A posição da Venezuela no topo do ranking global de reservas comprovadas de petróleo voltou ao centro de um intenso debate técnico e geopolítico. Embora o governo do país sul-americano sustente possuir 303,7 bilhões de barris subterrâneos prontos para extração comercial, um grupo de seis especialistas independentes ouvidos pela agência de notícias Associated Press (AP) aponta que o montante efetivamente recuperável nas condições econômicas e tecnológicas vigentes é muito menor: entre 60 bilhões e 120 bilhões de barris. Com essa reavaliação, o país perderia a liderança do setor para a Arábia Saudita.

O anúncio de Washington e a contestação dos 65 bilhões de barris

A divergência entre as estatísticas oficiais e a realidade geológica ganhou repercussão internacional direta após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em agosto, o líder norte-americano divulgou a celebração de um acordo bilateral que garantiria a Washington o controle de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas em território venezuelano. Na avaliação de Trump, a operação representaria a maior negociação da história do segmento petrolífero, servindo como instrumento estratégico para repor os estoques norte-americanos e conter a escalada dos preços da gasolina, pressionados pelo conflito armado envolvendo o Irã.

De acordo com informações de autoridades de ambos os países, o pacote envolve 17 campos de exploração administrados por uma joint venture da companhia North American Blue Energy Partners (Nabep). Um ponto de atenção levantado pelo mercado é que a Nabep não possui capital aberto em bolsas de valores, ficando desobrigada de cumprir as regras rígidas de prestação de contas e de auditoria de reservas exigidas pela Securities and Exchange Commission (SEC), o órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos.

Apesar da defesa do governo norte-americano, técnicos do setor contestaram de forma imediata o montante prometido na transação bilateral.

"Não podemos acreditar nesses 65 bilhões. É impossível", afirmou Evanan Romero, ex-funcionário do setor energético venezuelano, em entrevista à AP.

Segundo Romero, a administração de Donald Trump não procedeu com a devida checagem técnica das alegações apresentadas pelos negociadores venezuelanos. A Casa Branca não forneceu detalhes sobre a metodologia utilizada para homologar os números. Em comunicado oficial, a porta-voz Taylor Rogers rebateu os questionamentos, sustentando que o acordo é um instrumento para recuperar a economia venezuelana, desgastada por anos de hiperinflação e falta crônica de investimentos, além de duplicar o volume de reservas petrolíferas à disposição dos Estados Unidos.

Estimativas divergentes e a complexidade da Faixa do Orinoco

As análises detalhadas por especialistas mostram um abismo entre o petróleo total retido nas rochas e o volume que pode ser tecnicamente retirado com viabilidade econômica. Analistas afirmam que o acordo envolve ativos petrolíferos que já estão em estágio avançado de esgotamento ou que sequer começaram a ser desenvolvidos, concentrados sobretudo na Faixa do Orinoco, região caracterizada pelo óleo extrapesado de alta densidade e viscosidade.

Luisa Palacios, pesquisadora da Universidade Columbia e ex-presidente do conselho da refinaria Citgo, avalia que o volume de 65 bilhões citado pela Casa Branca se refere ao total existente no subsolo (óleo in situ) e não a reservas comprovadas, classificação que exige viabilidade técnica e financeira comprovada para a extração. Segundo os cálculos da pesquisadora, apenas 5% desse montante poderia ser de fato categorizado como reserva comprovada, o que resultaria em modestos 3,2 bilhões de barris.

Uma perspectiva similar foi apresentada por Francisco Monaldi, diretor de política energética para a América Latina no Instituto Baker da Universidade Rice. O acadêmico estima que, no curto prazo, o volume plausível de reservas comprovadas situar-se-ia entre 10 bilhões e 15 bilhões de barris. Atualmente, os especialistas calculam que a taxa média de recuperação viável para os campos de petróleo da Venezuela não ultrapassa 10%, caindo para uma faixa entre 5% e 8% na Faixa do Orinoco, onde o cru denso depende de tecnologias térmicas pesadas, solventes caros e plantas de melhoramento complexas.

