Famosa pelas paisagens formadas pela Represa de Chavantes e por cartões-postais como o Morro do Gavião e a Estância Pedra do Índio, a cidade de Ribeirão Claro, no Norte Pioneiro paranaense, conta agora com uma proposta inovadora voltada à sustentabilidade e ao agroturismo. Uma pesquisa desenvolvida por Giovana Balsarin Pinto, de 18 anos, aluna da 3ª série do Ensino Médio do Colégio Estadual Cívico-Militar Doutor João da Rocha Chueiri, planeja estruturar o reaproveitamento de resíduos orgânicos gerados no município por meio da participação direta de visitantes em propriedades agrícolas.

O projeto nasceu a partir da observação atenta do fluxo de descarte na cidade. De acordo com informações repassadas pela Prefeitura de Ribeirão Claro, o município já mantém um sistema estruturado de coleta seletiva para materiais recicláveis; no entanto, as sobras orgânicas não passam por reaproveitamento e acabam encaminhadas para um aterro sanitário devidamente licenciado. Ao identificar essa lacuna ambiental, a estudante pensou em um modelo capaz de direcionar esses materiais para a adubação de lavouras e, simultaneamente, criar atrativos educativos para o turismo rural.

Estudante de Ribeirão Claro cria projeto que liga lixo orgânico ao turismo rural
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Proposta une destinação de resíduos e turismo de experiência

A técnica central sugerida no estudo é a compostagem, processo biológico que converte restos de alimentos, cascas de vegetais e folhas secas em adubo natural de alta qualidade para o solo. Giovana reside desde o nascimento em uma propriedade rural com sua família, vivência cotidiana que forneceu a inspiração prática para elaborar o trabalho acadêmico.

O foco da estudante é promover a chamada economia circular, integrando o meio urbano, o setor de serviços e a vida no campo em uma mesma cadeia sustentável.

“Muitas pessoas vêm de fora e não têm contato com o campo. Elas poderiam conhecer e vivenciar o processo produtivo e o manejo da compostagem, compreendendo a importância da economia circular para a produção e incentivando o consumo consciente”, relata Giovana Balsarin Pinto.
Estudante de Ribeirão Claro cria projeto que liga lixo orgânico ao turismo rural
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Como funcionaria o circuito entre comércio, turistas e sítios

Pelo modelo delineado na pesquisa, estabelecimentos comerciais do município — como feiras, supermercados, restaurantes e pousadas que atendem o setor turístico — ficariam responsáveis por fazer a triagem inicial e separar os resíduos orgânicos descartados, a exemplo de cascas de frutas e sobras de legumes limpas. Esses materiais seriam então direcionados a pontos de coleta organizados na cidade.

A partir desses locais de entrega, os próprios turistas poderiam retirar pequenas frações do material orgânico previamente separado e transportá-lo durante suas visitas aos sítios e fazendas credenciados. Nas propriedades rurais parceiras, os visitantes participariam de oficinas práticas e vivências guiadas:

  • Acompanhamento de todas as etapas do manejo de pilhas de compostagem biológica;
  • Compreensão do tempo de maturação e transformação da matéria orgânica em fertilizante;
  • Aplicação direta do bioadubo resultante nas hortas, pomares e plantações locais;
  • Interação com a rotina produtiva dos agricultores familiares da região.

A iniciativa pretende gerar benefícios mútuos: enquanto alivia a sobrecarga de resíduos nos aterros e reduz custos com adubação sintética, amplia a oferta de atrativos turísticos e diversifica a renda dos produtores rurais participantes.

Estudante de Ribeirão Claro cria projeto que liga lixo orgânico ao turismo rural
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Diagnóstico local e dados demográficos do município

Para conferir rigor técnico à proposta, Giovana realizou um levantamento detalhado de indicadores públicos utilizando bancos de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) e do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná). A meta do levantamento foi mensurar a quantidade e o perfil do material descartado para calcular a viabilidade do seu emprego produtivo no solo.

Os dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE mostram que Ribeirão Claro atingiu uma população de 12.364 habitantes. Desse total populacional apurado pelo instituto, 72,1% dos moradores vivem na área urbana e 27,9% habitam a zona rural. Como o município está inserido no polo turístico de Angra Doce, fortemente impulsionado pela orla da Represa de Chavantes e esportes náuticos, o fluxo flutuante de turistas reforça a relevância de se pensar soluções integradas para a infraestrutura de descarte.

Estudante de Ribeirão Claro cria projeto que liga lixo orgânico ao turismo rural
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Apoio pedagógico e reconhecimento em feiras científicas

A elaboração do projeto contou com suporte institucional especializado dentro da rede pública de ensino do Paraná. O trabalho foi desenvolvido nas atividades de atendimento educacional voltadas a estudantes com altas habilidades/superdotação da Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR), sob orientação direta da professora Karen Pires Diniz.

“Buscamos incentivar os alunos a pesquisar assuntos que façam parte da realidade deles. A Giovana trouxe uma preocupação com a cidade onde vive e conseguiu relacioná-la à experiência que tem no campo. Durante o desenvolvimento do projeto, também percebemos avanços na criatividade e na capacidade de apresentar suas ideias”, pontua a orientadora Karen Pires Diniz.

Iniciada no primeiro semestre letivo, a pesquisa teve suas primeiras conclusões submetidas a uma feira científica promovida pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR), no campus de Jacarezinho, também no Norte Pioneiro. Na ocasião, o projeto de Giovana foi premiado pela comissão avaliadora.

Posteriormente, o trabalho ganhou projeção estadual ao ser selecionado para a Feira Científica do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (FENAAH/S), evento realizado pela Seed-PR no mês de setembro no município de Foz do Iguaçu, na região Oeste do Paraná.

Estudante de Ribeirão Claro cria projeto que liga lixo orgânico ao turismo rural
Foto: NP Diário — Norte Pioneiro

Próximos passos e integração com aplicativo de ecopontos

No estágio atual, a pesquisa científica encontra-se em fase de diagnóstico documental e consolidação dos números teóricos. Para avançar para uma aplicação experimental no território municipal, o plano demandará uma série de etapas estruturais:

  • Levantamento e confirmação precisa dos volumes diários de resíduos orgânicos gerados pelos estabelecimentos de gastronomia e comércio;
  • Mapeamento e formalização do interesse de sítios e propriedades rurais em receber as oficinas de compostagem;
  • Planejamento logístico dos pontos de entrega e das rotas de circulação dos materiais;
  • Engajamento e treinamento dos agentes turísticos locais.

Além da estrutura presencial, a estudante prevê conectar o sistema a uma solução digital: a adaptação de um protótipo de aplicativo móvel para ecopontos, desenvolvido por ela em uma pesquisa anterior. A ferramenta tecnológica serviria para indicar locais de descarte, monitorar a pontuação de participantes e mobilizar ativamente a população urbana e os visitantes no ecossistema sustentável da cidade.

Leitura da LZ7 Energia

A articulação entre turismo rural e gestão sustentável de resíduos orgânicos reforça a importância da eficiência no campo. Propriedades que adotam práticas circulares — como a compostagem e a preservação de recursos — encontram sinergia direta na autogeração de energia solar, que reduz despesas operacionais em câmaras frias, irrigação e instalações turísticas, aumentando a viabilidade e a sustentabilidade das propriedades rurais do Norte Pioneiro.

Fonte: NP Diário — Norte Pioneiro — matéria original publicada em npdiario.com. Imagens e vídeos: NP Diário — Norte Pioneiro. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.