causada por um vírus que também pode afetar répteis e peixes, representa uma ameaça significativa à biodiversidade da região.
Descoberta Inédita na América do Sul
O estudo, publicado na última quinta-feira, 20 de agosto de 2026, na revista Biodiversity and Conservation, fornece a primeira evidência robusta de que o ranavírus é capaz de causar o colapso de populações silvestres sul-americanas. Este risco de extinção já havia sido documentado na Europa, e agora se manifesta de forma alarmante no Brasil. Os dados da pesquisa indicam que a ameaça se agrava em períodos de seca, quando a baixa umidade do ar favorece a ocorrência dos surtos da doença.
A perereca-macaco, espécie endêmica da Mata Atlântica, pode estar mais ameaçada do que se imaginava. O ranavírus é comumente encontrado infectando rãs-touro (Aquarana catesbeiana) em criações comerciais ou na natureza, geralmente sem causar doença. Contudo, nas últimas décadas, houve um aumento nos relatos de mortandades suspeitas – possivelmente desencadeadas por esse patógeno – de espécies nativas nas Américas do Sul e do Norte. Pesquisadores e ambientalistas expressam preocupação de que outros casos de morte em massa causados pelo vírus possam estar ocorrendo sem serem detectados.

Sintomas e Confirmação da Doença
Nos girinos, a infecção pelo ranavírus avança de forma rápida e devastadora, resultando na destruição e necrose de tecidos em órgãos vitais, como o fígado. Os sinais clínicos visíveis a olho nu incluem inchaço abdominal (edema), vermelhidão extrema, úlceras e múltiplas hemorragias, que podem ocorrer inclusive dentro dos olhos dos animais.
“Apesar de várias mortes suspeitas documentadas no continente americano, é a primeira vez que se comprova a ranavirose, por meio de análises dos tecidos [histológicas] dos fígados dos animais e [da análise] dos vírus isolados deles, como causa das mortes em uma espécie nativa”, afirmou Aline Fonseca, que realizou o trabalho como parte de seu doutorado na UFPR (Universidade Federal do Paraná).
Os girinos da perereca-macaco apresentaram vermelhidão compatível com hemorragia, além de inchaço abdominal. Testes moleculares confirmaram a infecção por ranavírus como a causa das mortes.

Detalhes dos Surtos e Localização
Os eventos de mortandade ocorreram na Reserva Particular do Patrimônio Natural Santuário Rã-Bugio, localizada no município de Guaramirim, em Santa Catarina. O primeiro surto foi registrado em janeiro de 2024, seguido por outros dois entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, e entre novembro de 2025 e março de 2026.
- Total de girinos mortos: 324
- Perereca-macaco (Phyllomedusa distincta): 315 girinos mortos
- Perereca-de-pijama (Boana bischoffi): 9 girinos mortos
Entre as pererecas-macaco, 279 (88,6%) testaram positivo para o ranavírus, com uma carga viral considerada alta, quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra. Das pererecas-de-pijama, 8 (88,9%) estavam infectadas, com uma carga viral de cerca de 2 bilhões de cópias. O número de mortes de pererecas-de-pijama, no entanto, foi considerado pequeno para caracterizar uma mortandade em massa. Para comprovar os sinais clínicos da doença, 13 girinos tiveram os fígados analisados por histologia, técnica que verifica danos aos tecidos e às células usando um microscópio, confirmando o quadro severo da infecção.

Declínio Populacional e Fatores Ambientais
Além de comprovar a ranavirose como causa das mortes, os pesquisadores compilaram dados climáticos de duas semanas antes e durante os eventos de mortandade para identificar possíveis associações. O monitoramento contínuo da lagoa, realizado desde 1999 por Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, foi crucial. Diariamente, no período reprodutivo (junho a fevereiro), são contadas as massas de ovos depositadas sobre folhas da vegetação, que são dobradas pela fêmea para proteger os ovos do ressecamento. Após a eclosão, os girinos caem diretamente na água.
“Realizamos análises estatísticas que pudessem apontar mudanças ambientais e climáticas capazes de contribuir para as mortes, mas nenhum fator teve um peso tão significativo sobre o declínio da população como a ranavirose”, explicou Karla Campião, professora da UFPR e orientadora do doutorado de Fonseca.
No período de agosto de 2025 a fevereiro de 2026, logo após as mortandades, o número de massas de ovos foi substancialmente menor do que nos mesmos meses entre 1999 e 2004. A partir desses dados, o declínio da população foi calculado em 83%.
Embora nenhum fator ambiental isolado possa ser relacionado de forma significativa com as mortes ao longo dos anos, os pesquisadores apontam um aumento abrupto do risco de surto quando a umidade cai de 90% para 65% duas semanas antes da mortandade.
“Provavelmente, o vírus está presente no ambiente o tempo todo, sem causar doença, mas a baixa umidade pode fazer com que ele aumente a própria replicação e cause um surto. É sabido ainda que o sistema imune dos anfíbios pode ficar comprometido em baixas taxas de umidade, o que facilita a infecção”, sugeriu Fonseca.
Além disso, menos água no lago faz com que os girinos fiquem mais concentrados em uma área menor, facilitando a transmissão do vírus de um indivíduo para outro.

Próximos Passos e Contexto da Pesquisa
O monitoramento da lagoa do Santuário Rã-Bugio continua. Futuramente, as pesquisadoras da UFPR pretendem coletar amostras em áreas próximas para verificar a prevalência do ranavírus. O estudo integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, apoiado pela Fapesp e coordenado por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O trabalho também recebeu financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) do Brasil e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.
“Esse vírus também pode ser uma grande ameaça para a conservação dos anfíbios. Há mais de uma década estamos estudando o fungo quitrídio [Batrachochytrium dendrobatidis] como causador de mortandades e extinções de anfíbios. Porém, este vírus, que já está espalhado pela Mata Atlântica, pode também estar fazendo o mesmo. Assim, precisamos aprofundar os estudos para entender o real perigo decorrente da presença do ranavírus”, ressaltou Toledo.
Além de buscar o vírus em animais na natureza, o pesquisador enfatiza a importância de verificar anfíbios depositados em museus de zoologia para entender o impacto do ranavírus no passado. Em um trabalho recente, seu grupo detectou que o fungo quitrídio infectava anfíbios brasileiros já em 1916, antes mesmo da introdução da rã-touro no país, que era considerada a fonte mais provável de ingresso do fungo no Brasil.
“Talvez o ranavírus também esteja aqui há muito tempo. Resta saber o que mudou para ele se tornar uma ameaça”, concluiu Toledo.
O artigo completo, intitulado “Population decline of a leaf frog coincident with recurrent ranavirosis outbreaks in the Atlantic Forest”, pode ser acessado em link.springer.com/article/10.1007/s10531-026-03433-6.
Fonte: Poder360 — Nacional — matéria original publicada em poder360.com.br. Imagens e vídeos: Poder360 — Nacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.