As forças governamentais da Etiópia entraram na cidade de Adwa, na região de Tigré, sem encontrar resistência, conforme relatos de testemunhas locais. O avanço ocorre dias após a captura de Adigrat, outra cidade estratégica, e em um contexto de retomada dos voos comerciais para Mekelle, a capital regional, sinalizando uma intensificação das operações federais na conturbada região norte do país.
Avanço Federal em Adwa
Moradores de Adwa, localizada a aproximadamente 40 quilômetros da fronteira com a Eritreia, confirmaram que as forças federais etíopes, acompanhadas por uma milícia aliada, adentraram a cidade no último domingo. A entrada das tropas ocorreu um dia após a retirada dos combatentes da Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF), que controlavam a área. Ayman Assefa, vice-presidente do TPLF, recusou-se a comentar sobre a situação, afirmando apenas que “não desejava comentar”.
Aferwerki, um residente local que preferiu não divulgar seu sobrenome completo, descreveu o cenário pós-retirada dos rebeldes à agência AFP. Segundo ele, “todas as lojas da cidade estão fechadas. Na noite passada, muitas instituições governamentais, incluindo o Hospital de Adwa, foram saqueadas”. Outro morador, que pediu anonimato, corroborou a retirada das forças do TPLF, mas observou que, embora as tropas governamentais estivessem presentes na cidade, elas ainda não haviam chegado ao centro. “As ruas estão desertas. As pessoas estão com muito medo de roubos”, afirmou.
Contexto e Ataques Anteriores
Este movimento das forças federais segue um período de intensa atividade militar na região. O monitor de conflitos ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) relatou que, em 4 de outubro, ataques de drones etíopes atingiram um hotel em Adwa. O incidente resultou em ferimentos para “cinco a nove pessoas, incluindo pessoal de segurança”, que foram levadas ao hospital. Fontes do ACLED indicaram que o presidente do TPLF, Debretsion Gebremichael, e outros altos funcionários poderiam estar no hotel, mas a informação não foi verificada.
Na semana anterior à entrada em Adwa, as forças etíopes já haviam capturado Mekelle, a capital regional do Tigré. A TPLF havia confirmado sua retirada da cidade dias antes, anunciando que havia transferido sua administração regional “temporariamente” para outro local. Este padrão de retirada rebelde seguido por avanço federal tem sido uma constante no conflito.
Restabelecimento de Voos e Mensagens de Paz
Em um sinal de normalização, a Ethiopian Airlines retomou os voos da capital, Adis Abeba, para Mekelle no último domingo. Esta foi a primeira vez que os voos foram restabelecidos desde 23 de setembro, quando uma aliança armada de sete grupos, incluindo o TPLF, iniciou combates contra as forças etíopes e tomou o aeroporto. O reinício das operações aéreas é um passo importante para a conectividade e o acesso à região.

No aeroporto de Mekelle, Getachew Reda, um ex-líder do Tigré que agora atua como conselheiro do primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, foi recebido por apoiadores. Ao lado do chefe de inteligência da Etiópia, Redwan Hussein, Reda dirigiu-se à multidão com uma mensagem de esperança:
Gostaria de assegurar-lhes nesta ocasião que traremos uma mudança visível, uma mudança além da mera esperança.
Tensões Regionais e Acusações
A Etiópia tem acusado nações vizinhas como Eritreia, Sudão e Egito de apoiar a aliança rebelde. Cartum e Cairo negaram veementemente qualquer envolvimento. A Eritreia, que lutou ao lado do exército federal etíope na guerra de 2020-2022, rompeu laços diplomáticos com a Etiópia na semana passada devido a essas acusações. A complexidade das relações regionais adiciona uma camada de desafio à estabilização do Tigré.

O que isso significa para a região
A retomada de Adwa pelas forças federais etíopes, sem combate direto, e o reinício dos voos para Mekelle indicam uma mudança na dinâmica do conflito no Tigré. A retirada do TPLF das principais cidades sugere uma reconfiguração de suas táticas ou uma diminuição de sua capacidade de manter posições urbanas. Para os moradores, a situação é de incerteza, marcada pelo medo de saques e pela expectativa de estabilidade. A presença de um ex-líder do Tigré, Getachew Reda, agora alinhado ao governo federal, e suas declarações de "mudança visível" podem sinalizar um esforço para a reconciliação ou para a imposição de uma nova ordem política na região. No entanto, as acusações de apoio externo aos rebeldes e o rompimento diplomático com a Eritreia mostram que as tensões regionais permanecem elevadas, podendo influenciar a durabilidade de qualquer acordo de paz ou estabilidade alcançada no terreno.
Fonte: Al Jazeera — Internacional — matéria original publicada em aljazeera.com. Imagens e vídeos: Al Jazeera — Internacional. Texto apurado e reescrito pela redação da LZ7 Energia.