A revisão histórica iniciada na gestão de Hugo Chávez

As suspeitas sobre as distorções nos inventários de hidrocarbonetos da Venezuela não são recentes e remontam a meados da década de 2000, sob a presidência de Hugo Chávez. Na ocasião, o governo chavista lançou uma ampla campanha de certificação na Faixa do Orinoco com o apoio de companhias petrolíferas estatais estrangeiras e da consultoria internacional independente Ryder Scott.

Durante o processo de levantamento, a Ryder Scott calculou que o subsolo da bacia continha mais de 1 trilhão de barris brutos. No entanto, a consultoria norte-americana não atestou qual parcela desse gigantesco depósito possuía alta probabilidade de extração econômica no mercado internacional. Diante do impasse, o governo da Venezuela realizou a conversão aritmética unilateralmente, aplicando índices arbitrários de recuperação. Sem concordar com a metodologia estatal, a Ryder Scott recusou-se a validar o resultado final e rompeu o contrato com o governo local.

O desfecho dessa política de comunicação energética ocorreu em 2011, quando a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) formalizou um salto abrupto de 82 bilhões de barris em seus relatórios oficiais, elevando o patrimônio nacional para quase 300 bilhões de barris. A petroleira justificou o acréscimo afirmando ter revisado suas taxas de recuperação, sem apresentar relatórios de engenharia ou auditorias externas transparentes.

"Estão infladas por um fator de quase três", destacou Francisco Monaldi a respeito das reservas declaradas pelo país.

O ranking oficial da Opep e a conjuntura política venezuelana

Apesar da ausência de auditorias independentes e das reiteradas contestações técnicas, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) preservou a Venezuela na primeira posição de seu ranking oficial ininterruptamente desde 2011. No balanço divulgado em 2026, a organização chancela os 303,7 bilhões de barris atribuídos ao país, patamar que o deixa à frente de nações com produção e infraestrutura consolidadas:

  • Venezuela: 303,7 bilhões de barris comprovados declarados;
  • Arábia Saudita: 267 bilhões de barris comprovados;
  • Irã: 208 bilhões de barris comprovados.

O volume foi mantido inalterado e defendido pelas administrações sucessivas de Hugo Chávez, Nicolás Maduro e da presidente interina Delcy Rodríguez, cujo mandato expirou em julho de 2026 sem a realização de um novo pleito eleitoral. Setores da oposição venezuelana também costumam respaldar os dados, que no passado serviram de lastro soberano para contrair empréstimos de bilhões de dólares junto aos governos da China e da Rússia.

Essa falta de variação nas métricas ao longo de mais de uma década acende alertas entre investidores globais que cogitam aplicar capital no setor petrolífero do país, historicamente marcado por insegurança jurídica, estatizações e descumprimento de termos contratuais.

"Qualquer país que divulgue um número de reservas que nunca muda ao longo do tempo desperta uma enorme desconfiança", concluiu Monaldi.

Procurados pela reportagem da Associated Press para esclarecer os critérios de cálculo adotados nos relatórios, tanto o governo da Venezuela quanto a Opep preferiram não se manifestar sobre os questionamentos levantados pelos analistas internacionais.

Leitura da LZ7 Energia

A instabilidade na mensuração das reservas de petróleo e as oscilações nos preços internacionais dos combustíveis reforçam a vulnerabilidade de setores produtivos dependentes de fontes fósseis. Para as empresas e o agronegócio paranaense, a transição para a geração solar própria surge como uma alternativa segura para blindar custos operacionais e reduzir a exposição às incertezas do mercado global de energia.

Fonte: Tribuna do Norte — Campos Gerais — matéria original publicada em tnonline.uol.com.br. Imagens e vídeos: Tribuna do Norte — Campos Gerais. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.