Autoridades do governo da Ucrânia confirmaram nesta sexta-feira que o sistema de internet via satélite Starlink, operado pela empresa norte-americana SpaceX, continua sofrendo severas restrições técnicas em território ucraniano. As limitações afetam diretamente o Starshield, versão militar da tecnologia fornecida pela companhia do empresário Elon Musk, contrariando afirmações recentes de lideranças políticas norte-americanas que sugeriam a normalização do serviço na zona de combate.
Bloqueios técnicos reduzem eficiência militar
As dificuldades com o sistema começaram a ser relatadas oficialmente no dia 14 de outubro. Desde essa data, Kiev aponta que a SpaceX limitou a capacidade de defesa do país ao estabelecer travas de velocidade na rede Starshield. De acordo com informações repassadas por autoridades militares e governamentais, qualquer drone ucraniano que se desloque a uma velocidade superior a 100 milhas por hora (aproximadamente 160 km/h) perde a conexão de forma imediata, inviabilizando diversas operações táticas.
A perda de conectividade tem gerado impactos práticos no front de batalha. Dmitri Alperovitch, presidente do Silverado Policy Accelerator — centro de estudos sediado em Washington voltado para energia, tecnologia de defesa e comércio global —, afirmou à emissora CNBC que as forças ucranianas continuam enfrentando falhas graves nos terminais.
"Eles estão perdendo drones. A capacidade de realizar ataques no meio do percurso para atingir a logística russa agora está limitada."
— Dmitri Alperovitch, presidente do Silverado Policy Accelerator e ex-diretor de tecnologia da CrowdStrike

Manifestações de autoridades de Kiev
O encarregado de negócios e vice-embaixador da Ucrânia nos Estados Unidos, Denys Sienik, utilizou a rede social X para expressar a frustração do governo com a ausência de uma resolução rápida para o problema, reforçando o impacto humanitário do atraso.
"Cada dia importa para a Ucrânia, porque cada vida ucraniana importa. Nosso povo está esperando por notícias positivas, esperando que as restrições sejam suspensas e que nossos defensores tenham as capacidades necessárias para proteger vidas. Infelizmente, até o dia de hoje, nada mudou. Continuamos esperando."
— Denys Sienik, vice-embaixador da Ucrânia nos Estados Unidos
O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy também foi a público declarar que as restrições sobre a Starlink e a Starshield continuam em vigor. Ele salientou que o país também aguarda a entrega de interceptadores de mísseis já acordados com o governo dos Estados Unidos.
"As coisas ficaram mais difíceis — em parte por causa das políticas e dos limites de velocidade da Starlink e do Starshield. Mas a nossa linha de frente ainda está resistindo e estou orgulhoso de quão forte é o nosso povo."
— Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia
No aplicativo de mensagens Telegram, o conselheiro ucraniano em tecnologia de defesa, Serhii Beskrestnov, explicou o comportamento dos equipamentos no campo. Segundo o especialista, episódios pontuais em que a conexão parece operar além dos limites estabelecidos não representam o fim do bloqueio, sendo apenas resultados de ajustes nos algoritmos da própria SpaceX ou de condições específicas de uso.

Contradições políticas e pressões em Washington
A responsabilidade pela ordem de impor restrições à conexão de dados militares permanece incerta, mas o caso mobilizou parlamentares tanto do Partido Democrata quanto do Partido Republicano no Congresso norte-americano, que passaram a pedir uma investigação formal sobre a conduta de Elon Musk e o corte de desempenho da Starshield.
Houve divergências públicas a respeito do papel da Casa Branca na mediação da crise. O jornal The Wall Street Journal havia noticiado que Donald Trump conversou por telefone com Elon Musk para solicitar a suspensão das travas. Inicialmente, Trump afirmou que não comentaria se havia feito a ligação, declarando que o empresário havia restabelecido a rede. No entanto, na sexta-feira, Trump mudou sua versão aos jornalistas na área externa da Casa Branca, dizendo que não conversou com Musk sobre o tema.
"Ouvi dizer que foi consertado. Mas se não estiver, falarei com ele."
— Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
Até a publicação da reportagem, Elon Musk e representantes da SpaceX não haviam respondido às solicitações formais de posicionamento.
Busca por alternativas soberanas de comunicação
Diante da vulnerabilidade causada pela dependência da rede privada de satélites norte-americana, a Ucrânia iniciou movimentações diplomáticas e comerciais para contratar serviços complementares. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional pontuam que substituir a infraestrutura da Starlink é uma tarefa complexa no curto prazo, uma vez que não existem no mercado outras operadoras com constelações e cobertura plenamente equivalentes às da empresa de Musk.
Apesar desses obstáculos, o governo ucraniano avançou em tratativas no continente europeu para diversificar seus fornecedores de telecomunicação em órbita:
- Negociações na Noruega: Reuniões bilaterais com autoridades do governo norueguês e com a empresa de defesa Kongsberg para articular sistemas de defesa aérea e planejar o fornecimento de novas capacidades de comunicação satelital militar.
- Acordo com a Finlândia: O Ministério da Defesa da Ucrânia assinou uma carta de intenções conjunta com a multinacional de telecomunicações Nokia e a empresa de inteligência espacial finlandesa ICEYE.
- Objetivo soberano: A cooperação finlandesa foca na exploração de operações no espaço e na criação de uma infraestrutura soberana de telecomunicações por satélite gerida por Kiev.
"A guerra moderna provou que comunicações confiáveis são uma questão de segurança nacional. Todos devemos confiar em capacidades que podemos controlar."
— Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia
Fonte: CNBC — Economia global — matéria original publicada em cnbc.com. Imagens e vídeos: CNBC — Economia global. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
